Rafaela Freitas

Amarelo-Budapeste

Budapeste é cidade do passado, incorrupta, cheia de si. E em si tem uma cor apenas.


“O Danúbio, pensei, era o Danúbio mas não era azul, era amarelo, a cidade toda era amarela, os telhados, o asfalto, os parques, engraçado isso, uma cidade amarela, eu pensava que Budapeste fosse cinzenta, mas Budapeste era amarela”.

Chico Buarque, Budapeste

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Budapeste. Sim, Budapeste é amarela.

Turva, nunca cinzenta.

Budapeste tem cheiro de mulher gasta, tem cheiro de idade. Budapeste tem o que tem: tem cicatrizes e preconceitos. Tem ar carregado, penetrante nos sentidos. É o que é: cidade de uma vida.

A cor do nada, o cinzento, não a conhece. Não há vazio em Budapeste, nem caos.

Silenciosa, tem o gosto de uma paixão vulgar, esta. Insegura, efémera, insaciável. E eu, assim mesmo, me deixo envolver nela.

Nos seus telhados, no asfalto, nos parques. Nas fachadas carimbadas pelo tempo. Nos rostos esbatidos pela maquilhagem, belos, tão belos. Nos pátios que enchem a vista e nos transportes, toscos, que levam em si o mundo. No seu toque, que é do passado. Na sua língua, inalcançável, e tão terna.

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Hoje chove e há nuvens. Mas Budapeste não ficou cinzenta – continua de amarelo, amarelo-Budapeste.

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