universo paralelo

Um lugar à parte, repleto de uma mistura envolvente entre música, história e arte.

Jasmine Serra

Uma mulher admitidamente viciada em música, história, arte, filmes e literatura. Aspirante a algo ainda indefinido, mas cuja busca incessante há de ser proveitosa.

A Primeira Poetisa

Safo de Lesbos, uma das maiores poetisa da história, perpetuou-se através do seu estilo brilhante e perfeito de composição. Sempre adiante do seu tempo, foi a primeira pessoa a fundar uma escola para as mulheres. E a primeira a cantar o amor pelas mesmas.


Safo y Alceo - Lawrence Alma-Tadema, 1881).jpg (Safo e Alceo Lawrence Alma-Tadema, 1881) Aproximadamente entre o século VII e VI a.C, habitou em Mitilene, capital da ilha de Lesbos, a segunda mais famosa das mulheres gregas – e a primeira poetisa da qual se tem registro -, Psappha (como era chamada no delicado dialeto nativo), mas conhecida como Safo de Lesbos. Pouco restou da obra de Safo, que se perdeu em meio aos desastrosos infortúnios da história e à inquisição da Igreja que acabou queimando um quantidade enorme de textos de poetas antigos, principalmente aqueles que ressaltavam as conturbadas desenvolturas do amor. Com isso perdemos nas fogueiras dos autos-da-fé obras preciosíssimas de Apolodoro, Menandro, Aléxis, Safo, entre muitos outros mestres que foram rechaçados pela Igreja Católica. Agora nos restam cerca de 200 fragmentos de sua obra, alguns datando do século VI d.C, outros dos séculos II e III d.C.

A graciosidade da poesia de Safo rapidamente se espalhou e ganhou público, adquirindo grandes admiradores, como o grande legislador ateniense Sólon, que segundo a lenda, ao escutar seu sobrinho cantar uns versos da poeta, teria pedido avidamente ao rapaz que lhe ensinasse o poema – queria ele aprender a cantar, antes de morrer, uma ode de Safo de Lesbos.

O que se sabe sobre a vida da poetisa é que aos 20 anos casou-se com um rico mercador que logo morreu, com quem teve uma filha chamada Kleís, tão amada, como demonstra o poema Tesouro: Tesouro “eu tenho uma linda menina; com douradas flores ela se parece: minha Kleís, meu bem-querer - nem pelo reino da Lídia inteiro, nem pela adorada [Lesbos] eu a trocaria"

download.jpg (imagem de Safo) Após se tornar viúva, e rica, Safo abriu aparentemente a primeira escola de aperfeiçoamento para jovens mulheres, a quem ensinava poesia, música e dança. Acabou se apaixonando por várias de suas alunas; conhecemos os nomes de Anágora, Eunica, Gongila, Eranna, Andrómeda, Megara... mas sabe-se que sua favorita era Átis, pela qual quase enlouqueceu quando a moça teve que se casar e sair da escola. Esse assunto é abordado em alguns escritos como: “Ela [Átis?] chorou de tristeza ao me abandonar e disse: “Ai de mim, que triste sina é a nossa! Safo, juro que é contra a minha vontade que te abandono.” E eu lhe respondi: “Segue o teu caminho alegremente mas lembra-te de mim, pois sabes o quanto me apaixonei por ti. E se não te lembrares, então eu te farei lembrar como era ardente e bela a vida que levamos juntas. Pois com muitas guirlandas de violetas e lindas rosas tu enfeitavas e embelezavas os teus cabelos ao meu lado, e com muitos colares feitos de uma centena de botões adornavas o teu colo delicado; e no meu colo untavas com muito unguento precioso e raro o teu corpo belo e jovem. E não havia colina nem lugar sagrado nem regato que juntas não tivéssemos visitado; e jamais primavera alguma encheu os bosques de doces rumores ou do melodioso canto dos rouxinóis sem que tu estivesses por ali comigo.”

A poetisa também adorava certas divindades, e manteve uma relação íntima de adoração à Afrodite, a deusa da beleza, do amor e do sexo, que protagonizou alguns de seus poemas:

Ode a Afrodite

Afrodite imortal, cujo trono cintila, filha de Zeus, plena de ardis e conluios, mais uma vez te imploro: não permitas, não desgostos em minha alma. Se em ocasiões outras, soberana, me escutastes, vem de novo até mim, a ti suplico, abandonando a áurea casa de teu pai e as minhas palavras ouve.

À tua carruagem atrela, ó Deusa, belos pássaros rápidos: eles a escura volta darão à terra escura cruzando o éter sempre pela esteira do céu. Breves, outrora, ó Feliz, aqui estavam, e com um sorriso sem fim teu rosto iluminado, me perguntavas “Que há de novo?”, que sofrimento me fizera chamar por ti, que desejo turvava meu coração. “Quem, mas quem, (eu sou a Persuasiva), ora é essa que tu queres em ti, insensata comoo sempre? Quem, minha Safo, assim te menospreza?

Fala! Que para ti correrá se ela te foge; se presentes não aceita, muitos serão os dela; e caso Safo, não te ame, amar-te-á em breve quer ela queira ou não.”

Pois desta vez ainda em meu socorro vem, mas liberta-me, Deusa, dos meus cuidados crus, perca minha alma a quem desejo – e vago o coração, o meu auxílio sê tu.

safo_g.jpg (Safo - autor desconhecido)

Claro que a posteridade masculina trataria de se vingar de algum modo dessa audaciosa mulher, e assim o fez inventando e divulgando a história de que ela morrera por um amor não correspondido de um suposto marinheiro, e por isso teria lançado-se de um penhasco na ilha de Leucas (Leucádia). Na verdade, não se sabe como nem quando ela morreu. O único fato é o incrível legado que essa mulher, em plena antiguidade grega onde a maioria das mulheres eram subjugadas e excluídas, construíu e perpetuou através de seu encanto, refinamento e delicadeza, elementos imprescindíveis de seus escritos.

“O Amor agita meu espírito como se fosse um vendaval a desabar sobre os carvalhos”

Safo


Jasmine Serra

Uma mulher admitidamente viciada em música, história, arte, filmes e literatura. Aspirante a algo ainda indefinido, mas cuja busca incessante há de ser proveitosa. .
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