utópica verdade

Entre o sonhar e o realizar existe um meio termo

Alberto Coutinho

Além de marido apaixonado e pai coruja, sou ser indomável e pertinaz perseguidor da verdade que está no horizonte feito utopia. A cada aproximação conheço melhor o mundo, as pessoas e a mim mesmo, mas nunca a possuirei plenamente.

Como colocar um gigante para dormir

Após toda aquela agitação em 2013, contabilizando o número de eleitos, constatamos que houve uma inexplicável queda no quantitativo de parlamentares ligados as causas sociais e direitos humanos. Pior ainda: O povo que gritou pelo fim da corrupção elegeu um grande número de parlamentares que respondem a algum tipo de processo na justiça. Foi o mesmo povo que estava nas ruas em 2013 que votou em 2014?


intolerancia-religiosa5.jpg

No início era a indignação. Pessoas que entronizaram dentro de si o conceito de que não tem jeito ou de que não vai mudar nunca, atenderam o chamado de "Vem pra rua vem" e formou-se o que poderia ficar conhecido como um momento marcante de nossa história. Começou com reivindicações de pequena monta proveniente do inconformismo com um aumento de passagem ou estudantes querendo passe livre. Mas diante do canto que se compôs nas ruas, muitas vozes se juntaram fermentadas pela indignação de décadas. Já não era mais um bando de estudantes querendo passe livre e passagem barata mas todas as nossas demandas e revoltas com a classe política, era o que estava borbulhando nas ruas. Nosso povo tinha redescoberto seu potencial para reivindicar seus direitos honrando a memória daqueles que, em outros momentos de nossa história, foram assassinados por sonharem com justiça em nosso pais e, em particular, aqueles que morreram durante a ditadura militar.

Esse grito da população foi uma grave quebra do paradigma imposto a nossa sociedade. Foram muitos anos de doutrinação intensa na mídia para nos convencer de que somos felizes e não temos motivos para reclamar nem nos revoltar. Porem, nesse momento as forças que governam o Brasil de fato, que nada tem haver com os políticos eleitos, colocaram sua poderosa máquina para funcionar e restabelecer os "status quo" de antes. Foi um contra-ataque sutil, inteligente e muito eficiente, pois o que vemos nas urnas hoje é a antítese do que as vozes gritaram nas ruas em junho de 2013.

Efeito desse contra ataque faz lembrar o trecho do poema de Eduardo Alves da Costa, No caminho com Maiakóvski: [...] Na primeira noite eles se aproximam e roubam uma flor do nosso jardim. E não dizemos nada. Na segunda noite, já não se escondem; pisam as flores, matam nosso cão, e não dizemos nada. Até que um dia, o mais frágil deles entra sozinho em nossa casa, rouba-nos a luz, e, conhecendo nosso medo, arranca-nos a voz da garganta. E já não podemos dizer nada. [...]

Com a devida licença poética, não foi tão diferente do que está acontecendo hoje: No início pareciam amigos, sorriram, bateram em nosso ombro e pareciam dispostos a atender as reivindicações. Alguns deles até tentaram participar das manifestações com suas bandeiras partidárias mas foram expulsos. Postaram fotos de apoio com cartazes utilizados nas ruas, deram entrevistas e até apareceu uma tal de Pauta Positiva com toda classe de reformas que gostaríamos de ver implementadas no Brasil. Um certo alento acalmou os ânimos e uma fagulha da conhecida felicidade do brasileiro brilhou para logo depois voltar ao que era antes e até pior. A Pauta Positiva nunca avançou além da rejeição da PEC 37 que objetivava retirar os poderes de investigação do Ministério Público.

Logo depois, como que seguindo uma bem elaborada pauta, apareceram lideres para o movimento que, do ponto de vista de quem queria mais das manifestações, eram pessoas dispostas a aceitar o que viesse, pois já tiveram seus minutos de fama. Os líderes do MPL (movimento passe livre), estopim para barril de pólvora que se formou, foi habilmente transformado em balde de gelo para por fim ao movimento, perdendo uma oportunidade impar de mudança. Ao apontar e impor lideres, individualizaram o coletivo e excluíram o povo com suas exigências individualizadas nos cartazes que ocuparam as ruas, diminuindo assim a sua importância. Era muito comum ver os âncoras dos jornais repetirem diversas vezes: "o governo chamou a/o líder do movimento para negociar"; "prefeito está de portas abertas para receber os lideres do movimento"; "reunião com os lideres do movimento aconteceu hoje". Parcelas da sociedade com capacidade de se organizar ainda tentaram arrastar a massa de povo para as ruas, mas o recrudescimento da propaganda caracterizando tudo aquilo como um choro de bebês mimados da classe média querendo andar de graça nos ônibus, surtiu efeito devastador quando combinado com os outros acontecimentos. Lentamente as pessoas foram reconduzidas para a frente da tela hipnótica neutralizadora de livre-arbítrio.

