utópica verdade

Entre o sonhar e o realizar existe um meio termo

Alberto Coutinho

Além de marido apaixonado e pai coruja, sou ser indomável e pertinaz perseguidor da verdade que está no horizonte feito utopia. A cada aproximação conheço melhor o mundo, as pessoas e a mim mesmo, mas nunca a possuirei plenamente.

A vitória do mal e a falência das religiões

A razão nos leva a crer que o bem ou mal que façamos, independe de nossas convicções ou descrenças sobre a ideia de um ser superior que representa o bem e de um outro incondicionalmente voltado para o mal. O bem ou o mal que façamos é sempre parte de nós.


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Não quero neste artigo valorizar a equivocada ideia de que vivemos num mundo onde forças divinas e demoníacas nos manipulam como marionetes. Em hipótese nenhuma pretendo reforçar ou enfraquecer a ideia de um ser superior que representa o bem e de um outro incondicionalmente voltado para o mal. A razão nos leva a crer que o bem ou mal que façamos, independe de nossas convicções sobre o que habita no invisível ou em nossa imaginação: parte sempre de nós. Também não é pretensão dessas linhas reforçar a falsa ideia de que bem e mal são conceitos subjetivos, mutáveis a cada época da humanidade e vinculados aos valores de uma sociedade, pois nem os filósofos tiveram êxito em conceitua-los. Muito embora as religiões, principalmente as cristãs, tenham falhado na tarefa pedagógica de infundir a prática do bem no coração dos homens, a proposital generalização vista neste artigo tem o objetivo de provocar uma reflexão, pois sabemos existir grandes e belas exceções. Não temos o intuito de proferir anátemas para qualquer ramificação religiosa, nem tão pouco contra aquelas que se mantém firmes no ideal do bem e muito menos contra às pessoas que fazem dessas boas práticas uma realidade transformadora. Impossível desmerecer um e outro foco composto por pequenas luzes de resistência que ainda se preocupam em fazer o bem levando lenitivo, alimento e consolo para quem sofre materializando atitudes de bem que nascem do amor e repeito ao próximo, apesar da falência das virtudes em nossa era.

Feito os esclarecimentos, aduzimos que não é tarefa fácil tentar conceituar o bem e o mal de forma objetiva e simples para que pessoas comuns tenham a possibilidade e um parâmetro para se auto avaliarem. Mesmo entre os grandes filósofos a tarefa se configurou pela dificuldade de se colocar em termos objetivos tais conceitos. Para ilustrar, cito apenas três dos quais mais se aproximaram do objetivo destas paginas: Thomas Hobbes: aquilo que agrada ao homem é bom e o que lhe causa dor ou desconforto é ruim; Kant: se o agente pratica o ato com boas intenções, respeitando as leis morais, o ato é bom; Sócrates: o mais elevado bem que se pode medir tudo é o conhecimento. Entre várias outras definições encontramos conceitos que nos conduzem a entender o bem como: Atitudes contrárias ao egoísmo; Busca da verdade; Ações positivas; Ausência do mal; Atitudes que levam benefícios não somente a quem as pratica mas também a uma outra pessoa, a uma coletividade, uma nação ou a todo o globo. Então, para não nos perdermos num universo de definições e facilitar o entendimento, emprestaremos um conceito que está no Novo Testamento, que, de tão simples é esquecido ou deixado de lado pelas religiões cristãs: bem é tudo que gostaríamos que nos fizessem e o mal seria paradoxalmente tudo aquilo que não gostaríamos que nos fizessem de tal forma que, para haver equilíbrio social faríamos aos outros tudo aquilo que gostaríamos que nos fizessem deixando de fazer o que não gostaríamos (Mateus 7:12).

