marco túlio dutra

um amontoado de referências. e só.

Encontrando Baker

Deus habitou entre nós: ele tocava trompete e, nos intervalos, relaxava se afundando em heroína.


Chet Baker, chet and diane - Rennes - November 19, 1987 - Photo by Richard Dumas.jpg

Até ano passado eu não gostava de jazz. Nem de Woody Allen (mas esse eu falarei sobre em um próximo texto, por enquanto vamos nos ater ao jazz.)

Então, eu não gostava de jazz. Uma música ou outra, talvez. Mas o estilo me irritava. Achava intelectual demais, cabeçudo demais. Música pavão, entende? Muita nota solta, perdida, jogada ao vento, com a desculpa de que era jazz, que era improvisação.

Ano passado, eu comecei a trabalhar numa produtora de vídeo. Meu chefe é apaixonado por jazz. Tinha feito um curso de documentário em Cuba e trazido consigo, além da vasta experiência em fotografia, um mundo velho de referências musicais do jazz cubano. Meu primeiro trabalho foi editar o vídeo do festival de jazz que aconteceu na cidade. A quem se interessar, basta clicar aqui pra conferir o vídeo.

Como era de se esperar, acabei ouvindo muito jazz. Tanto o tocado no festival, quanto outras referências musicais do estilo, na tentativa de achar alguma trilha que coubesse no vídeo. Jazz, embora eu não gostasse, era um estilo musical que, assim como o rock, pede por uma guitarra, pedia por instrumentos de sopro, os famosos metais: trompete, saxofone, flughorn, trombone, oboé, clarinete. Não importa, precisava ter algum sopro no meio.

Aos poucos, fui me acostumando à sonoridade, aos improvisos, ao passo sincopado. Eu gostava de bossa nova, a qual tinha a sua dose de jazz, e vice-versa. A partir daí, comecei a procurar por discos, pelos grandes nomes, pelos subgêneros do jazz. Até mesmo filmes – Woody Allen, Martin Scorcese, Roman Polanski – e livros – Kerouac e Ginsberg – que tivessem a influência de jazz.

Bom, fodeu. Eu tava ligadão naquilo.

Enquanto eu ia passando de álbum em álbum, eu começava a notar algo bem óbvio: a maioria dos músicos de jazz são negros. E isso sempre soou como algo natural pra mim. Tão natural quanto dizer que povo nenhum consegue fazer samba como o brasileiro, ou o cubano com seu bolero, ou o argentino com o seu tango. Da mesma maneira, povo nenhum consegue fazer um jazz tão bom quanto o americano, ainda mais aquele feito pelo americano negro. Os caras tem o dom pra isso. “dom” é mesmo a palavra certa. É como se aquilo fosse só funcionasse na mão deles, como se a criação do próprio jazz estivesse ligada diretamente ao ser negro. É tipo a música clássica e os alemães. Digam o que quiser, Mozart e Wagner ainda são a expressão máxima da música clássica.

Vez ou outra aparecia algum músico branco por ali, e ele era bom. Mas não era bom o bastante. E por mim tudo bem, foda-se a cor, o importante era o feeling, a expressão. Mas o cara ainda não era bom.

Até que eu encontrei o Chet Baker.

chet.jpg como dizia Bukowski: estilo é a resposta para tudo. (...) estilo é a diferença, um jeito de fazer, de ser feito.

Bicho, vou te ser sincero: que porra era aquela?

Alguns dizem que a carreira de Baker é dividida em duas partes: uma mais acelerada, mais bebop, até 1957, e outra mais íntima, mais ligada ao sentimento, à expressão pura da alma, posterior a 57 e que durou até sua (ainda) inexplicada morte. Eu confesso ter ouvido pouco da primeira parte de sua carreira, mas não me faz falta. Ouvi muito Bird, Davis, Coltrane, Mingus, Brown e outros. Agora, a segunda parte ... porra!, que glória. Não existe outra expressão. A primeira vez que ouvi algo do Baker tive a mesma sensação de quando ouvi a Ride of the Valkyries, do Wagner: aquilo ali era uma celebração, algo sagrado, elevado, muito acima da média. O trompete do Baker era como uma trombeta que abre a porta do céu para algo há muito esperado, para a realização da existência. Era um daqueles momentos em que as palavras simplesmente perdem a força e dá-se lugar à emoção pura, direta, bruta, que só a música é capaz de transmitir. E olha que eu tô falando do trompete, nem mencionei ainda a voz dele.

Meu irmão, que voz é aquela?

Sempre que escuto o Baker cantar tenho a mesma impressão de quando escuto o Armstrong: ele não tá cantando, só tá usando o trompete de outra forma. Tanto o Baker quanto o Armstrong têm essa característica bem peculiar de usar no canto a mesma ... expressão labial com que tocam trompete. E até cantando o cara era foda. Finalmente eu tinha encontrado um branco que conseguia jogar no mesmo nível que os grandões do jazz.

Eu fiquei viciado nele tanto quanto ele era na heroína.

Comprei um trompete por causa do Baker. Ainda tô aprendendo, mas espero um dia conseguir tocar “I Fall In Love Too Easily” e “Portrait in Black and White” tão bem quanto ele.

Não obstante o vício nele, na época eu estava em um relacionamento. Como a vida é uma zuera, o relacionamento foi por água abaixo e eu afundei junto. E quem estava lá, no iPod, no computador, no deezer, enfim, em qualquer lugar que se pudesse dar play? É, pois é, o Baker. Cada nota, cada palavra que ele sussurrava, cada silêncio, cada acelerada e cada desacelerada, enfim, tudo o que ele fazia me tocava a alma. Cada vez mais eu adentrava a porta do céu. Foram uns 3 ou 4 meses de chateação, saudade e melancolia. O tempo todo regado a Baker e alguns outros, mas nenhum tão marcante quanto ele. Hoje, tô curado da dor do amor perdido, mas o Baker ainda toca.

O Chet é um daqueles músicos que tu fica triste por saber que não vai conseguir ir a um show, assim como a Amy Winehouse. Para compensar isso, existem diversas gravações dele, o que já é o bastante pra vida ser boa.

Bom, fica aqui o meu muito obrigado: à cidade em que morei, por ter realizado um festival de jazz; ao meu chefe por ter me permitido editar o vídeo do festival e por me apresentar diversos músicos de jazz; aos negros e brancos e amarelos e vermelhos e homens e mulheres que não permitem que o jazz acabe; ao Baker, por ter me salvado, por ter me lembrado do poder da música e por ser, ainda que à distância, meu guru do trompete.


marco túlio dutra

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