universos perpendiculares

onde as narrativas se cruzam

Alex Mandarino

reporta das diferentes fronteiras da cultura pop e não-pop e pensa nas relações entre os pré-rafaelitas e GTA 3.

Sem Filhos

Em tempos de mudança climática, extinções em massa, falta de água, secas históricas e escassez de materiais, somos nós que estamos transformando o mundo em um cenário típico de Mad Max. E seu filho pode ser uma das principais causas do problema. Vamos encarar de frente um dos temas menos falados e mais ingratos, o problema da superpopulação?


968full-soylent-green-screenshot.jpg As ruas apinhadas e as riots do filme Soylent Green, de Richard Fleischer

Ruas cada vez mais apinhadas de gente, tornando quase impossíveis prazeres simples e ancestrais como os meros passeios. Visitar lojas, museus, parques e cinemas se tornou desconfortável e pouco desejável. Executivos de terno, burros o bastante para se creditar alguma importância, traçam uma linha reta em seu caminho que passa através de você e fazem questão absoluta de não desviar – como se esse ato de educação primordial ferisse algum recôndito doentio de suas auto-estimas debilitadas. Crise de alimentos. Crise de medicamentos. Fome. Desigualdade social. Desemprego. O que isso tem em comum, além dos aspectos mais óbvios? Simples: todos esses elementos derivam da superpopulação.

É estranho como a quantidade absurda e desproporcional de pessoas quase nunca é apontada em conversas e discussões, seja o mero bate-papo temporário (e temporal) com o taxista ou a mesa-redonda “especializada” da TV. Honestamente, nem acredito que a ausência desse tema das pautas se deva a algum tabu ancestral – pode ser, mas não creio. Acredito que, estranhamente, as pessoas simplesmente não percebem a realidade que está na cara delas: há gente demais no mundo. E todos temos culpa disso.

Pode reparar: experimente reclamar sobre o trânsito e o primeiro “culpado” que virá a tona será o barateamento do custo dos automóveis. Mas, um minuto: os carros estão mais baratos para quem? Continuam o mesmo preço absurdo, ao menos para o artefato que são: burros, primitivos, movidos a combustíveis fósseis (!!) e gerenciados por alavancas e manivelas (!!!). Mas a burrice, estupidez e o caráter egoísta, freudiano e insalubre dos automóveis é tema para outra coluna. Parando com as digressões: não, os carros não estão mais baratos. Existem muitos mais deles nas ruas, isso é certo. Mas não é porque estão “baratos”.

soylent-green-70.jpg Pessoas vivendo amontoadas em outra cena de Soylent Green

O segundo “culpado” que aparece nestas típicas discussões sobre tráfego é a falta de urbanização devida e de modelos alternativos de transporte. Sim, também neste ponto estão parcialmente certos. Metrô e transportes coletivos urbanos e fluviais, além dos trens (tão criminosamente inexistentes no Brasil), deveriam ser mais presentes. Mas não é esse o ponto principal, ainda. O ponto principal – e que mais surpreende neste tipo de conversa casual, porque quase nunca é trazido á tona, talvez por medo ou por pura incapacidade de percepção por ser óbvio demais – é que deveríamos ser menos. Muito menos.

Nos multiplicamos como pequenos roedores – lemmings na língua de Mickey Mouse – e nem temos a decência de auto-regular nosso número, como aqueles. Não estou apregoando que devêssemos pular de montanhas como os roedores fazem ao perceber que se multiplicaram a números que ameaçam sua sobrevivência e a de seu habitat, embora certos elementos poderiam mesmo tentar essa saída honrosa; mas de mero controle. Para muita gente á esquerda e à direita do espectro - e bota espectro nisso – político, “controle de natalidade” soa como palavrão. A esquerda arruma uma forma demagoga de juntar esta noção ao criminoso conceito de eugenia – nada mais distinto disso. A direita mistura alhos com bugalhos e cai ladeira abaixo aos gritos de “esterilização”. Duas visões burras, pouco esclarecidas e anti-humanistas.

