um ponto no infinito

Sobre o que não é visto, mas que não deve ser ignorado,

Hellen Neto

Escrita é desabafo. É libertação.

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A mulher e suas várias feições em Buarque

Do gênero frágil ao sexo forte, a mulher assume os mais variados contornos. É um ser de fibra, mas de feições leves. Sabe ser firme, mas de decompõe a um olhar mais intimista. A mulher em Chico Buarque é antítese. É ser sereno e trabalhoso. Capaz de se mostrar em facetas divergentes conforme o ângulo em que é analisada.


Chico-Buarque_ACRIMA20110621_0056_23.jpg Google Imagens

Chico Buarque retrata em suas canções várias feições do sexo feminino. Busca abordar todo o sentimentalismo aliado a características muitas vezes antitéticas, revelando um universo complexo, mas que se mostra pleno frente a um olhar cuidadoso e carregado de emoções que envolvem sua composição. Consegue, ainda, deixar um certo olhar crítico, pois ao mesmo tempo em que descreve situações que poderiam ser consideradas ingênuas, guardam em sua profundidade um universo de significação que não se esgota por mais que se avance em sua análise. Retrata a mulher de uma forma única, revelando características daquela que sabe envolver-se dos mais diversos antagonismos existentes. Capaz de se transformar conforme a profundidade em que é alcançada.

Sabe ser espera. Em “Mulheres de Atenas”, tem-se evidenciada a doação, a capacidade de se diminuir em prol daquele que é aguardado e visto como a razão de sua existência. Movida pelo amor, a mulher docemente se envolve de humildade, guiando sua vida em prol de seus maridos que saem com o intuito de realizarem suas tarefas heróicas. A mulher é, então, símbolo de refúgio, é para onde eles voltam quando querem um pouco do abrigo e do carinho que somente esse gênero é capaz de oferecer.

Tomando-se o amor como referência, podemos delinear a mulher de Buarque como aquela capaz de retirar o juízo, fazendo com que sejam feitas loucuras antes não imaginadas. São capazes de despertar a atenção do homem ao envolvê-lo em suas nuances, fazendo com que se esqueça de sua própria vida para seguir o que lhe propiciará momentos em companhia da mulher a que se dedica o amor.

É a mulher que faz “perder a noção da hora”, como afirma o compositor em “Eu te amo”. Mas também é a mulher que, ao abandonar, desnorteia aquele que a tivera nas mãos. Este, já completamente envolvido pelo amor, perde os rumos de sua existência, não sabendo cogitar a vida longe dos encantos da amada. Envolvendo o ouvinte em suas tramas, Chico Buarque faz com que a emoção vença, tornando inevitável a aproximação com os personagens e o sentimento de desconforto ao tomar nota do sofrimento que aflige aquele que se viu embriagado pelos encantos da mulher amada. Há, então, a impossibilidade de não se comover com apelos como os explicitados na canção “Apesar de você”, na qual o compositor clama para que aquele que tenha inventado a tristeza, que a “desinvente”, por fineza, pois já não suporta a dor do abandono. Esta, então, é a mulher que aflige, aquela que não se apega, mas que, contraditoriamente, é capaz de fazer com que a ela sejam dirigidos os sentimentos mais puros e verdadeiros. Sentimentos estes que acabam por despertar o sofrimento, pois o amor a ela dedicado transforma-se não raro em obsessão, condicionando a felicidade de outrem a sua presença e entrega.

Há, ainda, a situação inversa. Mulheres que sofrem com o abandono. Que amaram, se doaram, mas viram seu amor partir. Mulheres que juraram amor eterno, mas não tiveram a mesma resposta e, devido a isso, sofrem. Mas não deixam de ser guerreiras. Juram superar, mas guardam no peito a dor do abandono sofrido. E então, como uma forma de vingança, apelam dizendo que tiveram amores maiores e melhores. Mas que estarão prontas, assim que o amor quiser voltar. Pois, como afirma a canção “Olhos nos olhos”, quando o ser amado delas precisar, estarão prontas para atendê-los, pois “a casa é sempre sua, venha sim”.

Compreendemos na música de Buarque toda essa esfera envolvendo o universo feminino como uma busca em prol de retratar a mulher em suas várias facetas, em seus caracteres mais variados. A mulher não é um ser definido, e é exatamente isso o que Chico quis passar em suas composições. Aliando sempre o elemento “amor”, ele cria todo um universo apaixonante em suas letras, fazendo com que a emoção viva em suas músicas, cativando pela simplicidade carregada de conteúdo sentimental.

Ao apreciar os seus escritos, desperta-se todo o romance capaz de levar a uma compreensão desse universo e, ao mesmo tempo, a uma crítica frente aos comportamentos comumente relatados. A submissão, o amor sem medidas, o sofrimento, são elementos sempre presentes, que exarcebados, propiciam uma análise do sentimento de uma forma singular. Ao revelar o amor como um sentimento aprisionante, Chico alcança aqueles que se vêem passando por sentimentos por ora paralelos, e encontram em suas músicas um consolo, ou mesmo uma forma de desabafo. Correspondência essa que leva muitos a navegarem em suas canções e a buscar inspiração em suas experiências sentimentais.

Não há como falar de Chico Buarque e suas mulheres sem citar a famosa “Geni”, retratada na música “Geni e o Zepelim”, canção que mostra a faceta de uma mulher determinada e segura de si, totalmente alheia a convenções sociais. Nela, há a caracterização da repulsa social dirigida à mulher que não se prende a padrões, e que não teme em utilizar o seu corpo para satisfação de seus anseios. Nela, vigora a repulsa da sociedade dirigida àquela que é vista como fora dos padrões aceitáveis para admissão dentro do seio social. Mas a mulher forte às pressões não se sucumbe, demonstrando, mais uma vez, um exemplo da fortaleza passível de ser encontrada em exemplares do sexo feminino.

Por todas as canções e retratos que faz, torna-se impossível esgotar o retrato que Chico Buarque traz em suas letras no que concerne ao universo feminino. É capaz de retratar a mulher em caracteres mais diversos, buscando sempre passar conteúdo aliado a doses de sentimentalismo, propiciando canções singulares. Trazendo comumente um olhar crítico mas ao mesmo tempo apaixonante, Chico monta com maestria suas canções, superando critérios temporais. Retratando estórias, sentimentos e vivências, envolve todo aquele que se lança na apreciação de suas canções.


Hellen Neto

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