Da mesma forma, a questão do mal também sempre foi analisada subjetivamente chegando-se ao ponto de credita-lo a uma criatura demoníaca a quem muitos culpam pelos seus erros. Mais uma vez a visão dogmática das religiões majoritárias joga no limbo do mundo invisível e improvável as causas de nossos males e nos remete as superstições que afastam a racionalidade. De forma objetiva podemos concluir que o mal é a consequência de nosso proceder quando não contabilizamos o resultado de atos ou palavras e pode percorrer várias vias até levar dor e sofrimento à alguém e/ou para nós mesmos. Exemplificando, o problema do mal nosso de cada dia, pode se manifestar numa pessoa que joga lixo no chão e não imagina que o lixo de muitos podem entupir bueiros levando a enchentes que podem tirar vidas, desabrigar pessoas e custar milhões em dinheiro público. Esse exemplo do mal praticado por irresponsabilidade não exclui aquele mal feito com consciência e interesse de prejudicar e levar sofrimento para uma ou mais pessoas por simples sadismo ou por lucro material que pode ser exemplificado pela escravidão nos dias atuais, o avanço do terrorismo, a violência urbana, o abandono de incapazes, os estupros coletivos, as brigas de torcida e o descaso dos governantes que, alterando as leis, permitiram ou omitiram o desmatamento que leva a seca inédita a alguns estados do Brasil, fazendo o mal a milhares de pessoas. Estes entre outras tantas atrocidades são alguns exemplos do mal conscientemente praticado. Num outro aspecto, podemos observar o mal que é praticado e reivindicado como direito por aquele que pratica: o fumante despreocupado com a saúde dos outros, a festa do vizinho ou o carro tunado que perturba o sossego da comunidade, o xingamento eivado do sentimento de ódio, o motorista que ocupa a vaga de deficiente ou para sob a faixa de pedestres são algumas possibilidades de se fazer o mal e se achar inocente e injustiçado quando chamados à razão. Pode ser incomodo admitir, mas o mal está dentro de nós, em nossa capacidade de levar incômodo, dor, sofrimento e morte a outras pessoas mesmo que não percebamos isto. Fatos que diariamente vislumbramos nos jornais, nas ruas e sintetizamos em medo é a comprovação fatídica de que o ideal do bem se transformou em utopia e o mundo caminha para uma falência generalizada das virtudes que poderiam transformar nossa convivência nesse planeta mais feliz e segura. Difícil é admitir que também contribuímos para isso.

Na medida que se aprofunda no caminho do individualismo/egoísmo o homem moderno se molda a imagem daquilo que o capitalismo tem de pior que é interpretar a vida como um produto descartável que, combinado com o instinto de sobrevivência, faz o homem voltar a ser lobo do próprio homem. O pacto social já não basta para evitar este canibalismo, pois a nossa capacidade de ferir, machucar, levar a dor, sofrimento e morte aos mais fracos se supera a cada século. Tal conclusão embora trágica é uma constatação histórica baseada em fatos materiais, estatísticas e vivenciadas por milhões de pessoas diariamente pelo nosso mundo. A felicidade do próximo não tem o menor valor e a satisfação imediata das necessidades ou superfluidades individuais é o que importa mesmo que outros estejam sendo prejudicados e que no final não sobre nada para nossos filhos e netos.

Nesse contexto em que a felicidade coletiva perde sua importância as religiões se transformaram no maior estimulador desse individualismo/egoísmo ao valorizar a fuga individual da morte para um paraíso improvável em detrimento da construção do reino de paz aqui e para todos. Muitos religiosos planejam sua ida para um paraíso sem ao menos manifestar preocupação pelos amigos, filhos, mães, pais, maridos e esposas que supostamente amam mas não ligam se vão sofrer com queimaduras que nunca cicatrizam, conforme a pregação de um ardoroso líder cristão. Outro exemplo desse individualismo/egoísmo estimulado pelas religiões majoritárias é que a maioria dos religiosos modernos dificilmente se preocupariam com quem está faminto, com quem sofre com as guerras, ou padece de doenças. Caso atentem para o fato de que existem seres humanos que sofrem, seu interesse maior é o de "levar a palavra" e contabilizar mais alguém que conheceu "a palavra" por seu intermédio, garantindo assim a salvação egoísta de sua própria alma. Ao expor tal pensamento para um adepto de umas das inúmeras correntes protestantes fui surpreendido com a seguinte frase: Tem que ter uma compensação... eu vou ser bom e não ganho nada com isso? Isso ilustra o atual quadro do cristianismo em nosso globo. Outro lado mais cruel desses religiosos se revela diante das frases repetidas fartamente quando interpelados sobre o sofrimento alheio: "É falta de deus", "Isso que dá não aceitar a Jesus", ou ainda " é tudo adorador de imagem, por isso deus castiga". Frases essas sempre acompanhadas dos versículos, capítulos e livros habilmente memorizados para "vencer" qualquer debate.

