universo paralelo

Um lugar à parte, repleto de uma mistura envolvente entre música, história e arte.

Jasmine Serra

Uma mulher admitidamente viciada em música, história, arte, filmes e literatura. Aspirante a algo ainda indefinido, mas cuja busca incessante há de ser proveitosa.

Catástrofe Euclides da Cunha

Um outro lado do épico autor de Os Sertões, e a sua pouco conhecida tragédia familiar.


20080813-160809.gif A tragédia da Piedade, como ficou conhecido o caso, ocorreu em 1909, numa manhã de agosto. Após saber que sua mulher não tinha dormido em casa, Euclides tomou um decisão: lavar a honra com sangue. Pegou um revólver emprestado com um amigo e foi até o bairro da Piedade, no Rio de Janeiro, onde morava Dilermando de Assis, um loiro de porte atlético-militar, amante de longa data de sua mulher. Chegou esbravejando e foi direto ao quarto, onde encontrou o jovem capitão e disparou três tiros contra ele, um especificamente na virilha, e um tiro no irmão dele, Dinorah. Dilermando, que já tinha sido campeão de tiro na Escola Militar, alcançou seu revólver e conseguiu revidar, matando Euclides.

images.jpg (Enterro de Euclides da Cunha) Voltemos um pouco no tempo para entender melhor essa trágica história: Em 1902, com o lançamento de seu mais conhecido livro, Os Sertões, Euclides da Cunha passou de engenheiro civil anônimo para intelectual de renome. Após presenciar, na Bahia, a Guerra de Canudos, ele apresentou ao país uma figura então pouco conhecida que viria a se tornar um personagem nacional: o sertanejo nordestino. Dois anos depois do lançamento de sua obra-prima, Euclides pensou em repetir o feito e partir para uma viagem que lhe rendesse um clássico. Então, em agosto de 1904, embarcou para a Amazônia em uma missão destinada a resolver de vez o problema das fronteiras do Acre – deixando a mulher , Anna da Cunha, e os três filhos no Rio de Janeiro, sem casa e sem dinheiro, ao relento. Ana, sem ter a quem recorrer, teve que colocar os dois filhos mais velhos num colégio interno e se mudar para uma pensão barata com o caçula. livros2.jpg (Euclides da Cunha)

Nessa pensão Anna, com 34 anos, conheceu Dilermando de Assis, aluno da Escola de Guerra, de 17 anos. Imediatamente se apaixonaram e decidiram morar juntos. E assim o fizeram tranquilamente por dois anos, até Euclides voltar da expedição ao Acre. O casal ainda tentou esconder o relacionamento, mas todo o esforço foi em vão: Anna estava grávida de três meses. Assim que a barriga apareceu Euclides teve certeza da infidelidade e passou a agredir “sua mulher” de todas as formas possíveis, física e psicologicamente, humilhando-a constantemente. E então, em julho de 1906, Anna deu à luz a um menino. Dilermando tinha sido enviado semanas antes para a Escola Militar de Porto Alegre, então Anna teve o infortúnio de ficar a sós com o marido, que trancou-a no quarto assim que a criança nasceu, tirando o menino de lá e o isolando em outro canto, sem deixar que a mãe visse ou amamentasse a criança. O menino, que ganhara o nome de Mauro, morreu de inanição uma semana depois.Dilermando de Assis.jpg (Dilermando de Assis)

A tragédia da piedade ainda acarretaria gravíssimas consequências. Em 1916, Euclides Filho acertou um tiro nas costas de Dilermando, na tentativa de vingar a morte do pai. Mais uma vez, como há sete anos atrás, Dilermando foi atingido, sobreviveu e conseguiu revidar, matando assim o filho de sua mulher. E outra, o tiro que acertou o irmão de Dilermando em 1909, atingiu a nuca do rapaz. A bala acabou se alojando na espinha dorsal, e “poucos anos depois do tiroteio, Dinorah Cândido de Assis ficou hemiplégico (com metade do corpo paralisado). Jogador de futebol do Botafogo e aspirante da marinha, ele passou a andar de cadeira de rodas por volta dos 20 anos. Em 1921, deprimido, alcoólatra e afastado da família, jogou-se do cais de Porto Alegre e morreu afogado.” dilermando e anna.jpg (Após a morte de Euclides, Anna e Dilermano se casaram. Mas em 1926, ele a trocou por uma mulher mais nova e se separou.)


Jasmine Serra

Uma mulher admitidamente viciada em música, história, arte, filmes e literatura. Aspirante a algo ainda indefinido, mas cuja busca incessante há de ser proveitosa. .
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