universos perpendiculares

onde as narrativas se cruzam

Alex Mandarino

reporta das diferentes fronteiras da cultura pop e não-pop e pensa nas relações entre os pré-rafaelitas e GTA 3.

O Mundo é Feito de 0s e 1s, Com Infinitos Números Entre os Dois

O mundo moderno se vê cada vez mais preso à armadilha do binarismo: "nós" contra "eles", "esquerda" contra "direita", "arte" contra "não-arte". Entenda por que o buraco é mais embaixo e como essa visão reducionista limita os aspectos engrandecedores da vida humana. Quais os motivos por trás da ênfase nessa aproximação binária da realidade? Existe mesmo tanta diferença entre um lado e outro, entre o punk e o clássico, entre o que está em cima e o que está embaixo?


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Surpresa: o mundo é binário. Assim como as linguagens mais básicas de computador, a realidade é composta de sims e nãos, de coisas vivas e mortas, de passagens e ruas sem saída, de preto e branco, de ligado e desligado. Como nos comprova a física quântica e a teoria do caos, quando a realidade é observada e decomposta aos seus estados mais básicos, tudo pode ser compreendido em dois estados opostos. Mas isso em termos matemáticos, orgânicos, físicos. Quando nos afastamos da lente de aumento, temos que abandonar esse mecanismo binário. Caso contrário, o maravilhamento dá lugar ao reducionismo.

Surpresa: o mundo não é binário. "Certo" e "errado", "humano" e "inumano", "feio" e "bonito": não há matemática pura e tampouco aplicada que explique e agregue todos os infinitos tons de cinza entre esses diversos aspectos. Os bastidores do universo podem ser binários, em seu funcionamento quase invisível por trás das cortinas. Mas, do lado de cá do palco, o roteiro e a interpretação não podem ser binários. É do ser humano que não seja binário.

Complexos até chegar a um estado de confusão, os humanos são confusos. Ainda bem: é essa confusão que nos permite dar conta da complexidade paradoxalmente simples do universo - e de conceitos como esse. Então por quê, nos períodos mais confusos, teimamos em tentar reduzir o mundo humano a 0s e 1s?

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Uma das formas pelas quais fazemos isso é apelando para aqueles velhos ranhetas: os clichês. Temos os clichês do esnobismo, como "Claro que punk rock/música eletrônica/funk carioca não é música". E seus irmãos opostos e igualmente chatos, os clichês do populismo, como "todo virtuosismo musical é ridículo". Os clichês de esnobismo e populismo têm travado verdadeiras batalhas nesse campo bélico árido, o Facebook. E o choque entre os preconceitos "de rico" e "de pobre" perpetuam a tola tentativa de transformar o mundo conceitual, esse mundo tão rico e tão humano, em meros mecanismos binários de liga e desliga.

Antes de repetir antipensatas clichês, pergunte-se: qual punk rock? Qual música eletrônica? Qual funk carioca? Qual instrumentista virtuoso? A música cai aqui como exemplo, mas o mesmo vale para o cinema. Da próxima vez que ouvir alguém dizendo que "filmes do festival de Sundance são presunçosos/coisa de hipster" ou, do outro lado, alguém afirmando que "Hollywood só sabe produzir lixo", tenha certeza de que você está encontrando exemplos perfeitos do binarismo. De um lado, o populismo que precisa atacar o valor de seu contrário para encontrar qualidade em seu deserto; do outro, o esnobismo que precisa ignorar o valor de seu oposto para defender seu direito à existência. Os dois aspectos na verdade são o mesmo. A moeda tem dois lados, mas nessas situações ela caiu em pé: os dois lados são um só. Um lado chato, preconceituoso, cego e, sim, burro.

Por mais estranho que isso possa soar hoje em dia, houve um tempo em que a cultura pop "jovem" não existia. Antes do advento do rock e dos quadrinhos, o adolescente era apenas uma criança grande ou um pequeno adulto (mais um reducionismo binário, que se perpetuou por um tempo inimaginável na história humana). Em tempos antigos, após uma certa idade a pessoa simplesmente pulava direto da infância para a vida adulta e danem-se todos os traumas, neuroses e paranoias que isso acarretava. Não havia tempo para parar e sofrer, porque muito cedo se morria - provavelmente de tuberculose, peste ou trespassado por uma lança. A rigor da verdade, por muitos e muitos séculos não existiu nem mesmo o conceito de infância.

