um café e um pãodequeijo

aquela conversa mineira de cafeteria no fim do dia...

Stella Vilar

Stella estuda psicologia, mas não passa o tempo todo analisando ninguém. Não é mineira, mas sente como se fosse. Acha que uma das melhores coisas é sentar e papear, seja papo cult ou não.

Beirut, o indie folk e a melancolia contemporânea


A banda/orquestra americana que toca sobre como vivemos na pós-modernidade.

Thumbnail image for beirut_1.jpgExpoente desse estilo ainda sem nome “oficial”, mas por vezes chamado “indie folk”, a banda (ou “orquestra”, como também se diz, pela quantidade e variedade de instrumentos) Beirut, nascida em Santa Fé, Novo México, e conduzida pelo vocalista e instrumentista Zach Condon, é possivelmente a mais popular do gênero. De pegada meio latina (a banda é americana, mas com um pezinho no México), meio popular, meio erudita, popularizou-se no Brasil quando seu single “Elephant Gun” se tornou trilha sonora da minissérie global “Capitu”, em 2008. Desde então, Condon e sua trupe caíram no gosto do público brasileiro e foram vistos até interpretando (com um sotaque bem típico!) “Leãozinho”, de Caetano Veloso, pelo youtube afora. Mas o que seria o estilo indie folk? Uma mistura entre o folk clássico, que teve seu auge nos EUA nas décadas de 1950, 60 e 70 (pense em algo como Bob Dylan) ao “indie” (inicialmente diminutivo de “independent”), das bandas de 1990 pra cá, de produção independente, que criam um som mais “alternativo”, vulgo “oposto ao tradicional”. Portanto, é uma mistura do tradicional com o alternativo. Parece paradoxal? Nem tanto. Não se trata de um folk tradicional pelas temáticas que traz em suas letras e não tem as melodias tão “previsíveis” e o refrão todo produzido dando para o “quase pop” do folk antigo. Há mais uma nostalgia embutida nesse folk, garantida pelos instrumentos de sopro acrescentados, os metais, e o próprio timbre e entonação da voz de Condon. As letras falam do mundo em que vivemos, de abandonos (Nantes), de desesperança e esperança (A Sunday Smile), de passado (Postcards from Italy), de lembranças e desejos (Elephant Gun). Os jovens da banda/orquestra também tem um quê de “jovens idosos”, nostálgicos, meio “indie”, mas sem cair no indie “tradicional”. beirut_2.jpgA música que produzem pode ser vista como expressão da insatisfação contemporânea com o mundo e o atual estado das relações humanas, de opressão, impessoalidade, pelo excesso de tecnologia, de afazeres, a falta de tempo para a contemplação em geral, mas principalmente do outro. Sem o intuito de “sociologizar” uma música tão rica, mas lembra, ao fundo, o pensamento de Zygmunt Bauman, quando aponta as relações líquidas no nosso mundo líquido. Beirut vem com suas letras e melodias na contramão, expondo, criticando e oferecendo uma saída a esse nosso mundo contemporâneo que vive de efemeridades. Pode ser que por isso, além da qualidade, claro, que nos identifiquemos tanto com as canções, porque elas falam de quem nós somos (muitas vezes sem perceber). O estilo lembra algo de perene, uma esperança, um olhar de vivacidade nesse mundo da pós-modernidade, o que sobra é um quê de melancolia vivida pairando na melodia, nas letras e na escolha dos instrumentos. Uma utopia melancólica, talvez. Um apelo musical para se chamar a atenção para o belo que há entre cada momento vivido, singelamente. E mesmo um clipe completamente sem letra em tom de sépia levanta a bandeira de que ainda é possível (ao menos sonhar em) sentar e tocar despreocupadamente no meio do passeio público, na correria (e falta de segurança e com as relações líquidas e etcs) do dia-a-dia.


Stella Vilar

Stella estuda psicologia, mas não passa o tempo todo analisando ninguém. Não é mineira, mas sente como se fosse. Acha que uma das melhores coisas é sentar e papear, seja papo cult ou não..
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