utópica verdade

Entre o sonhar e o realizar existe um meio termo

Alberto Coutinho

Além de marido apaixonado e pai coruja, sou ser indomável e pertinaz perseguidor da verdade que está no horizonte feito utopia. A cada aproximação conheço melhor o mundo, as pessoas e a mim mesmo, mas nunca a possuirei plenamente.

A MPB revolucionária de todas as épocas

O passado musical de uma MPB inspiradora das atitudes que ajudaram e ajudam a mudar o Brasil refletida nas manifestações de hoje.


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Devido as manifestações que ocorrem em todo Brasil, muito se fala de mudanças futuras. Mas o momento é perfeito também para lembrar e se inspirar na nossa história recente, com músicas que marcaram uma época onde a juventude também lutava por mudanças. Tais músicas em muito emocionam não só pela beleza poética, mas também por expressar a essência dos movimentos das décadas de 60 e 70 e que hoje, apesar de desconhecidas pela maioria dos jovens manifestantes, encontram eco no cenário atual. A grandeza musical de compositores como Chico Buarque, Beto Guedes, Ivan Lins e o Geraldo Vandré, entre outros não citados aqui, poderiam ser a trilha sonora inspiradora dessa gente que esta “pelas ruas de nossas cidades” (Milton Nascimento) exigindo mudanças.

Devido ao evidente enfraquecimento da qualidade das musicas que nos são impostas, hoje não vemos mais perolas musicais do mesmo quilate. Tais músicas embaladas por melodias criativas e bem arranjadas nos convidavam a uma tomada de atitude, como na letra de Beto Guedes, quando diz que “Um mais um é sempre mais que dois”. A indústria do entretenimento musical anulou essa característica revolucionária da MPB e impôs ao nosso público uma coletânea de ritmos repetitivos, letras vazias onde até uma cantiga de roda faz mais sentido. Lembrando que revolucionar, não é somente derrubar governos, ou convulsionar, mas sim causar notável mudança, transformar radicalmente e inovar, trago alguns versos para degustação que, um pouco ou muito forçadamente, busco fazer analogia com o momento atual. Deixo um convite para que redescubramos essa forma de desencantar as consciências que ainda dormem em berço esplêndido, através da arte musical bem produzida.

São canções como aquela em que Beto Guedes nos fala da necessidade de lutar, mas sem esquecer a esperança nos versos de Sol de Primavera que, embora tenha um apelo ecológico, leva a reflexão sobre esse e outros temas da atualidade: “Já choramos muito, muitos se perderam no caminho/ Mesmo assim não custa inventar uma nova canção que venha nos trazer / Sol de primavera abre as janelas do meu peito”. O mesmo autor, na composição chamada O Sal da Terra, quase está chamando o povo para as ruas: “Vamos precisar de todo mundo / Prá banir do mundo a opressão / Para construir a vida nova / Vamos precisar de muito amor”.

Chico Buarque, de forma contundente na música Deus Lhe Pague manifesta sua (e nossa) indignação frente ao custo da vida (que não é somente o nosso conhecido custo de vida) e ao populismo, muito frequente em nossa política, como forma de garantia no poder. Assim canta o Chico: “Por esse pão pra comer, por esse chão pra dormir / A certidão pra nascer, e a concessão pra sorrir / Por me deixar respirar, por me deixar existir / Deus lhe pague”. Esta música com seu ritmo forte marca o tom de revolta do poeta e pode expressar também a emoção de quem sofre na pele ou vê diariamente, nas ruas ou no noticiário as cenas descritas nesses versos. Esse mesmo autor manda um recado aos opressores de plantão nos versos da música Apesar de você que merece ser lida em sua totalidade, refletida e ouvida: “Hoje você é quem manda / Falou, tá falado / Não tem discussão (...). Apesar de você amanhã há de ser outro dia (...). Quando chegar o momento esse meu sofrimento vou cobrar com juros, juro”.

Geraldo Vandré que, na minha humilde opinião, é mais que um poeta de música de protesto, pois em canções que são pouco conhecidas ele transcende os limites impostos a esta categoria. Ele nos deixou nos versos da música Pra não dizer que não falei das flores, a inspiração para qualquer movimento popular que objetive justiça social: “Caminhando e cantando e seguindo a canção somos todos iguais braços dados ou não (...). Vem, vamos embora que esperar não é saber quem sabe faz a hora não espera acontecer”. E no verso a seguir, a polícia de ontem, criticada por Vandré, tem seu comportamento truculento repetido hoje em várias capitais. As cenas de violência e despreparo exibidas pelas emissoras de TV de hoje, em muito se parecem com as registradas em fotos preto e branco das décadas de 60 e 70: “Há soldados armados, amados ou não. Quase todos perdidos de armas na mão. Nos quartéis lhes ensinam uma antiga lição: De morrer pela pátria e viver sem razão”.

Deixei de citar aqui uma grande quantidade de compositores e poetas que usaram e usam a sua arte para promover um mundo melhor sem abrir mão da beleza e da poesia. Entre alguns que ainda me vem a memória temos o Gonzaguinha, Milton Nascimento, Taiguara, Caetano, Gilberto Gil, Cazuza e a diva Elis Regina. Todos em diferentes graus de engajamento mas sempre fieis ao bom gosto, a beleza e a arte.

Assim vou dedicar estas últimas linhas a um grupo da atualidade que, salvo algum que eu não conheça, é o único que junta características acima discutidas na elaboração de um trabalho excelente que merece ser conhecido. Falo do Teatro Mágico. Por isso vou fechar essa pequena lista, cheia de omissões, com o verso da música Credo, composição de Milton Nascimento que mais parece um quadro pintado do que vemos hoje pelo Brasil: “Caminhando pela noite de nossa cidade / Acendendo a esperança e apagando a escuridão / Vamos, caminhando pelas ruas de nossa cidade / Viver derramando a juventude pelos corações / Tenha fé no nosso povo que ele resiste / Tenha fé no nosso povo que ele insiste”.


Alberto Coutinho

Além de marido apaixonado e pai coruja, sou ser indomável e pertinaz perseguidor da verdade que está no horizonte feito utopia. A cada aproximação conheço melhor o mundo, as pessoas e a mim mesmo, mas nunca a possuirei plenamente..
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