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O LIVRO URBANO DE GENTILEZA

por em 20 de abr de 2012 às 15:15 | 10 comentários

O profeta Gentileza perambulou pelas ruas do Rio de Janeiro por 35 anos. Ficou conhecido por suas mensagens e deixou sua marca em 56 pilastras do Viaduto do Caju, num grande livro urbano que clama por paz, amor, e é claro, gentileza.

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Barba longa, estandarte e túnica branca: ele era paulista, mas foi nas ruas do Rio de Janeiro que José Datrino virou figura conhecida. Até os anos 1960 era gente comum, trabalhador, casado e pai de cinco filhos. Mas a história do Gran Circus Norte Americano o impulsionaria a virar profeta, pregador e por que não dizer, artista e poeta.

Em dezembro de 1961, o Gran Circus chegava na cidade de Niterói, prometendo apresentações memoráveis. Era uma sensação: crianças ou adultos, todo mundo queria ver o circo. Mas antes de completar seus dez espetáculos suas lonas de nylon coloridas arderam em chamas, num incêndio criminoso. Contabilizaram mais de 500 mortos. A notícia ganhou as páginas de todos os jornais brasileiros, e o episódio ficou conhecido como a maior tragédia circense do mundo.

Cartaz do Gran Circus Norte Americano. Dezembro, 1961.

Alguns dias depois do ocorrido, José Datrino teve uma visão, abandonou tudo o que tinha e se encaminhou para o local do incêndio. Começaria aí a dedicar a vida à pregar bondade, respeito e agradecimento: nascia o Profeta Gentileza.

Sobre as cinzas do circo fez um jardim de flores e hortaliças, e permaneceu trabalhando no que ficou conhecido como “Paraíso Gentileza” por quatro anos. Durante esse tempo, Gentileza levou consolo aos familiares dos mortos e a quem por ali passava, cultuando e disseminando palavras como Gentileza e Agradecido, em contraposição à Favor e Obrigado.

A partir da década de 1970 era visto pelas ruas e grandes avenidas, nas barcas que ligam o Rio de Janeiro à cidade de Niterói, nas praças, nos ônibus e trens, pregando suas mensagens. Ele era inconfundível: virou lenda viva urbana. Alguns dizem que o profeta era um anjo na Terra, já outros que pregava gentileza, mas era desbocado e agressivo com os transeuntes.

Apesar de muito conhecido em terras cariocas, Gentileza também peregrinou o país. Arrastava multidões, arrancava reações variadas do público e virava notícia de jornal.

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Muita gente o achava louco. Aliás, se chamado de maluco, respondia prontamente: “Sou maluco pra te amar e louco pra te salvar”. “Pinel” ou não, o fato é que o Profeta Gentileza deixou um verdadeiro “livro urbano”: os murais do Viaduto do Caju. Com caligrafia peculiar, começaram a ser pintados na década de 1980, em 56 “pilastras - páginas”. Dos viadutos cinzas em concreto, surgiram sua arte, sua obra, sua marca: seus inscritos verde-amarelos. Os murais retratam sua visão de mundo, suas críticas à sociedade e ao capitalismo (segundo ele, “capeta-lismo”) e sua proposta de ser: gentil.

“Concluída a obra, o alcance da sua inscrição territorial sobre a cidade, torna-se impressionante. Como slides diurnos, seus escritos passam a constituir a maior manifestação de arte mural pública de caráter espontâneo no Rio de Janeiro. Sua nova atitude - de escriba da cidade - reaviva sua figura lendária e mitológica.” (Leonardo Guelman em “Brasil Tempo de Gentileza”)


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Gentileza morreu em 1996, e depois disso seus murais foram intensamente modificados: pichados, cobertos parcialmente de tinta, desbotados. A cantora e compositora Marisa Monte gravou uma música em homenagem à Gentileza, onde fala da decadência das pinturas do profeta:


Apagaram tudo
Pintaram tudo de cinza
A palavra no muro
Ficou coberta de tinta
(Marisa Monte)

profeta3.jpegHavia então um apelo pela recuperação de suas obras. E não só de artistas como Marisa Monte, já que Gentileza também virou objeto de estudos universitários. Sob orientação de Leonardo Guelman, sua história e percurso foram resgatados, e os murais estudados e restaurados, com ajuda da prefeitura do Rio de Janeiro, que por sua vez o tombou como Patrimônio Cultural. Nasceu aí o Projeto Rio com Gentileza.

