utópica verdade

Entre o sonhar e o realizar existe um meio termo

Alberto Coutinho

Além de marido apaixonado e pai coruja, sou ser indomável e pertinaz perseguidor da verdade que está no horizonte feito utopia. A cada aproximação conheço melhor o mundo, as pessoas e a mim mesmo, mas nunca a possuirei plenamente.

Ou você se revolta, ou se suicida

A panela está no fogo a muito tempo. Até aumentaram a temperatura para ver se morriam mais rápido mas não adiantou e o líquido está transbordando, sujando e inundando toda sociedade. Ergueram presídios para prende-los, criaram leis severas, a maioridade penal ficou mais baixa e semanalmente a polícia militar cumpre sua cota de extermínio, mas nada disso adianta.


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A panela está no fogo a muito tempo. Até aumentaram a temperatura para ver se morriam mais rápido mas não adiantou e o líquido está transbordando, sujando e inundando toda sociedade. Ergueram presídios para prende-los, criaram leis severas, a maioridade penal ficou mais baixa e semanalmente a polícia militar cumpre sua cota de extermínio, mas nada disso adianta. Parece que vieram para ficar. Transformaram o sonho caucasiano/europeu da falida classe média brasileira num pesadelo mestiço de cabelo tonhonhoim e, graças a miscigenação, são hoje maior parcela da população. Parecem que dizem numa linguagem muda mas perfeitamente audível: "Ou pagam a dívida secular com o povo afro-mestiço-brasileiro, ou vão ter que continuar nos engolindo a seco, porque sabemos que te incomodamos. Estamos ai e continuaremos a descer pela goela de quem quer ver nosso fim."

Como uma panela de pressão prestes a explodir, vemos que a quantidade de negros vivendo em comunidades carentes, morando sobre as calçadas, trabalhando em sub empregos e se reunindo nas partes mais degradantes das cidades são como partículas de vapor buscando uma saída desesperada do confinamento. Em contra partida, é rara a presença dos herdeiros da escravidão nas classes mais ricas, profissões de nível superior, magistratura e em altos cargos políticos. Muitas crianças negras que nascem nos dias de hoje estão condenadas a um sistema de educação deficiente, relegado ao abandono pelo Estado e a consequência disso é que nunca vão pisar numa faculdade. E essa é a parcela de negros que não incomoda pois, como se diz normalmente, "são pretos do bem". São trabalhadores, camelôs, alcoólatras ou pedintes que enganam sua dor e escondem seu sofrimento na bebida ou na religião que promete quimeras de uma improvável vida futura num paraíso de delícias. A outra parte que ocupa as manchetes, engrossando as estatísticas de violência e dá visibilidade ao problema econômico-racial do Brasil é a que incomoda e mesmo assim, raramente a sociedade reflete sobre o processo que nos levou a essa situação. Por isso, existe um certo sadismo quando assistimos uma cena de arrastão pela televisão, pois essa parte dos enjeitados não está calada e satisfeita com suas vidinhas. Estes querem muito mais e não aceitam os limites impostos. Cospem na cara da sociedade o veneno destilado durante séculos de abandono ingerido por eles desde o útero materno. Ao nascerem, perdem a capacidade de escolha, pois só tem duas opções: a primeira é se transformarem no "bom crioulo" que baixa a cabeça e se submete a uma vida submissa de escolaridade baixa e limitações financeiras que o perseguem até o dia de sua morte (morte que pode ser por infarto, bala perdida ou auto de resistência mesmo sendo inocente); e a segunda opção que é o caminho sedutor, dinâmico e fantasioso do tráfico de drogas entre outros crimes. Dessa forma vemos que, ano após ano, a porcentagem desses jovens que prefere o crime é cada vez maior pois o seu meio ambiente não oferece estímulos para que seja diferente.

A opção por políticas de repressão em detrimento das políticas de inclusão faz nossa sociedade parecer um paciente que sofre de uma doença terminal e negando sua gravidade, se intoxica de analgésicos que não fazem mais efeitos. A insistência nesse tratamento inócuo somado ao histórico abandono do Poder Público nos antros de aglomeração dos escravos libertos, popularmente conhecidos como favelas só estimula proliferação da violência nessas comunidades que acaba por se irradiar para todas as latitudes. A sociedade por meio de seus representantes políticos se especializou na negação do problema que nos conduziram a esse caos criando esse habitat propício ao desenvolvimento do aprendizado do crime. É nesses ambientes onde os candidatos a bandidos fazem pós-graduação em violência, covardia, competição e desumanidade muitas vezes dentro da própria casa e assim, aprendem a lei do mais forte da pior maneira. Nestes, o veneno que não matou nem causou a letargia comum dos "pretos de alma branca", os tornou mais fortes, revoltados e indisciplinados. É o caldo da panela derramando no chão da sociedade e quanto mais se limpa mais espalha.

