utópica verdade

Entre o sonhar e o realizar existe um meio termo

Alberto Coutinho

Além de marido apaixonado e pai coruja, sou ser indomável e pertinaz perseguidor da verdade que está no horizonte feito utopia. A cada aproximação conheço melhor o mundo, as pessoas e a mim mesmo, mas nunca a possuirei plenamente.

Histórias de elevador

Identidade não é só um número numa carteira. Esta transcende o tempo e se mescla com um passado de lutas e conquistas. O esquecimento de nosso passado enfraquece nossa identidade e nos transforma em fantoches que desempenham papéis nas mãos do manipulador.


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Africanidade: eis um traço de nossa identidade que com o correr dos anos vejo se perder entre os modismos impostos que são acatados pelos mais jovens. Um samba chamado Identidade cantado por Jorge Aragão é um exemplo que nos leva a pensar e relembrar que a Africa faz parte do que somos. Se no aspecto cultural ela parece se enfraquecer, em nosso DNA ela está mais que evidente. Não podemos negar essa herança e tudo o que ela traz de bom e de dor. A África pode não ser o nosso continente favorito, mas ao se assumir essa identidade é impossível não ter um pensamento de solidariedade pelos povos que lá vivem ou derramar uma lágrima furtiva ante a morte de Nelson Mandela.

O esquecimento da nossa africanidade está fazendo a discriminação negativa de pessoas em função da cor de sua pele virar tabu. É muito comum se evitar falar no assunto até que a discriminação chegue à Justiça e aos jornais. Infelizmente isso não é de hoje e episódios considerados bizarros pelas mentes adormecidas da atualidade eram experiências muito comuns, traumáticas e contundentes para, nos dias de hoje, serem esquecidas ou diminuídas em suas consequências como temos visto.

Exemplo disso é que, até o final do século passado o simples ato de um afrodescendente adentrar a uma portaria de prédio já era um motivo para os olhares desconfiados por parte do porteiro e de quem mais estivesse no local. Em se confirmando pelo interfone que a sua presença era aguardada vinha a outra parte do absurdo, pois o porteiro, indicando o elevador de serviço dizia “empregado é naquele elevador”, mesmo que se tratasse de um médico, advogado, professor ou qualquer outro afrodescendente que conseguiu superar os obstáculos para se formar numa faculdade, a indicação era a mesma: o elevador de serviço e a entrada de empregados. Embora ainda aconteça, é menos comum, por exemplo, ver senhoras protegendo a bolsa ante a aproximação de um negro. Em lojas e mercados a marcação serrada dos seguranças sobre os afrodescendentes que entravam para comprar honestamente, muitas vezes deixava os aparentados europeus livres para os atos ilícitos. Felizmente, muitos resistiram e lutaram contra esta imposição desbravando o caminho para que tais atitudes fossem ficando cada vez mais raras apesar de nunca terem acabado. Atualmente, muitos jovens, nem imaginam o que é passar por uma situação de preconceito ou discriminação chegando a achar que há certo exagero nesse tipo de narrativa até passarem pelo constrangimento de uma revista policial abusiva ou se aborrecerem com os apelidos.

Mesmo com nosso desejo de que fatos como esses fiquem no passado, as formas de discriminação negativa de pessoas em função da cor de sua pele ainda persistem em função da cultura escravagista que, por ser muito recente, ainda está latente entre nós. Exemplo disso esta no fato de existirem muitas empresas que utilizam o conhecido clichê do currículo com foto ou anúncios que colocam como pré-requisito a “boa aparência”. As estatísticas comprovam que essas empresas preferem contratar os de aparência europeia em detrimento dos afrodescendentes. Basta um passeio pelo shopping para comprovar. Na mídia, uma soma muito significativa da publicidade veiculada, ainda prevalece a presença de atores e modelos aparentados europeus. Em contra partida, vemos que a maioria de negros ocupa os subempregos ou os de pior renumeração reservados àqueles sem formação específica.

Tais atitudes, apesar de camufladas pela hipocrisia de um país que insiste em se achar pacífico e acolhedor, são hereditariamente perpetuadas nos apelidos jocosos, nos tratamentos dúbios, no famoso “você é um preto de alma branca” e nos estereótipos do tipo “negão”. Poderíamos também enumerar outras dezenas de razões históricas que fizeram nossa sociedade assumir este comportamento, mas momentaneamente gostaria de refletir sobre os motivos que levam ao esquecimento fatos tão recentes e importantes na construção de nossa identidade. Como resultado desse esquecimento crônico, nossa população, que insiste em negar suas origens, ainda brinca de faz de conta com as lentes cor de rosa importadas da Europa caucasiana, fingindo que pré-conceito e racismo não existem no Brasil.

Lembrar fatos traumáticos pode ser doloroso, mas é ao mesmo tempo libertador e profilático. O exemplo disso é a relação do cinema com holocausto judeu. Com exemplos primorosos e emocionantes a indústria do cinema colabora para que essa mancha da história nunca seja esquecida. O mesmo não acontece no caso do holocausto africano no Brasil que igualmente deixou milhões de mortos.

Mesmo abafadas, essas lembranças, ajudam a evidenciar aquilo que temos em força, em beleza, em inteligência e atitude. Levar ao conhecimento das novas gerações essa nossa identidade permitirá o cultivo de valores que desviam da criminalidade, acabam com baixa autoestima e afastam jovens das situações de risco, do subemprego e da falta de estudos. Dessa forma, recordar não é apenas viver: é vital. Axé!!!


Alberto Coutinho

Além de marido apaixonado e pai coruja, sou ser indomável e pertinaz perseguidor da verdade que está no horizonte feito utopia. A cada aproximação conheço melhor o mundo, as pessoas e a mim mesmo, mas nunca a possuirei plenamente..
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