utópica verdade

Entre o sonhar e o realizar existe um meio termo

Alberto Coutinho

Além de marido apaixonado e pai coruja, sou ser indomável e pertinaz perseguidor da verdade que está no horizonte feito utopia. A cada aproximação conheço melhor o mundo, as pessoas e a mim mesmo, mas nunca a possuirei plenamente.

Democracia, manipulação e livre arbítrio

Num processo eleitoral, a propaganda sem regras, o assistencialismo e o desencanto com a política são, com certeza, armas que podem valer ainda muitos anos de atraso ao Brasil


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Acho que sou um cidadão mas não tenho certeza. Conforme ficou convencionado, a definição da palavra “cidadão” seria o indivíduo em pleno uso dos seus direitos de participação na política de seu país ou ainda, aquele que pode votar, ser votado e se manifestar livremente. Mas como a maioria dos brasileiros, não me imiscuo nos bastidores do poder, não arbitro medidas econômicas, investimentos públicos, não legislo e nem sou filiado a partido algum. Apenas voto. Simplesmente “apenas”, esse advérbio que é sinônimo de só, somente ou unicamente. Apenas voto. Talvez por ser obrigatório, ou quem sabe por fé. Procuro não fazer desse gesto um ato mecânico nem lucrativo. Acredito que isso também aconteça com a maioria dos eleitores. Não era para ser assim. A época das eleições, deveria ser considerada uma festa em que recebemos a dádiva de, livremente, poder arbitrar indiretamente sobre questões de máxima importância e escolher que tipo de vida queremos levar nos próximos anos. Liberdade e arbítrio, talvez sejam palavras inexistentes em nosso processo eleitoral.

Sofremos de uma letargia coletiva que poderia ser explicada pelo fato de sermos um povo que historicamente nunca tomou de verdade as rédeas de seu destino. Assim foi na independência de Portugal, na proclamação da República, no atraso com que libertamos os africanos escravizados e nos golpes que se sucederam ao longo de nossa história, todos motivados pelos interesses de quem detinha o poder econômico nas diferentes épocas. Todas as nossas revoltas foram locais ou classistas, nunca voltadas para mudar o panorama do país por inteiro. Com esse histórico, nossas elites, mimadas e bem tratadas, estão mal acostumadas e não medem esforços para se perpetuarem no poder se valendo de mecanismos eficientes para manter nosso estado de letargia. Cultivaram em nosso inconsciente coletivo a máxima que diz “política não se discute”. Acreditando nisso, na maioria das vezes, somos levados a votar sem muita motivação ou simplesmente manipulados. Essa manipulação pode acontecer de três maneiras diferentes. Em qual nos encaixamos?

A primeira e a mais cruel é feita pela propaganda eleitoral. Definitivamente os caminhos da publicidade eleitoral não estimulam o debate, a reflexão e o crescimento intelectual das pessoas por meio de subsídios reais e sem apelo emocional. É notório o fato de que muitas vezes acontece sob escândalos, baixarias e denúncias exageradas com o apoio de alguns jornais e emissoras de televisão. Essas produções deveriam oferecer condições ao eleitor de fazer a melhor escolha por sua própria conclusão e não induzidos pelas músicas de refrão repetitivo, pela quantidade de fotos e imagens que poluem o ambiente e gravam nome e números em nossa mente ou pela ênfase dramática que se dá aos pontos fracos dos adversários. O debate e a reflexão foram trocados pela indução repetitiva de uma ideia, técnica utilizada para anular a capacidade de pessoas menos avisadas de resistirem a sugestões implantadas por meio da propaganda. A cereja do bolo está na proibida boca de urna, quando os eleitores que ficaram indecisos durante todo processo, recebem um apelo final de um candidato ou partido que foi trabalhado o seu inconsciente durante meses. Não é preciso muita reflexão para perceber que o objetivo principal dos partidos que se utilizam dessas técnicas não é o de promover o bom uso da inteligência do eleitor e estimular o voto consciente, mas sim perpetuar uma prática publicitária perversa anti ética que infelizmente está dando muito certo por aqui. A ciência da propaganda avançou de tal forma que agimos muitas vezes achando que nossa vontade está totalmente livre, mas é mera ilusão.

A segunda forma de manipulação é a que conduz o povo feito gado domesticado em direção aos currais eleitorais em troca de pequenos benefícios. Uma vez que grande parte da população, devido a ignorância e ao estado de pobreza, não creditam às eleições a devida importância o que vier para essas pessoas é lucro. Para eles, é apenas uma oportunidade de faturar um dinheiro, de ganhar benesses dos políticos ou quem sabe um empreguinho. Alarmante o fato de que esses, que são clientes do assistencialismo, são em muitos lugares onde a miséria impera, mais que suficientes para elegerem e perpetuarem no poder clãs que, por várias gerações, se beneficiam com nosso dinheiro.

A manipulação das vontades e dos bolsos são, com certeza, armas que podem valer ainda muitos anos de atraso ao nosso Brasil, porém, acredito que a mais eficiente de todas é aquela que nos induz ao desânimo frente essa utopia chamada democracia brasileira. É uma constatação preocupante, pois a farra das elites e dos políticos sanguessugas é inversamente proporcional a maturidade política de quem vota. O investimento das classes majoritárias na propaganda eleitoral sem regras e no assistencialismo é claramente no sentido de criar alienação, mas o desencanto e afastamento da parcela da população que é esclarecida deixando abertas as portas da manipulação das massas seria a pior e mais sutil forma de dominação e controle do voto. O natural desânimo com a situação pode nos levar a omissão. Prova disso é que apesar do espasmo de cidadania que aconteceu em 2013, a habilidade, a lábia e as mentiras convincentes divulgadas pela mídia, fizeram o gigante voltar a dormir em seu jazigo esplêndido, pois já não existia o hálito da indignação popular para lhe alimentar. Ou seja, acreditamos em tudo que a mídia nos falou. Foram tantas as acusações e fantasias que essa mídia competente criou a respeito dos acontecimentos de junho, que as pessoas se esconderam e mais uma vez preferiram não se misturar com política e nem tão pouco com vândalos e black bloks. Com tudo isso, retorno ao questionamento inicial: será que somos cidadãos no sentido pleno da palavra?


Alberto Coutinho

Além de marido apaixonado e pai coruja, sou ser indomável e pertinaz perseguidor da verdade que está no horizonte feito utopia. A cada aproximação conheço melhor o mundo, as pessoas e a mim mesmo, mas nunca a possuirei plenamente..
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