No século XX, a criança continuava pulando direto para a vida adulta, como um game do Super Mario com uma fase faltando. Uma pessoa de 16 anos gostava dos mesmos Dean Martin e Frank Sinatra que seus pais ouviam. Foi então que o rock surgiu e várias revoluções aconteceram. Para fugir do binarismo, é preciso dizer que não apenas revoluções de costumes e revoluções estéticas, mas também revoluções de marketing e de mercado. A criação, invenção ou descobrimento da adolescência escancarou as portas para várias possibilidades que surgiram nos anos seguintes: Elvis, James Dean, a pílula, o LSD, Beatles, maconha, hip hop, Hendrix, reggae, ska, punk, techno, house, games etc etc etc até que a Roda da Fortuna se mexeu e chegamos ao mundo atual, onde praticamente toda a cultura é criada para o adolescente, da música ao cinema, e onde barbados de 50 anos que menos de um século atrás estariam escrevendo tratados filosóficos agora malham para disfarçar a idade em raves de dubstep.

pistols.jpg A seminal banda punk Sex Pistols

Entre 1964 (uma década depois do início do rock) e 2005 (nem um pouco por acaso, pouco depois do 11 de setembro de 2001) a cultura pop teoricamente viveu seu auge: um sensacional cadinho cultural que era o antibinarismo por excelência. Bebia igualmente de fontes distintas como o blues preto e o contry branco, o violão e o sampler, o folk e o erudito, o low brow e o high brow, o iletrado e o literário, o antigo e o moderno, o academicismo e os diversos ismos do início do século XX. Tudo se misturava, se deglutia, se recriava. Tudo era, enfim, humano.

Antes de 1964, havia um binarismo extremo no pensar que se caracterizava pelo polianismo. Ou seja, as pessoas eram treinadas para pensar de modo bobo, como a Poliana do filme da Disney. Muita gente era ingênua, enganada, incapaz de enxergar através da cortina das tramóias políticas e históricas que se espraiam pelo dia-a-dia. A cultura pop, transgressora, aveludada e underground, tratou de mudar isso (e ainda bem). As letras, as drogas, os clipes, os livros, os comix, os games, os filmes: tudo gritava compreensão, apreensão, denúncia e uma visão mais esperta da realidade. Depois de 2005 e do consequente exagero de tudo o que veio antes, o moinho atingiu o outro lado. Não há mais o polianismo ingênuo: há agora o cinismo ingênuo. Não se acredita mais em nada, porque tudo é "vendido", "do mercado", "para vender". Nada mais conta, porque tudo tem algo escuso por trás. Saímos da ingenuidade para a extrema desconfiança. Nem mesmo desconfiança, apenas, porque a desconfiança pode engatilhar reações. Mas a aceitação, a transformação do objeto de desconfiança em algo normal. Afinal, "tudo é para vender" e "no lugar de (X) você também não teria feito (Y)"?

Resumindo, pulamos do binarismo poliana para o binarismo cínico, com uma escala de algumas décadas por uma era de ouro da cultura pop.

Mas, para efeitos práticos, o cinismo naif tem o mesmo efeito que o polianismo naif: a inação. Antes não se fazia nada porque não se sabia ser necessário que se fizesse algo; agora não se faz nada porque "não vai adiantar de nada" e "as coisas são assim mesmo" (como se o mundo não fosse criado e recriado, por humanos como nós, diariamente).

No Brasil atual e em várias partes do mundo vivemos um binarismo particularmente perigoso: o de que politicamente existem apenas esquerda e direita e, pior: que só existe uma esquerda e uma direita. Ainda pré-adolescente em sua democracia, o Brasil parece mesmo alguém dessa idade em termos políticos. Começa agora a tocar seu corpo e a perceber que essas partes então também servem para isso.

Esse binarismo político é facilmente perceptível nas críticas: faça uma crítica à direita e aos (tantos) setores conservadores do Brasil e automaticamente você é tachado de "petista". Critique o PT, a corrupção oficial (também tanta) e a inação de Dilma e você é imediatamente xingado de "tucano" ou "coxinha". Incapazes de perceberem sua extrema semelhança, esquerda e direita brasileiras se resumem agora a carimbar opiniões, tentando reduzir seus desafetos através da colocação automática "no outro lado". Bem, surpresa: há mais lados nessa brincadeira do que os números do Pi. Ah, o Pi é infinito? Pois é.

Promovendo o binarismo, a irredutividade e os rótulos, os dois lados deixam de ser o que quer que pensem ser e se colocam à direita até de si mesmos. Há um reacionarismo dos dois lados, que descamba para a recente onda de linchamentos, racismo, para a saudade de práticas ditatoriais e para um aumento do machismo, da homofobia, do fundamentalismo religioso e da intolerância. Não há apenas dois lados em nada nessa vida. A ilusão de binarismo é promovida apenas por uma ilusão, a ilusão gerada pela ignorância.

No fim das contas, somos todos humanos e multimultimultifacetados. Na dúvida, lembre-se da frase de Terêncio: nada que é humano me é alheio.

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Bem-vindo ao blog Universos Perpendiculares. Como receita contra o binarismo, este espaço vai falar de Satie e punk, George RR Martin e Sartre, quadrinhos e Kerouac, Chet Baker e funk carioca, house e kuduro, China Miéville e Super Mario. Bobeiras e cabecices. Puxa uma cadeira.


Alex Mandarino

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