Controle de natalidade é – ironicamente – o pai e a mãe da qualidade de vida. De um sistema de educação funcional e eficiente. Da cultura. Enfim, de uma civilização onde não teríamos que nos apertar como formigas e nos esbarrar como camundongos. E a partir deste ponto, se você chora ao ouvir a palavra “família” e se casou e teve seu primeiro filho aos 22 anos, pare de ler esta coluna. Agora mesmo. Você vai se estressar e de nada vai adiantar.

Está aí ainda? OK, vamos lá.

Ter filhos é uma das coisas mais irresponsáveis e egoístas que uma pessoa pode fazer neste início de século XXI. Como raça, não precisamos de novas pessoas. Ao menos não por algumas gerações. “Ora, e logo na minha vez”, você vai perguntar. Sim. Que pena. É o que chamamos de altruísmo: pensar no todo antes de pensar nos seus genes egoístas. Os roedores silvestres conseguem. Você consegue também. E, cá entre nós: é uma dura e difícil coisa de se ouvir, mas ninguém – ninguém – além de você e apenas você tem alguma vontade de que seus genes sejam perpetuados.

Numa realidade em que fumantes, junkies, obesos e alcoólatras são crucificados, é uma hipocrisia abissal considerar responsável quem quer ter filho. Pode ter sido assim nos anos 50, mas o baby boom já tem mais de meio século. Se continuarmos tendo filhos assim (bato três vezes na madeira), sim, seremos responsáveis. Mas responsáveis por fazer com que nossos netos paguem fortunas por um copo de água potável, more em um prédio com 40 apartamentos por andar e tenha um metro quadrado de espaço nas ruas. É esse tipo de responsabilidade que você quer? E isso tudo pelo prazer de colocar uma pessoa no mundo que, diabos, provavelmente vai virar um hipster mesmo?

bladerunner-tokyo-umbellas.jpg Na foto de cima, a Los Angeles de 2019 de Blade Runner; na de baixo, a Tóquio de hoje em dia

Em seu livro “No Kids – Quarenta Razões Para Não ter Filhos”, a francesa Corinne Maier expõe – muito melhor do que estas mal-ajambradas linhas – como funciona a verdadeira responsabilidade dos dias de hoje. Para Corinne, que já vendeu milhões de exemplares deste e de seu ataque aos workaholics, “Bom dia, Preguiça”, filhos “custam caro, poluem e afundam a existência das pessoas”. E vai além: “No melhor dos casos, o filho se transformará em simples recursos humanos para a sociedade”. Mãe de dois adolescentes, ela deve saber do que está falando. Cada ser humano novo exige mais espaço para agricultura, mais alimentos, mais água – a que temos hoje já é inferior à demanda, algo que pouca gente lembra -, mais carros, mais estradas, mais poluição, mais reality-shows na TV, mais ataques à arte e à civilização. E ao meio ambiente: de 1970 para cá, dobramos o número de pessoas no planeta. No mesmo período, o número de animais vivendo na natureza caiu pela metade. Em poucos mais de 40 anos. E as duas mudanças não são mera coincidência. Estamos cada vez mais próximos de várias distopias clássicas. Mad Max, com seu cenário desértico e luta pela água e combustíveis; Blade Runner, com sua extinção em massa de animais e decadência urbana; e Soylent Green, filme de 1973 (por aqui chamado No Mundo de 2020), onde somente em Nova York existem 40 milhões de pessoas (não é a toa que o livro de 1966 no qual é baseado se chama Make Room! Make Room!: abram espaço!).

Claro que é uma situação temporária, ou a raça humana se extinguiria. Mas, pelo menos por enquanto, todos deveríamos pensar em ser realmente adultos e parar de brincar de casinha. Menos humanos, por um motivo humanista e humanitário. Não colocar novas pessoas recalcadas, mimadas, ignorantes e mal-educadas no planeta e nas ruas. Seu filho é um problema nosso.


Alex Mandarino

reporta das diferentes fronteiras da cultura pop e não-pop e pensa nas relações entre os pré-rafaelitas e GTA 3..
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