universo de cá

Universo de cá, de lá, de todo e qualquer lugar.

Carla Ruiz

Em uma pedra,
corpo jogado,
me guio pelas estrelas.

Encontro com o artista e encontro comigo mesma. Uma carta de agradecimento a Silvio Pléticos

Quando a arte de viver é a inspiração. Quando uma frase muda uma vida. Carta de agradecimento ao artista.


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Sou paulistana da gema, com direito a sotaque repleto de erres carregados, das que respiram cinza e não se impressionam com o novo prédio que apareceu naquela rua onde um dia moraram todas as avós.

Sou paulistana que nunca se acostuma com o caos da cidade, com suas ruas repletas de gente embaçada, de carros que sonham serem acelerados e de árvores cansadas.

Sou humana, mulher, menina, grande nos sonhos, pequena na concretude.

Ar! Oxigênio era o que precisava, então parti por poucos dias e no último deles tive o encontro que mudaria minha tão miúda percepção sobre a vida:

Viajei para: Curitiba (1 dia), vi a Frida e seus retratos. Florianópolis (3 dias), conheci o artista que com poucas palavras, me trouxe de volta para mim mesma.

De início, digo que essa viagem tinha a intenção de me mostrar o valor de estar só, de observar o sol se pôr e o vento gelado abraçar os ossos. Fiz uma viagem para respirar, estava com pouca oxigenação para decidir qualquer assunto. Troquei a proposta festeira dos albergues, aceitando o gentil convite de uma amiga e sua família para o quarto solitário, o silêncio confortável.

Na rua, além do cheiro de mar, observava as pessoas, suas expressões, o ritmo dos passos, os olhares. Respeitei o tempo e li escutando a dança das marés, pensei na lua que as movimentava.

Caminhando pelo centro, me chamou a atenção um pequeno museu, onde as obras de artistas da região eram apresentadas por outros artistas. Todas elas tinham um ponto em comum: a cor vermelha, a mais quente da paleta. Enquanto observava os trabalhos, uma outra figura, pequena no tamanho, com cabelos brancos e um chapéu, não me surpreendeu de início, até que ele perguntou:

"Gosta de arte?"

Apenas sorri e disse que sim.

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E então mergulhei em uma aula de arte, em uma aula de história, em uma lição de vida. Ele apenas disse que era artista e professor e contou-me suas histórias.

Italiano, 90 anos, estudou arte quando a segunda guerra mundial estava acontecendo. Foi ilustrador do exército, não matou ninguém e perdeu muitos amigos. Nunca quis presenciar as cenas das quais teve que fazer parte.

O italiano que dividiu o coração com a brasileira bonita como "somente as mulheres do Brasil podem ser", fixou residência em alguns pontos antes de chegar em Florianópolis, onde lecionou para os professores dos artistas da mostra e ainda leciona, agora para crianças.

Alguns minutos de conversa, uma vida toda para me ensinar, o amor pela arte, o amor pelo ensino, o amor pela brasileira que se preocupa quando ele não chega no horário após fazer sua caminhada diária.

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Me senti pequena, reconheci que a vida é tão importante quanto a tinta que colore os sentimentos em um quadro, percebi que as letras não devem temer o papel em branco, lembrei-me das críticas que me impulsionaram a crescer, resgatei memórias de quando subia em árvores e inalava ar puro com cheiro de mato molhado.

Lembrei-me de mim.

Segurou minha mão, perguntei seu nome: Silvio Pléticos. Beijou minha mão, perguntou meu nome. Não resisti e retribuí o gesto carinhoso. Beijei sua mão e agradeci, com o brilho no olhar que sentia falta.

Disse-me: "Você merece um presente por existir."

Sorri com gratidão. Em cada palavra escrita, em cada pincelada, carregarei sempre a memória daquela singela conversa.

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Carla Ruiz

Em uma pedra, corpo jogado, me guio pelas estrelas. .
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