Este movimento deu grande projeção às mensagens de Gentileza na mídia. “Gentileza gera Gentileza”, frase-chave do profeta, começou a estampar produtos, virou febre, moda. Pobre profeta, não teria gostado... para sua intervenção na cidade ser reavivada e sua mensagem amplamente disseminada, virou ele próprio um produto, em mais uma contradição do tal “Capeta-lismo”.

 

Artigo da autoria de Anabê.
Colecionadora de terras, observadora de nuvens. Sofre da síndrome dos sotaques múltiplos..
Saiba como fazer parte da obvious.

Comentários

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muriel machado

Maravilhoso artigo que retrata de forma tão peculiar a vida e obra do profeta Gentileza... muito interessante descobrir a história de um homem que se tornou parte da cidade e o mais impressionante através de palavras como amor e gentileza... questionando olhares

Parabéns!

Luis Bevacqua

Parabéns Ana,excelente artigo.Recuperou-me na memória as inúmeras vezes que encontrei com o poeta urbano Gentileza, nas ruas do Rio de Janeiro.E com toda certeza Gentileza gera Gentileza.Mais uma vez parabéns.

Bevacqua, Agradecida! A idéia era essa mesmo! Um grande abraço!

Mestre Gentileza não deixou marcas apenas na minha alma, mas também no meu corpo.

https://www.facebook.com/photo.php?fbid=2252468746311&set=a.1730712902741.2082180.1086056869&type=3

Alice

Um certo dia, eu, ainda universitária no Rio de Janeiro, parei pra bater um papo com o Gentileza, e vi que nada tinha de louco era apenas um ser humano que não se condicionou a viver nos padrões ditos "normais" e escolheu distribuir possibilidades, mas que muito poucos entenderam.

Você também tem um caminho de possibilidades e é pela palavra. Seu artigo está muito bem construído e a escolha do tema é, no mínimo, de relevância histórica para, principalmente, os cariocas. Parabéns!

Luiz

Eu ficava admirado , vendo aquela figura alva , branca , imponente com aquelas folhas de palmeiras cruzadas nas mãos, pra mim o 1º hippie interplanetário em pleno Largo da Carioca ou muitas vezes o próprio jesus do caju e rodoviária e eu absolutamente fascinado com um santo de verdade nas ruas da minha cidade .
A minha cidade teve amorrr e transformou em seus aqueles que abençoam os que pensam muito á frrrente.

Obrigado genti vc é gente fina.....e de muita muita muita coragem.

Ana Cristina Gil Freire

Querida Anabé. O próprio José Datrino, perdeu toda sua família naquele pavoroso acidente. Como um lótus que nasce em águas impuras, da imensa dor sofrida, surge esse personagem amável e justiceiro. Ele vagava pelas ruas do Rio, escrevendo, à giz, no asfalto, seus pensamentos. Foi a forma que sua alma encontrou, para sobreviver a tamanho sofrimento. Ótimo que vc tenha tocado nesse assunto. bjs

Querida Ana Freire! Desde pequena também escuto que Gentileza perdeu a mulher e os filhos no incêndio do Gran Circus. Mas pesquisando para escrever o artigo me surpreendi lendo que ele próprio teria afirmado diversas vezes que não. Isso é o que foi documentado na pesquisa do professor Leonardo Guelman, da Universidade Federal Fluminense. Segundo ele, José Datrino afirmava que sua motivação para construir o "Paraíso Gentileza" teria sido um sonho/visão que teve alguns dias após a tragédia. Agradecida pelo seu comentário! Um grande abraço!

Ana Carla - Brasília

Anabê, achei muito bacana a foto registrada do Mestre! É a mais clara, expressiva e detalhada que já vi. As mensagens são lindas e de extrema importância para a convivência social. Parabéns pelo artigo elaborado, e tudo de bom!

Thanks and good blog.

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