Ed Pereira

Antropólogo, interessado em reflexos e reflexões

Cinema de meias-verdades

Marco do cinema independente norte-americano, John Cassavetes produziu filmes que expressam o lado mais profundo das relações humanas.


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Sabe aquela história de que a arte imita a vida? Pode esquecer. Com o cinema de John Cassavetes aprendemos que não se trata de uma coisa imitar a outra, mas de elas se fundirem quase sem distinção. Um mestre no complexo jogo entre ator-personagem, ele produziu um conjunto de filmes que marcaram o cinema independente norte-americano. Seu estilo cinematográfico fez com que ele se afastasse de clichês e lugares-comuns recorrentes no cinema hollywoodiano de sua época.

Nova-iorquino, filho de imigrantes gregos, Cassavetes entrou para o mundo das artes cênicas nos início dos anos 1950, e no final dessa mesma década (com 29 anos) realizou seu primeiro longa-metragem: Shadows, uma obra motivada pela sua vontade de fazer “um filme sobre gente”. Como diretor, ele realizou seu desejo de contar de histórias sobre pessoas comuns, que ele poderia identificar ao seu redor, no cotidiano. De tão próximos, seus personagens chegaram a ter a cara de seus familiares e amigos.

Prova disso foi a principal parceria mantida por Cassavetes na frente e atrás das câmeras: a atriz Gena Rowlands, que se tornou sua esposa, mãe de seus três filhos e protagonista de seus filmes mais conhecidos. A imbricação da vida íntima do casal com o trabalho cinematográfico de Cassavetes foi tão intensa que por duas vezes sua própria casa serviu como set de filmagem – para Faces (1968), que conta com a atuação de Gena, e Os Amantes (de 1984) onde ambos contracenam. Nessa relação que durou até o fim da vida do marido, em 1989, Gena Rowlands tornou-se uma espécie de musa inspiradora, não apenas por sua evidente beleza, mas sobretudo pela densidade dramática de suas atuações. Ela estrelou sete dos 12 filmes do diretor.

No processo de realização de seus longas-metragens, Cassavetes dedicava um lugar especial para a preparação dos atores, mantendo um trabalho contínuo com eles. Sua busca era no sentido de que eles não apenas interpretassem um papel, mas que assumissem aquelas personalidades nos instantes da filmagem. Mais do que um encaixe no personagem, o ator deveria fazê-lo vir à tona trazendo também algo de si.

Esse profundo exercício com os atores foi decisivo para a recusa de Gena Rowlands em encenar o texto de A Woman under the Influence – criado originalmente para o teatro. A ideia de ter que reviver durante muitos meses seguidos a instabilidade emocional e psicológica de Mabel, uma dona de casa norte-americana, parecia-lhe excessivamente pesada. A peça foi transformada em filme e, no ano de seu lançamento (1975), Gena foi indicada ao Oscar de melhor atriz.

No filme, acompanhamos as crises de uma mulher cercada pelo marido tão rude quanto apaixonado, pelos seus três filhos, pela sogra inconveniente (que é interpretada por ninguém menos do que a mãe de Cassavetes) e pelo seu médico. Com o desenrolar das falas dentro da casa em que moram os personagens e das censuras mantidas entre eles, o espectador chega a se perguntar se é possível realmente não ficar “louco” numa família como essa – que é incrivelmente próxima de tantas outras. Como o filme sugere, muitas vezes, o preço de se manter uma família unida pode ser a própria sanidade.

Com seu olhar atento aos detalhes das expressões faciais, dos movimentos corporais e da entonação da voz, Cassavetes produziu um cinema de investigação das relações humanas. Seus filmes se passam em ambientes que mostram a fragilidade do ser humano e, ao mesmo tempo, seu lado mais belo e profundo. Trata-se de um cinema de gestos, de close ups, de uma câmera que pode ficar fora de foco ou que mostra uma cena distante, fora do alcance visual do espectador. Os rostos nem sempre são mostrados por inteiro, à plena luz.

