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marina malheiro

"Eu não escrevo em português. Escrevo eu mesmo."

Fernando Pessoa

# Sou do tamanho do que vejo

Hemingway foi um escritor único. Ensinou-nos a ver, a amar a vida, " em fiesta", em Paris onde viveu, pobre e feliz. Mas, para além disso, as palavras de Hemingway são ( porque a sua escrita é perene) únicas e muito humanas, muito tocantes.


"Tudo depende de como vemos as coisas e não de como elas são." Jung

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Ernest Hemingway foi um escritor soberbo, não só pela sua fluidez de escrita, mas também pela sua extraordinária capacidade de ficcionar, tornando o irreal mais próximo do leitor que, assim que começa a ler as suas linhas, "entra" na história e "vive-a".

Mas, para além disso, as palavras de Hemingway são ( porque a sua escrita é perene) únicas e muito humanas, muito tocantes.

Paris é uma festa é um romance autobiográfico sobre a sua vivência em Paris, quando era um escritor pobre mas feliz com a sua mulher e o seu filho pequeno, e se dava com os artistas, escritores, que ali viviam e com Gertudre Stein.

Um desses escritores foi F.Scott Fitzgerald de quem se tornou amigo. Num momento em que Fitzgerald estava mais inseguro na sua relação com Zelda, sua mulher, Hemingway escreve/ diz estas boas palavras : " És absolutamente normal- declarei.- Absolutamente fixe. Não tens defeito nenhum. Tu observas-te de cima para baixo e é isso que te dá a impressão de pequenez. Vai ao Louvre ver as estátuas e, depois de voltares para casa, observa-te ao espelho, de perfil. -Essas estátuas podem não ser perfeitas. - São bem fiéis. A maior parte das pessoas podia posar para elas.(...)". (1)

Fitzgerald sentia-se inferior por não conseguir agradar a Zelda, desenvolvendo aquilo a que Jung chamou de complexo, algo que nos "possui" e que está ligado ao afecto. As boas palavras de Hemingway serviram para demonstrar que aquilo que, cognitiva e afetivamente Fitzgerald sentia estava relacionado com a sua perspectiva de si mesmo.

Alberto Caeiro, um dos heterónimos de Fernando Pessoa, escreveu n' "O Guardador de Rebanhos"; " Da minha aldeia veio quanto da terra se pode ver no Universo... / Por isso a minha aldeia é tão grande como outra terra qualquer/Porque eu sou do tamanho do que vejo/E não, do tamanho da minha altura... /Nas cidades a vida é mais pequena /Que aqui na minha casa no cimo deste outeiro. (...)". "A nossa única riqueza é ver", é assim que termina o poema.

E, de facto, sublinhando Jung, tudo depende como vemos as coisas, o mundo, os outros, os pequenos nadas, as dores, as alegrias, a capacidade para relativizarmos o caminho.

Os que perderam a capacidade para ver, não necessariamente a visão, vivem em cegueira permanente e é tão bom ver.!

(1) Paris é uma Festa, Hemingway, Livros do Brasil, s/d


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"Eu não escrevo em português. Escrevo eu mesmo." Fernando Pessoa.
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