utópica verdade

Entre o sonhar e o realizar existe um meio termo

Alberto Coutinho

Além de marido apaixonado e pai coruja, sou ser indomável e pertinaz perseguidor da verdade que está no horizonte feito utopia. A cada aproximação conheço melhor o mundo, as pessoas e a mim mesmo, mas nunca a possuirei plenamente.

Jesus veio trazer a espada e não a paz. Mas somos nós que a empunhamos.

O homem deveria buscar o bem pelo bem independente das crenças muito propagadas de recompensas, prosperidade sem trabalho e fuga da morte para um lugar improvável em troca da adulação (ou adoração) a um ser superior.


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O que existe de comum entre a pedrada na menina Kaiane, o pastor chutando a santa em rede nacional (1995), o estatuto da família, o Estado Islâmico, as cruzadas, a derrubada de um templo de umbanda em São Gonçalo por ordem da ex prefeita, o Boko Haram, a bancada da bíblia - e da bala, a inquisição, a cura gay, e o assassinato de Charles Hebdo? A relação entre estes fatos pode ser óbvia mas está longe de ser compreendida em sua essência mais sutil, pois meche com nossos medos mais profundos, tradições muito arraigadas e dogmas aceitos por verdades inquestionáveis. Em artigo anterior, mencionei a falência da religião frente a sua tarefa milenar de conduzir a humanidade e implantar o bem pelo bem. Nesse entender, o homem deveria buscar o bem independente das crenças muito propagadas de prosperidade sem trabalho e na fuga da morte para um lugar improvável desde que se submeta a um ser superior feito déspota sentado num trono, como na idade média, sendo adulado (ou adorado) por seus súditos. Também argui que a razão nos leva a crer que o bem ou mal que façamos, independe de nossas convicções sobre o que habita no invisível ou em nossa imaginação: parte sempre de nós. Assim. fazer o bem deveria ser um impulso natural que não dependesse de uma recompensa no céu . Nesse contexto, sempre encontramos um jeito de justificar o injustificável para fugir da responsabilidade e infelizmente, até mesmo a religião tem sido usada desde a muito tempo para isso. Tendo em vista o questionamento acima é hora de nos perguntarmos: e se o mal estiver no seio da própria religião? Evidência históricas e atuais não faltam a esse respeito.

Pegando uma carona nos escritos do antropólogo Ronaldo Almeida, historicamente a sociedade desenvolveu a capacidade de tratar com fobia (medo) o que não esta de acordo com um modelo artificialmente imposto e forçadamente aceito como "normal". Nesse coletivo podemos citar adeptos de outras religiões como os muçulmanos, desde a época das cruzadas, os adeptos da Umbanda e do Candomblé no Brasil, que sofrem perseguições e conversões forçadas desde a escravidão e os gays com a atual "cura gay" que está em trâmite no congresso nacional brasileiro. Essa fobia se transforma em ódio do diferente e leva a sociedade a atitudes impensáveis onde o requinte de crueldade temperado com inteligência e planejamento impecáveis produzem os episódios tristes ao redor do mundo e próximo a nós. O terceiro estágio dessa metamorfose humana seria a vingança e não se pode negar que para a vingança o velho testamento está cheio de boas justificativas. Assim a religião monoteísta dominante, com seus atalhos de perdão instantâneo e salvação sem resgate, sempre se fez de abrigo para os propagadores do ódio onde as manipulações e traduções históricas da bíblia foram deixando ao esquecimento o que seria realmente relevante para uma sociedade melhor, servindo de justificativa para as atrocidades cometidas aqui e mundo afora. Nesse quadro fica a certeza de que as religiões se transformaram no maior estimulador involuntário desse mal. Ao valorizar a fuga individual da morte para um paraíso improvável em detrimento da construção do reino de paz aqui e para todos, fruto de uma sociedade mais justa, essas religiões dão uma patente demonstração de fomento ao egoísmo ou, no mínimo, grave desvio do caminho onde todos sairiam ganhando.

Tal desvio de função do ideal de Jesus Cristo não é de hoje, pois podemos perceber nas origens do atual modelo religioso, comum a evangélicos e católicos, que o cristianismo, que surge na esteira do monoteísmo, se tornou uma religião mundial não por força de sua moral cativante mas sim, por conveniente interesse imperialista. A disseminação em massa do cristianismo no mundo tem seu início na conversão de Constantino, um imperador romano, guerreiro e conquistador. Conversão esta que nem mesmo biógrafos da época chegam a um acordo definitivo de como se processou. O que se tem de fato é que Constantino convocou no ano 325 o 1º Concílio de Niceia no qual participaram cerca de 300 bispos cristãos lançando as bases para o catolicismo moderno e posteriormente o protestantismo e suas infinitas divisões e sub divisões. Devido a sua conversão a esta religião nascente, quando Roma era a grande potência da época, o cristianismo teve a oportunidade de se expandir para os territórios conquistados e lentamente os povos subjugados pela violência da espada e da lança dos romanos foram trocando sua história, sua cultura e sua tradição representados em seus deuses pelo deus monoteísta do cristianismo e suas promessas de paraíso em troca de adoração e fidelidade ao poder dominante.

Assim, o monoteísmo, trazendo em seu bojo o cristianismo, o islamismo e o judaísmo não trouxe efetivamente uma grande contribuição para o progresso moral da humanidade. Muito tempo se passou para se justificar hoje leis e regras que poderiam ser necessárias a mais de quatro mil anos atrás mas que hoje são estímulo ao ódio. As promessas de um paraíso hipotético com um mínimo de trabalho, pois segundo a tradição religiosa, Jesus já fez todo trabalho morrendo na cruz para nos salvar, só deixaram a humanidade mais egoísta, mas fechada em suas certezas não aceitando a contradita e punido até com a morte quem ousasse pensar diferente. Hoje não mais a espada nem a fogueira, mas as pedradas, a imposição de regras em nome de valores inerentes ao modo de pensar dos religiosos através do controle do poder político pode nos conduzir a uma estrada que com certeza nossos netos e bisnetos vão lamentar pelas escolhas que fazemos hoje em nome de um deus. Estaria Jesus prevendo a inversão de seu legado quando disse que não veio trazer a paz mas a espada?


Alberto Coutinho

Além de marido apaixonado e pai coruja, sou ser indomável e pertinaz perseguidor da verdade que está no horizonte feito utopia. A cada aproximação conheço melhor o mundo, as pessoas e a mim mesmo, mas nunca a possuirei plenamente..
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