O Brasil como território do samba representa uma imagem que perdura até os dias de hoje. Mário de Andrade disse que "a música popular brasileira é a mais completa, mais totalmente nacional, mais forte criação de nossa raça até agora" incluindo aí a modinha, o maxixe e o samba, os conjuntos seresteiros, conjuntos de "chorões" e inúmeras danças rurais. Esta arte nacional feita na "inconsciência do povo", sendo a arte popular a alma desta nacionalidade.
Na galeria de ícones nacionais o samba é propalado como parte da identidade nacional e depois de atravessar um longo percurso até deixar de ser uma arte marginal recebeu honras de consagrar-se como símbolo nacional.
Sua história tem como ponto de partida a virada dos séculos XIX e XX, sendo que os caminhos trilhados pelo samba estão conectados ao contexto geral de desenvolvimento social brasileiro levando o samba, mesmo sem perder suas raízes negras a incorporar outras atitudes e outros tons.
Neste cenário, Clementina de Jesus representa a voz africana do samba. Esta carioca, que trabalhou por anos como empregada doméstica, somente aos 63 anos iniciou sua carreira artística. Foi descoberta pelo poeta Hermínio Bello de Carvalho e cantou o samba negro, os cantos que cresceu ouvindo de sua mãe que fora escrava.
Com uma voz rasgada, de timbre áspero e denso tem em sua discografia temas folclóricos e cantou ao lado de ícones da música brasileira como Clara Nunes e Pixinguinha. Clementina de Jesus, rainha negra da voz.
Rainha negra
A idade da sereia,
O baticum de pé no chão,
Chuá de cachoeira...
O mito, o rito ritimam a respiração,
Tantan e atabaque,
A gargalha do ganzá,
O canto do trabalho,
A dança, a ânsia sagrada de rememorar.
O escuro do negreiro,
O açoite pardo do feitor,
E um clarão enganador:
A liberdade sonhada ainda não chegou.
Saúdo os deuses negros,
Da serra-mar céu de Quelé,
Pro povo brasileiro,
Rainha negra da voz, mãe de todos nós....
ANDRADE, Mário. Ensaio sobre música brasileira. São Paulo, Livraria Martins, 1962.
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