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Esse jogo entre o visível e o oculto pode ser notado também nos diálogos que ele dirigiu. Em O Assassinato do Bookmaker Chinês (1976), o ator Ben Gazzara, amigo de Cassavetes, interpreta o dono de um night club viciado em jogo, que acaba de escapar de uma tentativa de assassinato. Já de volta ao seu clube, e como se nada tivesse acontecido, ele sorri às suas bailarinas e funcionários e diz que o segredo para ser feliz é se sentir confortável. O detalhe: enquanto fala, ele esconde sob o paletó a ferida aberta causada por um tiro na barriga. Nesse como em outros filmes, Cassavetes mostrava o que as suas personagens eram num momento específico. Isso porque o instante de felicidade não elimina a possibilidade de o seguinte ser de dor, raiva ou frustração, e vice-versa. A graça está justamente na possibilidade de continuamente improvisar frente a um roteiro pré-definido, seja cinema ou na vida.

Husbands (1970) exemplifica essa possibilidade de criação de algo novo, ainda que provisório, dentro de um contexto fixo. Nesse filme, Cassavetes contracena com Gazzara e Peter Falk, que interpretam três homens maduros, casados, que acabam de sair do enterro de um quarto amigo. A situação de perda os impulsiona a querer fugir de suas responsabilidades familiares, que se evidenciam como tão inevitáveis quanto a morte.

Para quem ainda não conhece os seus filmes, um aviso: trata-se de um diretor cujas obras demandam do público atenção para notar suas sutilezas. Às vezes os atores dizem uma coisa, mas seus gestos indicam outra. O tom da voz pode contradizer por completo o que acaba de ser dito. Além disso, Cassavetes foi um mestre na sobreposição entre pessoa e personagem.

Talvez o melhor exemplo de seus jogos de metalinguagem com a encenação seja Opening Night (de 1977). A trama principal do filme envolve uma consagrada atriz, Myrtle Gordon, que está prestes a estrear uma peça de teatro, mas que entra em crise após um acidente de carro que mata uma de suas fãs. O enredo, que se tornou referencia para a composição de Tudo sobre minha mãe (1999), de Pedro Almodóvar, se complexifica com as aparições dessa fã morta. Jovem, ela se contrapõe à crise da atriz, que se questiona sobre suas relações pessoais e seu talento.

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A personagem encenada na peça teatral (uma mulher de meia-idade, assim como a Myrtle e também Gena Rowlands, protagonista do filme) torna-se para ela um problema: não há identificação da atriz com a personagem, que retrataria uma mulher que envelhece. No palco da peça, a mulher encenada mantém uma relação tensa com seu marido, que é encenado por um affair de Myrtle e protagonizado, é claro, por John Cassavetes. Ao todo, Opening Night nos mostra a relativa combinação desses três casais: o do palco, o do filme, e o da “vida real”, que se misturam no final das contas. A última cena do filme apresenta a conturbada estreia da peça, que é marcada pela improvisação de seus atores. Juntos, Myrtle e seu companheiro de palco abandonam o texto original para, em contrapartida, fazerem seus personagens ganharem existência. E na medida que a personagem existe, a atriz volta a ser ela mesma.

Opening Night nos mostra que os filmes de Cassavetes revelam algo dos personagens na medida em que algo dos próprios atores é posto em cena. No final das contas, o que aparece ao público são diferentes fragmentos que compõem um mesmo todo, elementos de uma verdade sempre parcial e instável. Não porque o diretor ou seus atores e personagens escondessem algo, mas porque o próprio cinema, o teatro e as cenas que vemos (e vivemos) no cotidiano nunca trazem a verdade por inteiro.

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Imagens: - John Cassavetes. s/data. Google. - Gena Rowlands em uma cena de Faces (1968) - Cena de Opening Night (1977) - John Cassavetes e Gena Rowlands. s/data. Google.


Ed Pereira

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