utópica verdade

Entre o sonhar e o realizar existe um meio termo

Alberto Coutinho

Além de marido apaixonado e pai coruja, sou ser indomável e pertinaz perseguidor da verdade que está no horizonte feito utopia. A cada aproximação conheço melhor o mundo, as pessoas e a mim mesmo, mas nunca a possuirei plenamente.

De Mario Lago a Frejat: a redenção do macho

Quando o macho deixa de ser macho para ser homem e parceiro da mulher.


Leoa.jpg As mudanças e exigências sociais vêm forçando a revisão de modelos outrora entronizados por tradições quase seculares. Comportamentos que antes eram considerados normais e aceitos num determinado grupo, hoje são questionados e submetidos aos rigores da modernidade. Poucos são os que sobrevivem a essas mudanças e modismos que impõe novos paradigmas e novos valores comportamentais. Um desses paradigmas que está mudando é o que se refere ao estereótipo do macho.

O poeta Frejat retrata essa crise de identidade do macho de forma paradoxal em sua música Homem não chora: “Homem não chora nem por dor nem por amor / E antes que eu me esqueça, nunca me passou pela cabeça lhe pedir perdão”. Esta composição nos primeiros versos, aparenta ser uma atitude retrógrada e contraditória frente a realidade moderna. É o paradigma do machão em toda sua brutalidade, das sensações violentas e vulgares, e dos instintos pré-históricos regados a testosterona e cerveja. Mas logo depois, o poeta cai em contradição com a tradição machista e se debulha em lágrimas no colo da mulher amada: “Meu rosto vermelho e molhado é só dos olhos pra fora / (...) E só porque eu estou aqui Ajoelhado no chão / Com o coração na mão (...)”.

Hoje, ainda com alguma resistência, estamos assumindo o fato de que somos dependentes delas. Muito embora Vinícius de Moraes já nos ensinasse que “Para viver um grande amor, mister é ser um homem de uma só mulher...”, está música de Frejat desnuda a alma masculina de nosso século e mostra a guerra interior travada entre o homem velho que nega suas emoções e o homem renovado pelas experiências desastrosas de um passado recente que pode acabar em lágrimas ou “Num bar, com um vinho barato, um cigarro no cinzeiro e uma cara embriagada no espelho do banheiro (Refrão de Bolero – Engenheiros do Hawaii).

Essa quebra do macho se reflete não somente nas canções mas também vemos mudanças nas relações familiares e de trabalho. As mulheres, saindo de um sistema secular de opressão, transitaram pela liberalidade competitiva para assumirem um papel que vai além dos afazeres domésticos ou de unidades reprodutoras da espécie humana e objetos de prazer dos homens. E nós, homens, passamos a dividir com elas as tarefas de casa, a criação dos filhos e, as vezes, a conta do restaurante. Damos-nos o luxo até de uma vaidadezinha esporádica, pois mais uma vez citando o mestre Vinícius de Moraes “É preciso um cuidado permanente não só com o corpo, mas também com a mente, pois qualquer "baixo" seu, a amada sente”. Afinal ficar bonito para elas também é um dever nosso.

Mudamos, mas ainda é preciso mais. Infelizmente ainda vemos comportamentos como os descritos na canção Ai que saudades da Amélia, de Mário Lago e Ataulfo Alves que mostra o que seria a “mulher de verdade” para um homem do século passado: “Ai, meu Deus, que saudade da Amélia / Aquilo sim é que era mulher / Às vezes passava fome ao meu lado / E achava bonito não ter o que comer / (...) Amélia não tinha a menor vaidade / Amélia é que era mulher de verdade”.

Numa época em que se fala do dia do homem, vejo essa data com muitas reservas. A meu ver, todos os louros e troféus devem ser dedicados a elas que nos aturam. São elas que sabem acalmar nossas tempestades interiores e direcionar nossos relâmpagos para os alvos certos. São elas que são, estatisticamente, as maiores vítimas da violência doméstica, de discriminação, de baixos salários, de assédio e violência sexual.

Então, nesse dia do homem (15 de julho), que tal sermos homens de verdade e nos dedicarmos mais as mulheres de nossas vidas. Podemos começar refletindo na mensagem de Milton Nascimento na música Beatriz: “Sim, me leva para sempre Beatriz / Me ensina a não andar com os pés no chão, / Para sempre é sempre por um triz / Ai, diz quantos desastres tem na minha mão / Diz se é perigoso a gente ser feliz”.


Alberto Coutinho

Além de marido apaixonado e pai coruja, sou ser indomável e pertinaz perseguidor da verdade que está no horizonte feito utopia. A cada aproximação conheço melhor o mundo, as pessoas e a mim mesmo, mas nunca a possuirei plenamente..
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