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Universo de cá, de lá, de todo e qualquer lugar.

Carla Ruiz

Em uma pedra,
corpo jogado,
me guio pelas estrelas.

Em terra de selfie em redes sociais, quem não comprova a presença nos eventos é Rei - ou louco

As selfies no velório de Eduardo Campos abrem a discussão para o exagero em se mostrar "presente" nas redes sociais. Seria uma falta de respeito ou reflexo de uma sociedade onde a experiência não é mais importante e a sensação de pertencimento está relacionada com a prova do comparecimento nos eventos mais importantes?


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Muitos ficaram indignados com as selfies tiradas durante o velório de Eduardo Campos no último domingo, dia 17. Foram inúmeros os posts mostrando a indignação e o desrespeito da foto acima.

Quando uma pessoa pública morre, gerando grande comoção, é costume que diversas pessoas compareçam ao velório, mesmo que nunca tivessem tido qualquer contato com o falecido. Assim ocorreu com diversas celebridades, como Ayrton Senna. Para essas pessoas, o sentimento de pertencimento está na presença em um "evento" que causa extrema comoção coletiva. Porém, hoje não basta estar, é preciso mostrar que esteve.

O que cabe a reflexão é se o que é tido como um desrespeito não é parte de uma sociedade que tem como forma de pertencimento o "ter", e até em momentos nos quais o que se deveria ter é o sentimento ou a memória, o que mais vale é a foto para provar que você esteve lá.

Quão corriqueiro é ver em sua timeline fotos do almoço do amigo, fotos de viagens, check-ins, fotos da papelada que ainda tem para resolver no seu trabalho, ou fotos do trabalho da faculdade? Isso tudo faz parte do contexto atual, no qual esquecemos de viver, passando a apenas apresentar a vida perfeita que temos, através de todos os aplicativos que cabem em um pequeno celular na palma da mão.

Sempre gostei de frequentar museus e gosto de ter um folder da exposição como forma de manter a memória, confesso. A última exposição que fui, da Yayoi Kusama no Tomie Ohtake foi um exemplo de popularidade devido à grande divulgação da mídia. Após pegar mais de duas horas de fila e finalmente entrar na sala mais interessante (das interativas), pasme! O segurança dizia constantemente: "Vamos gente! É uma selfie e sair." Como assim, uma selfie e sair??? Eu queria ficar ali, olhando aquelas luzes, o lugar cheio de espelhos, queria sentir a atmosfera proposta pela artista... Mas não, "tire sua selfie, poste no facebook e saia, temos outras pessoas para fazer o mesmo." Triste.

Assim também funciona em viagens e passeios com os amigos. Quem já resistiu à tentação de fotografar todo o lugar onde está, ou então ser apressado por guias e empresas de turismo para que fotografe logo e saia? E a selfie mostrando onde está torna-se irresistível, assim como é irresistível fazer o check-in no local e aí a busca por um wi-fi torna-se a mola propulsora da sua vontade. Por isso, quanto mais lugares passar, mais você "aproveitou" da viagem.

Somos o tempo todo bombardeados por informações que alguns dias depois serão esquecidas. Perde-se a noção de manutenção da memória e a importância da experiência. Nos preocupamos em estar inseridos nessa guerra de estímulos visuais e podemos ser esquecidos se não fizermos parte dela.

Faço a pergunta: Será?

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Carla Ruiz

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