utópica verdade

Entre o sonhar e o realizar existe um meio termo

Alberto Coutinho

Além de marido apaixonado e pai coruja, sou ser indomável e pertinaz perseguidor da verdade que está no horizonte feito utopia. A cada aproximação conheço melhor o mundo, as pessoas e a mim mesmo, mas nunca a possuirei plenamente.

Parem de falar mal das cotas

Como entender que em nosso tempo ainda existam pessoas que se utilizam de argumentos e inteligência para tentar justificar a aplicação de ideias que já não fazem o menor sentido nessa época?


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De todos os argumentos que ouvi contra as cotas raciais em universidades públicas, nunca registrei algum que não fosse carregado de um certo racismo ou que usasse argumentos com conhecimento histórico, antropológico e sociológico aprofundado que embasasse tais ideias. A justificativa recorrente invoca, entre outras pérolas, a questão biológica da miscigenação argumentando que todos possuímos sangue africano e europeu, e não dá para saber quem é mais africano que o outro. Resumindo, argumentam que uma pessoa negra (de pele mais escura) pode conter em seu DNA muito mais elementos europeus do que africanos. Isso é fato incontestável, mas o detalhe que eles se esquecem é que, fora da teoria, um empregador não faz exame de DNA para medir a africanidade da pessoa. Nesta situação, relativamente comum, em que este empregador tenha que escolher entre contratar um negro ou um caucasiano com as mesmas qualificações para um determinado cargo - que não seja para trabalho bruto - qual seria a opção da maioria dos empregadores? Da mesma forma, a polícia não pede exame de sangue para ver em quem atira: eles atiram na cor. Engana-se quem quer registrar tais fatos somente no campo do preconceito. A questão é cultural, e como a corrupção é uma velha senhora nessas terras de Vera Cruz...

Outra argumentação muito presente é a dos que acham que os investimentos em educação deveriam ser suficientes para não ter que existir cotas. Não deixam de ter razão os que reivindicam um tratamento mais digno para a educação de forma a abranger a educação infantil, ensino fundamental e o médio, porém, essa ideia se assemelha a uma utopia distante diante de um congresso nacional que definitivamente se recusaria a diminuir seus salários, as verbas de gabinete e abrir mão do shopping que está sendo construído junto ao congresso para deleite deles e de suas famílias para dar um aumento digno aos professores e prover metodologias de ensino que tornem as aulas interessantes para fixar os alunos pobres de comunidades carentes nas instituições públicas de ensino. Prova viva disso existiu na década de 80, quando um projeto do antropólogo Darcy Ribeiro se tornou realidade no Rio de Janeiro, na forma de grandes escolas conhecidas como Brizolões, construídas próximas aos antros de pobreza e com capacidade para 500 crianças. Tais escolas modelo funcionavam em horário integral com metodologia construtivista, alimentação, atividades culturais, esporte e arte. Para encurtar a história, o ex governador Wellington Moreira Franco do PMDB, alegando gastos fulminou o projeto. Não precisa muita matemática para saber que a atual população carcerária (de maioria negra) e aqueles que se vinculam ao crime nos dias de hoje e que estão aproximadamente entre os 25 e 30 anos possivelmente são os órfãos dessas escolas que sofreram um fim sumário sem maiores explicações. Tudo isso somente para registrar que, salvo poucas exceções, não interessa a nossa classe política melhorar a educação. Por isso as cotas se apresentam como medida urgente para formação em nível superior de uma nova mentalidade nesse pais.

A superficialidade dos argumentos contra as cotas faz questão de ignorar que ao contrário do que aconteceu nos Estados Unidos e na Inglaterra, não houve uma inclusão do ex-escravo na nova sociedade produtiva. Aqui, não houve distribuição de terras nem tão pouco indenização pelos anos de trabalho forçado. As tentativas de aniquilação dos ex-escravos se iniciaram pelo abandono à própria sorte, onde muitos preferiram permanecer numa situação de submissão aos seus senhores sem nenhuma renumeração. Outra parte dos libertos, que ficou pelas cidades para garantir sua sobrevivência, se transformou em ambulantes, empregadas domésticas, trabalhadores braçais, e para muitas mulheres não restava outro caminho senão o da prostituição. Alguma semelhança com hoje?

E, mesmo diante desse quadro negativo, segundo os pesquisadores Ida Lewkowicz, Horacio Gutiérrez e Manolo Florentino no livro Trabalho Compulsório e Trabalho Livre na História do Brasil em 1872, os negros e mulatos já eram maioria da população brasileira. Diante disso, a sociedade branca, detentora do capital e dos meios de produção, se fechou e se tornou mais separatista pelo medo da haitização do Brasil. Não queriam perder privilégios implementando assim, políticas de comportamentos que distanciassem os negros da hierarquia social que são utilizados até hoje. Também digno de ser mencionado foi a postura inglesa. Talvez mais por interesse em formar novos consumidores para a produção industrial do que por altruísmo, os ex escravos que optaram por ficar com seus antigos senhores deveriam receber um salário e muitos deles se converteram em camponeses assumindo assim uma postura de agentes econômicos. Sob essa perspectiva, Adam Smith já advertia, em A Riqueza das Nações, que a escravidão era contraproducente, pois homens livres trabalhavam mais e melhor.

Assim, não é difícil perceber que além de ter passado por tudo isso, não é uma sensação muito boa para um negro saber que depois de tantos séculos, aqui ainda existem pessoas inteligentes que pensam conforme muitos séculos atrás. Em contra partida, não deve ser uma sensação muito boa para um racista perceber que, por mais que tenham feito, não conseguiram aniquilar nossa presença deste solo. Só conseguiram despertar nossa raiva e a nossa vontade de viver. Por isso estamos ai até hoje. É claro que em nossa época tal dívida não deveria ser paga com paliativos e as cotas raciais não deveriam existir pois vem com muitos anos de atraso mas é uma forma de tentar recuperar o tempo perdido. Argumentam ainda que essas medidas são separatistas, racistas e estimulam o preconceito. Pasmem, mas são séculos de políticas contrárias a população negra que hoje se revelam de forma muito clara em todos os cantos do pais. Os que preferem vociferar ódio verborrágico com verniz de argumentação séria, ignoram que os editais da universidades que aceitam cotas são categóricas em exigir que além do critério racial (cor da pele) outros sejam preenchidos.

Diante dessa força que o negro apresenta em querer viver para vencer e contrariando os filhos da antiga aristocracia, a presença dessa camada da sociedade nas universidades não representa um atraso e uma quebra na qualidade do ensino. Num estudo muito sério promovido por Teresa Olinda Caminha Bezerra e Claudio Gurgel denominado A POLÍTICA PÚBLICA DE COTAS EM UNIVERSIDADES, DESEMPENHO ACADÊMICO E INCLUSÃO SOCIAL, derruba de vez o mito de que cotista representa uma quebra na qualidade das universidades. Sem mais nada para argumentar deixamos a certeza de que o Brasil sempre contou e sempre poderá contar com a força, perseverança e inteligência do negro, para que um dia se torne um pais que além de rico seja justo e a população não repita nem aceite os erros dos seus lideres de hoje e do passado.


Alberto Coutinho

Além de marido apaixonado e pai coruja, sou ser indomável e pertinaz perseguidor da verdade que está no horizonte feito utopia. A cada aproximação conheço melhor o mundo, as pessoas e a mim mesmo, mas nunca a possuirei plenamente..
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