um café e um pãodequeijo

aquela conversa mineira de cafeteria no fim do dia...

Stella Vilar

Stella estuda psicologia, mas não passa o tempo todo analisando ninguém. Não é mineira, mas sente como se fosse. Acha que uma das melhores coisas é sentar e papear, seja papo cult ou não.

Sobre ferrugem, ossos, fragilidades e cinema francês

O cinema francês atual falando de condições-limite da vida humana: um caldo de bons filmes e importantes reflexões...


ferr_osso.jpgHá algum tempo o cinema francês flerta com as indagações provocadas e o impacto causado pelos limites das condições de vida. Só pra ficar nas produções mais recentes, temos alguns filmes baseados em fatos reais, tais quais “O Escafrandro e a Borboleta” (2007) e “Intocáveis” (2011), bem como histórias fictícias de incrível veracidade, dentre as quais destacam-se “Amor” (2012) e “Ferrugem e Osso” (2012), este talvez um tanto menos conhecido. Passando brevemente por eles, “Escafandro...”, um drama, traz a história de um importante ex-jornalista que relata seu passado e também os momentos que vivencia durante sua condição de paralisia quase total, ao final da vida, comunicando-se apenas pelos olhos, por “piscadas” significativas, através das quais (e da infinita paciência de sua fonoaudióloga) escreve um livro de memórias e reflexões. A partir dessa condição, passa a rever sua vida e o significado da liberdade. “Intocáveis”, bastante aclamado pela crítica, foi considerada uma das produções mais injustiçadas pela academia norte-americana por ficar de fora das indicações finais a melhor filme estrangeiro em 2013. Conta a trajetória de amizade entre um (outro) paciente que sofre de tetraplegia e seu (nada convencional) cuidador, que não considera a condição física de seu “patrão” do ponto de vista depreciativo, e o faz retomar importantes sentidos de vida, transformando o filme em uma comédia dramática, ou um drama cômico, como queiram, o que não deixa de ser emocionante. amour.jpgA academia norte-americana, no entanto, não renegou a França em 2013. “Amor” (2012) foi (com todo o mérito) o melhor filme estrangeiro na premiação desse ano. A película apresenta a história de um casal de idosos, ativos e amantes de cultura, cuja vida e o relacionamento são colocados em xeque a partir do adoecimento da mulher, que passa por declínio de funções motoras e cognitivas. Questionam-se as identidades e o amor de ambos em uma situação limite, e o final é surpreendente (sem spoilers aqui!). “Ferrugem e Osso”, possivelmente o menos popular dentre os citados, tem direção de Jacques Audiard, e Marion Cotillard no elenco (isso, aquela que interpretou Edith Piaf, que fez o filme de Woody Allen rodado em Paris e contracenou com Di Caprio em “A Origem”, essa mesma!). O filme conta com um enredo que pode nem chamar muito a atenção: um pai solteiro muda-se de cidade com o filho e conhece uma treinadora de baleias (Cotillard), pela qual não se apaixona (cuidado, de agora em diante vêm os spoilers!), inicialmente. A “ferrugem” e os “ossos” estão espalhados pelo filme de forma sutil, assim como a atuação. Não há muito de ação, nem tanto da “passividade” ou de algum tipo de cinema-arte francês. A trilha sonora que fica na cabeça nem é francesa, mas americana, e pop, Katy Perry, por incrível que pareça. A ferrugem simboliza algo que há muito tempo não é tocado, usado ou posto em prática, e, por isso, enferruja, como o relacionamento da personagem de Cotillard (Stéphanie) com seu marido no início, ou de Alain (o “mocinho”), com sua irmã, com quem decide morar. Os ossos vêm simbolizando tanto o movimento, a dureza e as dificuldades, mas também a fragilidade, onde quer que ela esteja. A primeira e grande reviravolta ocorre quando Stéphanie sofre um acidente e tem de amputar parte das pernas, justamente devido a um ataque do animal em que mais confia, a baleia. A partir disso, ela se aproxima de Alain, e ambos iniciam uma trajetória de mudança (e de reconstituição de ossos). Stéphanie percebe que pode ser forte e superar uma condição de vítima, enquanto Alain, lutador clandestino, aprende princípios de sensibilidade, ao também quebrar alguns de seus ossos (literalmente) para salvar a vida do filho. E ambos engatam, paralelamente, um relacionamento amoroso.ferr_osso_2.png O toque de genialidade do filme está na mensagem que é passada através dos pequenos detalhes, costurados nas entrelinhas da atuação e da história. De fato, talvez muito da humanidade que temos se refira a evitar que se crie ferrugem no que temos de mais importante, relacionamentos e alguns valores, mas também em quebrar e reconstituir os ossos, quando necessário, pois, ao menos na teoria do filme, eles se reconstituem mais fortes.


Stella Vilar

Stella estuda psicologia, mas não passa o tempo todo analisando ninguém. Não é mineira, mas sente como se fosse. Acha que uma das melhores coisas é sentar e papear, seja papo cult ou não..
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