utópica verdade

Entre o sonhar e o realizar existe um meio termo

Alberto Coutinho

Além de marido apaixonado e pai coruja, sou ser indomável e pertinaz perseguidor da verdade que está no horizonte feito utopia. A cada aproximação conheço melhor o mundo, as pessoas e a mim mesmo, mas nunca a possuirei plenamente.

Teatro do Oprimido: a revolução de dentro para fora

Através do Teatro do Oprimido, Augusto Boal nos convida a assumir o controle de nosso destino para nos tornar agentes de uma transformação mais ampla. Seu legado continua atual e necessário nos dias de hoje, quando vemos professores apanhando da polícia e leis limitadoras do direito de manifestação serem votadas no Congresso Nacional


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Podemos definir Augusto Boal (1931-2009) de diversas maneiras e entre tantos títulos podemos chama-o também de autentico revolucionário sem armas. Com sua técnica de Teatro do Oprimido, ele redefine e amplia o significado da palavra liberdade. Teatro do Oprimido são técnicas de teatro elaboradas por Boal com base no legado de Constantin Stanislavski, para promover uma maior liberdade de pensamento através da desmistificação dessa arte. Sendo a linguagem teatral inerente ao ser humano, tal conhecimento provoca uma verdadeira revolução em nossos horizontes de comunicação. Ao desbloquear os canais de compreensão de nós mesmos e do mundo, transforma-nos em pessoas mais criticas e atuantes ao invés de seres passivos, feito espectadores que pagam caro para esperar por um final que nos é imposto sem a mínima chance de interferir para mudar.

O Teatro do Oprimido é o teatro no sentido mais arcaico do termo. Todos os seres humanos são atores - porque atuam - e espectadores - porque observam. Augusto Boal

Porem, nem sempre foi assim. Em suas origens, a arte teatral era livre manifestação democrática do povo. Ao longo de sua trajetória, a sua origem popular foi sendo usurpada e sua manifestação, antes livre, foi elitizada e os participantes divididos entre os ativos (classe dominante ou aristocracia) que proclamavam as verdades absolutas de um nível superior (palco) que deveriam ser aceitas pela parte passiva (proletariado, pobres ou classe trabalhadora) também conhecida como espectadores.

Hoje podemos dizer que esta relação se manifesta não só nos meios tradicionais de produção teatral, mas principalmente nos produtos televisivos que chegam aos nossos lares. Não é preciso dizer que os receptores de televisão são como os palcos aonde essa ideologia de opressão chega de forma sutil a cada lar. Em tempos de manipulação onde os meios de comunicação se aliam as artes para levar o homem menos avisado a um estado de letargia mental, somos induzidos a assumir papeis ritualizados no jogo da vida onde cada vez mais a realização de nosso livre arbítrio se transforma em ilusão como a metáfora da pílula azul, mostrada no filme Matrix.

“Atores somos todos nós, e cidadão não é aquele que vive em sociedade: é aquele que a transforma.” Augusto Boal

Ao constatar esse estado de coisas, Augusto Boal elabora técnicas cujo objetivo principal é o de tirar o ser humano do estado de espectador passivo ou pacificado, para explorar todo seu potencial. Para isso as técnicas utilizadas no Teatro do Oprimido se utilizam de jogos e exercícios teatrais que objetivam desmontar ou destruir hábitos, costumes, pré-conceitos, condicionamentos e vícios que nós travam a liberdade de pensar de agir e impõe limites a nossa atuação social. Sem querer abusar da metáfora do filme Matrix, mas é como tomar a pílula vermelha para enxergar o mundo como ele é realmente.

"O ato de transformar é transformador...” Augusto Boal

Dessa forma, Boal propõe uma retomada da vertente histórica original do teatro sem perder os avanços da modernidade. Segundo ele, todos os homens são artistas e capazes, mas a maioria de nós, acostumados a sermos espectadores passivos dos acontecimentos sociais, somos compulsoriamente convencidos, pela visão burguesa de teatro, que não somos artistas e não temos talento algum. Por isso, Boal em sua obra, descaracteriza essa visão castradora de teatro a qual fomos condicionados e nos ajuda a perceber a arte que existe em cada gesto, em cada costume e cada postura que assumimos socialmente, nos levando a terrível conclusão de que, como no Teatro Grego, utilizamos mascaras e interpretamos papeis que nós foram impostos dentro de um sistema social. Cada mascara de comportamento nos transforma em seres autômatos ou marionetes destinadas a repetir comportamentos de forma ritualizada.

“O comportamento ritualizado é o comportamento morto: o homem não cria, apenas desempenha um papel sem criatividade. O conjunto de papéis desempenhado por cada indivíduo na sociedade cria nele uma “máscara”. Muito dos rituais são abstratos. A hierarquia militar, por exemplo, é um conjunto de rituais determinados por leis abstratas”. Augusto Boal

Não se trata de mero estímulo para que sejamos mais desinibidos. Seu trabalho é um grande convite para que sejamos transformadores da sociedade, pois, uma vez que as técnicas de Teatro do Oprimido nos conduzem a uma plenitude de consciência e amplia nossa visão e senso crítico sobre a sociedade em que vivemos nada mais natural e espontâneo, que esta proposta seja uma onda de transformação social através da arte, sendo cada um de nós o autor, diretor e protagonista dessa mudança. A frase “Um artista não é uma classe especial de homem, mas cada homem é uma classe especial de artista (autor desconhecido)” define o pensamento de Boal quando, em sua poética, critica a elitização do teatro e sua usurpação, pelas classes dominantes, do seio do povo.

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Alberto Coutinho

Além de marido apaixonado e pai coruja, sou ser indomável e pertinaz perseguidor da verdade que está no horizonte feito utopia. A cada aproximação conheço melhor o mundo, as pessoas e a mim mesmo, mas nunca a possuirei plenamente..
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