Não posso deixar de mencionar que o movimento também sofreu sabotagem interna com o aparecimento dos black blocs. A quem ache que é só uma teoria de conspiração, mas muitos como eu acreditam que esses jovens revoltados contra tudo e não só contra a política foram estimulados e até pagos para provocarem o caos. Sem noção nenhuma do que estava acontecendo só queriam quebrar. O auge da festa dos black blocs aconteceu quando o cinegrafista da rede Bandeirantes foi atingido por um rojão disparado sem a menor responsabilidade pelas possíveis consequências. A morte do cinegrafista serviu de lápide nas já moribundas manifestações. Tudo isso para dar uma lição não apenas aos jovens em questão, mas para fazer com que o povo tomasse mais reservas contra as formas de pressionar o poder via manifestações de rua. Outro fato decorrente dos atos violentos provocados pelos black blocs, foi a justificativa para o investimento em armamento não letal para as polícias militares. Armamento para ser utilizado contra o povo que vai as ruas apesar de muita gente acreditar que era para garantir a segurança na copa do mundo.

O foco da população foi desviado e a intensidade das manifestações foi diminuindo graças a semeadura de descrédito feita pela mídia, numa campanha sórdida para neutralizar qualquer impulso revolucionário do povo. É nesse momento que os coxinhas saem de seus sarcófagos perfumados, com suas roupas de marca e suas críticas sem fundamento, abusando de palavras de efeito numa retórica sofista capaz de enganar os menos informados. Com eles, os fantasmas do golpe militar de 64 retornam do inferno e talvez por via mediúnica, iniciam uma pregação de extrema direita defendendo a volta dos militares ao poder. Criou-se um cenário onde ouve um recrudescendo do racismo, aumento das manifestações homofóbicas, discriminação de nordestinos, intolerância contra religiões de matriz africana e tudo isso com um discurso anti comunista do tipo que nem os Estados Unidos usam mais. Misteriosamente, suas declarações ganharam grande divulgação na mídia e nas redes sociais, suas palavras de ódio encontraram o caminho para coração de pessoas simples que se deixaram levar pela força do discurso. A maior piada é que a superficialidade da mente de quem embarcou nessa história é maior que a superficialidade do discurso de quem propagou essas ideias.

E de novo o gigante adormeceu. Nem o resultado da copa do mundo foi capaz de tira-lo da cama novamente. Aqui e ali acontecem um e outro protesto sem maior importância nacional. São como espasmos epiléticos de um gigante que tem pesadelos com bombas de efeito moral, gás de pimenta, black blocs, cinegrafistas mortos, coxinhas e aumentos de passagens que, por sinal acabou acontecendo.

Resultado de todos esses acontecimentos, espontâneos ou provocados, é que hoje, após as eleições, contabilizando o número de eleitos, constatamos que houve uma grande queda no quantitativo de parlamentares ligados as causas sociais e direitos humanos. O número de parlamentares comprometidos com as causas dos trabalhadores caiu de 83 para 46. Minorias como mulheres, negros e LGBTs estão reduzidos a quase zero e dificilmente vai se aprovar alguma lei em benefício desses grupos. Enquanto isso, segmentos conservadores ligados a uma direita mais radical como militares, religiosos, ruralistas entre outros mais dispostos a seguir a cartilha do neoliberalismo, jurando fidelidade a grande nação do norte, estão mais fortalecidos no congresso. Conclui-se dai que de julho de 2013 até outubro de 2014 algo muito contundente aconteceu para o povo se contradizer nas urnas. Defendem alguns, de forma inocente, que essa foi a consequência de uma rejeição em massa ao PT. De qualquer forma, isso não explica essa guinada de 180º à direita, uma vez que existiam outras opções que não fosse a tríade Dilma, Aécio ou Marina. Por outro lado, e comprovado pela história, a novidade em termos de política em nosso pais que sempre foi governado por representantes das classes mais ricas, está justamente na presença do PT no poder com todos os seu evidentes erros mas também muitos acertos. Seria como o cristão que não gosta do budista e faz um pacto com satã para protestar. Esse resultado não faz o menor sentido.

Para complicar mais ainda, 40% dos deputados federais e senadores eleitos em 2014 são réus ou estão sendo investigados pela polícia ou Justiça brasileira. Os crimes ou infrações cometidos por eles vão de desvio de recursos públicos e improbidade administrativa a crimes de tortura e violação da Lei Seca, porte ilegal de armas, homicídio, uso indevido de funcionários, apropriação irregular de terras, “farra na publicidade”, crime ambiental, desmatamento ilegal, falsidade ideológica, crime de responsabilidade, lavagem de dinheiro, promoção pessoal em jornal púbico, compra de votos, doação irregular de terreno público etc.

Enquanto isso, vou aguardando, em meu sofá, o possível e iminente retrocesso social que está por vir e encerro estas reflexões com uma conhecida frase de Aldous Huxley: A ditadura perfeita terá as aparências da democracia, uma prisão sem muros na qual os prisioneiros não sonharão sequer com a fuga. Um sistema de escravatura onde, graças ao consumo e ao divertimento, os escravos terão amor à sua escravidão. Só para constar, na data em que escrevo estas linhas, o 2º turno das eleições ainda não aconteceu.


Alberto Coutinho

Além de marido apaixonado e pai coruja, sou ser indomável e pertinaz perseguidor da verdade que está no horizonte feito utopia. A cada aproximação conheço melhor o mundo, as pessoas e a mim mesmo, mas nunca a possuirei plenamente..
Saiba como escrever na obvious.
version 3/s/recortes// @destaque, @hplounge, @obvious, @obvioushp //Alberto Coutinho