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Anabê

Colecionadora de terras, observadora de nuvens. Sofre da síndrome dos sotaques múltiplos.

Fela king of afrobeat

Vibrante. Irreverente. Energético. Ativista. Ousado. Multi-instrumentalista...
Um pouco de Fela Kuti.


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Nem seria preciso dizer que os ritmos africanos assumiram enorme importância em diversas nações, e que no Brasil, país que recebeu grande contingente de nigerianos para o trabalho escravo, a cultura iorubá se misturou no omelete da diversidade cultural como ingrediente essencial. O Afrobeat veio depois, bem depois, mas hoje só tem a somar e movimentar as heranças já deixadas.

Falar de Fela Kuti e do Afrobeat é, ao mesmo tempo, simples e complicado. É fácil porque é delicioso ouvir e sentir, dá tesão pela vida e se você escutar com atenção e adentrar na música com totalidade seu coração começará a pulsar na batida afrobeatiana.

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Mas é um pouco difícil também, porque sua história é complexa, intensa, contraditória, seu processo de criação é gigantesco e “indizível”, e por fim e como é óbvio, sua música penetra em cada um de forma diferente.

Agradando mais uns, menos outros, difícil encontrar alguém que não sinta a força deste ritmo com prazer. Saber mais da história de vida de Fela Kuti e do Afrobeat é sempre bom; através dela podemos conhecer uma Nigéria que muitas vezes nos fugiu da visão. Conhecendo os movimentos que perpassaram e impulsionaram a construção de suas músicas, é possível mergulhar no seu sentido e significado e captar o fluxo criativo felakutiano.

Com ideias fortes e intensas, o Afrobeat pode ir beirando as margens da psicodelia, onde mergulha com tudo, sai, vai até o pico mais alto, volta à constância até te levar às profundezas, e depois ruma ao alto novamente, e por aí vai... Mistura de jazz, batidas iorubás, funk e outros temperos, suas músicas duram 10, 20 minutos e cheiram a suor, sangue, energia, protesto, paixão, resistência e liberdade...

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O ritmo/movimento nasceu no bojo da articulação política e mobilização social que lutava contra um Estado corrupto e suas repressões. O grito de Fela foi, durante anos, por autonomia. Fundou a República Kalakuta, espaço autônomo/independente onde vivia com a família, músicos, suas 27 mulheres (acredite, 27, com as quais casou e se separou numa tacada só), amigos e companheiros. A Kalakuta guardou histórias contraditórias se observadas nos dias de hoje, mas a questão mesmo a ser ressaltada é a ousadia daqueles que fizeram do Afrobeat um movimento social.

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A primeira Kalakuta estava situada numa região afastada de Lagos, mas depois se fundou no meio do gueto, em plena cidade, onde havia proteção. Ovacionado pelo povo, Fela fazia uma “política paralela” à oficial, tinha voz de liderança e representava uma ameaça ao governo ditador. Sua música foi diversas vezes proibida, ele e seus companheiros foram perseguidos. A República Kalakuta foi invadida, e sua mãe, voz marcadamente feminista na Nigéria, foi morta ao ser atirada pela janela.

Depois do episódio sangrento, ele abriu a voz, não apenas para cantar, mas para relatar sua vida à Carlos Moore, que registrou tudo e publicou recentemente no livro “Fela, esta puta vida”, com prefácio de Gilberto Gil.

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Nos dias de hoje, o Afrobeat se expandiu aqui e ali enquanto ritmo, ganhou alguns novos contornos e nuances. Bandas de diversas nações passaram a trabalhar sob sua influência, seus filhos Sean e Femi ganharam os palcos, acompanhados de músicos à época de seu pai. Enquanto movimento social o Afrobeat marcou uma época e o que ficou mesmo foi a voz, a voz marcante e suada dele, a voz de Fela, apaixonante, apaixonada e obstinada, da Nigéria (onde é admirado com fervor até hoje) para o mundo. Sem dúvida: uma puta voz, uma puta vida.

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Anabê

Colecionadora de terras, observadora de nuvens. Sofre da síndrome dos sotaques múltiplos..
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