um ponto no infinito

Sobre o que não é visto, mas que não deve ser ignorado,

Hellen Neto

Escrita é desabafo. É libertação.

Email: [email protected]

Dos pesos nossos de cada dia

Suportar o peso de nossas dores é tarefa demasiadamente árdua. Porém, é o que a vida nos impõe, e saber balancear pode ser a chave da tão sonhada felicidade.


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E mais um dia exige o despertar. Rapidamente, você levanta e arruma os itens necessários para mais um dia de batalhas e desafios imotivados, acorda e sai em busca daquilo que, lá no fundo, gostaria de estar perfazendo um caminho contrário. Não gostaria de estar se movendo para o seu atual destino, e isso causa a dor da decepção e a ideia certa de não é possível atribuir a culpa a ninguém, ainda que isso represente um alívio a seus próprios fardos. A culpa é própria, e essa certeza dói como uma ferida mal tratada, apta a descarregar a sua potência ao mais singelo toque.

A maior parte de nossos problemas foi produzida por nós, autores de nossa própria história. Não dá para atribuir a culpa ao destino, ao outro ou a quem – ou o quê - quer que seja. É certo que, às vezes, aparecem percalços na vida nem sempre previsíveis, mas o que, afinal, é produzido e resta como resultado é o fruto de nossas ações, é a maneira como encaramos aquilo que nos é apresentado.

E como somos seres despreparados a lidar com o erro e renúncias, costumamos atribuir ao outro a culpa por nossas fraquezas. Afinal, culpar alguém é sempre mais cômodo do que reconhecer a nossa própria falha, oferecendo um paliativo a um sofrimento nem sempre suficiente.

Falhamos. Não há como duvidar dessa triste constatação. Falhamos ao escolher o caminho que não nos atraía, por uma simples conveniência de momento ou pelo medo de lutar por aquilo que preferíamos, mas que abrimos mão pelo medo do arrependimento. Mas o que o tempo nos revela é que seguir caminhos que sabiamente não se coadunam com os nossos desejos traz o desamparo e, ao mesmo tempo, o desafio de levantar todos os dias e lutar por um futuro que não é nosso e que sabiamente não nos fará felizes.

É bastante dolorosa a luta pelo que não nos satisfaz. Efetuar sacrifícios em prol daquilo que não nos faz felizes. Levantar todos os dias e seguir em busca daquilo que não nos preenche causa o desconforto de uma luta vã, inapta a satisfazer a mais singela de nossas necessidades.

Quem nunca acordou, se olhou no espelho e sentiu vontade de “jogar para o alto” tudo o que não lhe faz feliz? A sensação de desespero é aterrorizante, e a angústia passa a criar raízes. Mas não dá para cometer o desatino de abrir mão de todos os nossos problemas. Ignorá-los pode trazer um momentâneo alívio, mas eles estarão ali, por baixo do tapete, como a nos lembrar que é impossível fugir de nós mesmos.

Não dá para eliminar todos os nossos problemas, simplesmente porque eles são uma parte de nossa existência. O descompasso surge quando o valor a eles atribuído passa a suplantar e impedir qualquer tentativa de felicidade. Resta, então, o desafio da convivência mais complexo de todos: aquele que travamos com nós mesmos e nos faz suportar o peso que nos fizemos carregar.


Hellen Neto

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