Essa falência por parte das religiões majoritárias em promover e estimular o bem coletivo se deve ao fato de que estas se afastaram dos ensinamentos do fundador da religião cristã (Jesus). Muito embora os ensinamentos de Jesus sejam fartamente verbalizados aos gritos nos locais de cultos, sutilmente o sentido prático do bem foi substituído por atitudes puramente reflexivas e/ou contemplativas que nos coloca a mercê da vontade de um ser superior cuja submissão e adoração (ou adulação) nos levaria às suas graças e assim estaríamos livres e protegidos do castigo eterno, independente de estarmos colaborando para tornar esse mundo um lugar pior.

Outro aspecto que fortalece esse afastamento da religião do bem real foi o banimento da ciência, da racionalidade e da lógica. Ao infundir a obrigatoriedade da fé cega e não tolerar questionamentos que poderiam servir de exemplo de tolerância para o progresso humano, as religiões majoritárias afastaram as mentes mais críticas e preparadas contribuindo assim com o ceticismo não apenas em relação a um ser supremo e superior mas principalmente em relação ao próprio bem. Com isso o mal dominante decorrente desse individualismo ganhou como aliada a ignorância que espalhou a falsa ideia de que o bem supremo provém de uma fonte divina e externa aos homens, retirando nossa responsabilidade de agir e promover esse bem. A crença no improvável e o sacrifico da inteligência, para os religiosos modernos, se configurou como porta larga para um hipotético céu de facilidades e ócio. Essa crença no invisível pode ainda trazer um certo conforto egoísta para alguns, que creem cegamente na salvação de sua alma sem o esforço do exercício das virtudes ensinadas por Jesus, mas está longe de resolver o problema da dor e do sofrimento em escala global.

Acredito porém que nem sempre foi assim pois, numa análise mais crítica podemos concluir que podem existir dois tipos de cristianismo: um quase extinto onde as orientações para uma sociedade justa e igualitária são claramente descritas em algumas pouca máximas repletas de sabedoria no novo testamento e outro cristianismo voltado para conquistas materiais e promessas impagáveis de se fugir da morte, o maior temor da humanidade. Fato é que esta última corrente se utiliza de máximas do velho testamento, livro histórico judeu que é extremamente contraditório em relação ao novo testamento nos quesitos amor, paz, perdão e tolerância.

A humanidade poderia estar num rumo bem diferente caso as religiões mantivessem seu compromisso de orientar a humanidade ao invés de acender nosso histórico espírito de animosidade e competição fermentadas pela superstição e ignorância. Deveriam as religiões cristãs estimularem uma existência dignificante onde a assunção das virtudes do Cristo nos conduziria a uma vida pacífica sem preocupações com a violência, guerras e a opressão do mais forte. A diferença de conceitos religiosos, rituais e as formas diferentes que outros povos interpretam a divindade não seriam motivos de preocupação nem de competição, mas de enriquecimento cultural e de alianças, pois os conceitos de amor ao próximo são inerentes a todos os cultos que se propõem a uma aliança com um ser maior. Nessa utópica sociedade a maior glória seria a morte digna com a certeza de que ajudamos a deixar o mundo melhor para nosso filhos e netos.

Tal sociedade só se localiza no campo da utopia pois a religião cristã, em parte graças as condições históricas que se estabeleceram como a interferência do império romano e a reforma protestante, foi contaminada pelo espírito bélico, pelos interesses políticos e egoístas. Assim, estes acontecimentos colaboraram para transformar a religião em força de dominação onde aqueles que não estivessem em sintonia com as ideias dos lideres estavam contra o próprio deus. O mais trágico é que todo o peso da história teria seu efeito diminuído se o ser humano não tivesse também essa propensão ao mal e soubesse ler nas entrelinhas dos ensinamentos de todas as religiões que, independente da existência ou não de um deus ou uma espiritualidade além da morte, o que temos de certo e concreto é esse mundo e a convivência uns dos outros e que somente a prática do bem de forma despretensiosa poderá livrar nossos filhos e netos da triste herança que estamos deixando para eles. Não basta não fazer o mal,é preciso fazer o bem.


Alberto Coutinho

Além de marido apaixonado e pai coruja, sou ser indomável e pertinaz perseguidor da verdade que está no horizonte feito utopia. A cada aproximação conheço melhor o mundo, as pessoas e a mim mesmo, mas nunca a possuirei plenamente..
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