um ponto no infinito

Sobre o que não é visto, mas que não deve ser ignorado,

Hellen Neto

Escrita é desabafo. É libertação.

Email: [email protected]

Tempo de aparências ou tempo de insegurança?

Em tempos de aparência, a imagem que o outro monta sobre nós tem se sobreposto àquela que tecemos sobre nós mesmos. Assim, mitiga-se o “eu” em prol de produzir aquilo que é esperado e aceito de acordo com o panorama alheio.


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A cultura da aparência está lançada. Não se vive há tempos para si mesmo. O que se procura, ao contrário, é medir os sucessos alcançados a partir da expectativa do outro, subjugando-se o amor próprio. Sob essa perspectiva, o mito do narcisismo se torna inverso. Não se apaixona pela própria imagem; apaixona-se pela projeção que essa imagem pode causar a terceiros.

Passa-se a medir a própria satisfação pelo número de ‘likes’ alcançados nas redes sociais, ou comentários enaltecedores lançados por aqueles que, muitas vezes, nem sequer se importam com aquela vida que está sendo exposta. A necessidade de compartilhar momentos pessoais se torna contraditória se notado que a maioria das pessoas que seria ‘alvo’ das postagens sequer dedica tempo para uma análise do que está sendo publicado. Curtem, muitas vezes, de forma mecânica, como robôs programados a avaliar a vida alheia.

O mascarado ‘amor-próprio’ em demasia faz lembrar Narciso, personagem da mitologia grega. Em síntese, diz-se que Narciso, filho do rio Cefiso e da ninfa Liriope, apaixonou-se pela sua beleza refletida em uma fonte. Enamorou-se pela sua imagem e, tentando abraçá-la na fonte, caiu na água e morreu afogado.

Pode-se trazer o mito de Narciso para os dias atuais ao se perceber a necessidade de ter a imagem bem recebida perante o próximo, colocando a si próprio como o centro de tudo, vivendo de aparências e julgando a receptividade obtida por critérios muitas vezes falhos.

Porém, o que se tem notado é um narcisismo disfarçado, em que se tenta impor uma mensagem de autoconfiança a ser endereçada a quem convier. O problema é que esse amor próprio esconde muitas vezes incertezas e uma grande dose de insegurança. E depositar a própria felicidade nas mãos de outrem pode ser uma tarefa perigosa, capaz de eliminar a necessária avaliação que tecemos sobre nós mesmos.

1.jpg Google Imagens

A dedicação a um mundo de aparências pode ter conseqüências severas. Ao colocar o outrem como seu espelho, deturpa-se a própria imagem. O que se recebe é uma visão baseada nas expectativas do outro. Diante disso, uma negação ou uma omissão por parte dele podem ser associadas a uma rejeição ou indiferença, o que causa tristeza e desconforto.

Buscar a autorrealização sob as expectativas do outro é esquivar-se de buscar a própria felicidade. É perigoso adentrar sob solo alheio quando não se tem convicção do seu próprio espaço.

Deixar que os demais se encarreguem de dispor acerca de quem somos e como deveremos conduzir as nossas vidas é incorrer no perigo de abdicar de nós mesmos. Percorrer o caminho que nos é ditado como o correto em busca da alegria e da aceitação é terreno perigoso, cuja estrada tem o malfeito de nunca chegar.

Viver de aparências é negar a si mesmo. Não dá para sustentar a própria vida sob as expectativas alheias. Buscar satisfazer o outro e tentar abafar a voz do “eu” que anseia desabrochar é tarefa árdua, que leva à eterna incógnita sobre em que sustentar a própria existência.


Hellen Neto

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