uma palavra

Clementina de Jesus, rainha negra da voz

por em 11 de mai de 2012 às 00:27


O Brasil como território do samba representa uma imagem que perdura até os dias de hoje. Mário de Andrade disse que "a música popular brasileira é a mais completa, mais totalmente nacional, mais forte criação de nossa raça até agora" incluindo aí a modinha, o maxixe e o samba, os conjuntos seresteiros, conjuntos de "chorões" e inúmeras danças rurais. Esta arte nacional feita na "inconsciência do povo", sendo a arte popular a alma desta nacionalidade.

Na galeria de ícones nacionais o samba é propalado como parte da identidade nacional e depois de atravessar um longo percurso até deixar de ser uma arte marginal recebeu honras de consagrar-se como símbolo nacional.
Sua história tem como ponto de partida a virada dos séculos XIX e XX, sendo que os caminhos trilhados pelo samba estão conectados ao contexto geral de desenvolvimento social brasileiro levando o samba, mesmo sem perder suas raízes negras a incorporar outras atitudes e outros tons.

Neste cenário, Clementina de Jesus representa a voz africana do samba. Esta carioca, que trabalhou por anos como empregada doméstica, somente aos 63 anos iniciou sua carreira artística. Foi descoberta pelo poeta Hermínio Bello de Carvalho e cantou o samba negro, os cantos que cresceu ouvindo de sua mãe que fora escrava.

Com uma voz rasgada, de timbre áspero e denso tem em sua discografia temas folclóricos e cantou ao lado de ícones da música brasileira como Clara Nunes e Pixinguinha. Clementina de Jesus, rainha negra da voz.

Rainha negra

A idade da sereia,
O baticum de pé no chão,
Chuá de cachoeira...
O mito, o rito ritimam a respiração,
Tantan e atabaque,
A gargalha do ganzá,
O canto do trabalho,
A dança, a ânsia sagrada de rememorar.

O escuro do negreiro,
O açoite pardo do feitor,
E um clarão enganador:
A liberdade sonhada ainda não chegou.

Saúdo os deuses negros,
Da serra-mar céu de Quelé,
Pro povo brasileiro,
Rainha negra da voz, mãe de todos nós....



ANDRADE, Mário. Ensaio sobre música brasileira. São Paulo, Livraria Martins, 1962.

 

Artigo da autoria de Débora do Prado Lisboa Batista.
Débora do Prado Lisboa Batista. Pedagoga, escritora e observadora..
Saiba como fazer parte da obvious.

Comentários

Os comentários a este artigo são da exclusiva responsabilidade dos seus autores e não veiculam a opinião do autor deste site sobre as matérias em questão.

Deixe o seu comentário

O e-mail é obrigatório mas não será mostrado no site ou cedido a terceiros. Seja cordial e educado. Comentários ofensivos ou pouco dignos não serão publicados.


Site Meter site statistics