A condenação sumária e as saídas mais convenientes para os olhos e para as reeleições são defendidas como bandeiras salvadoras, mas ano após ano vemos que leis severas, prisões e truculência policial não resolvem. Assim, acabamos concluindo de forma quase clichê que a sociedade tem o que plantou. Apesar disso, a atitude desses jovens, não é um manifesto político revolucionário mas se trata da mais pura e pulsante revolta, temperada com muito ódio acumulado. E haja presídios celas e leis para tentar impedir esse avanço pois são frutos das gerações passadas que serão passadas para os que hoje são apenas embriões condenados a um mundo incerto.

De nada adianta o Estado mobilizar uma força tarefa para tentar estancar o pus que escorre dessa ferida sem se importar com a profundidade e a gravidade do problema. São efetivos policiais, guardas municipais, magistrados, assistentes sociais, promotores e defensores públicos mobilizados numa verdadeira operação de guerra que se repete a cada verão. A novidade é que nesta temporada, não existe a mínima intenção de disfarçar o fato de que esse aparato é para que a onda de tons marrons não volte a perturbar o sono dos herdeiros dos lucros da escravidão. Por isso acredito que essa guerra pode nunca ter um fim, pois, ao invés de reforma agrária, escolas, cultura, salário digno para os pais, respeito para as mulheres, liberdade e proteção para os cultos africanos e oportunidades iguais para todos, os governantes preferem afasta-los para a periferia cortando linhas de ônibus, encarcerando-os ou simplesmente exterminando-os num apartheid ideológico que só faz a pressão da revolta aumentar. A prova disso são os discursos inflamados contra a política de cotas raciais e a discriminação que, os poucos alunos negros sofrem nas instituições de ensino superior.

Se os que são considerados brancos de hoje não são responsáveis diretos pela escravidão de ontem, hoje colhem os benefícios de seus antepassados escravagistas, mas os descendentes daqueles que foram escravizados também colhem frutos, mas são frutos dos infortúnios e da dor de seus avós. A atriz Viola Davis, resumiu recentemente essa reflexão numa frase se referindo as mulheres, mas aqui a tônica é para todos os descendentes das pessoas escravizadas do passado: a única coisa que diferencia mulheres de cor de qualquer outra pessoa são as oportunidades. Exemplo disso podemos perceber na política, nas leis, nas redes sociais e em uma simples conversa num bar, pois 127 anos e muitas gerações após a escravidão ser considerada, a muito custo, ilegal, os comportamentos em relação aos netos de seres humanos que foram escravizados, continua sendo o mesmo dos senhores de escravos do passado que sonhavam com um Brasil europeu. E isso a miscigenação não resolveu pois até os mestiços, hoje tidos como pobres, nordestinos e favelados em geral, são alvo dessa exclusão.

No Brasil colônia, quando os africanos se fizeram perigosos e numerosos, criaram um arremedo de liberdade para aqueles poucos que sobreviviam aos maus tratos e conseguiam chegar aos sessenta anos (Lei dos Sexagenários). E a tentativa de engodo se estendeu para os recém nascidos que não tinham escolha, frente ao já patente abandono do Estado, e precisavam, após crescerem, continuar sob a "proteção" do seu algoz. Por isso talvez, que o nome da lei bem explicitava que a liberdade era para dentro do ventre (Lei do Ventre Livre). Assim, a "libertação dos escravos", só gerou outros infortúnios para a população africana no Brasil condenando os descendentes a estes infortúnios até os dias de hoje. A opção dos homens brancos detentores das terras em importar mão de obra europeia para ver se "clareava" a sociedade brasileira e não acolher os ex-escravos, aproveitando o conhecimento, oferecendo dignidade, salário, moradia e terras ecoa até hoje como um estigma onde todos pagam o preço do egoísmo e da falta de estratégia de nossas elites do passado e do presente.

Hoje, a falta de políticas de inclusão, que respeite e, por consequência, crie oportunidades de ascensão social para os afrodescendentes, é o mesmo tipo de abandono cometido no passado que criou o terreno fértil para a violência que colhemos hoje. Não é a toa que muitos desses jovens que optam pela criminalidade e pela violência procedam desse jeito. Eles sabem que vivem num país que lhe discrimina negativamente, fechando as portas da ascensão social, lançando olhares desconfiados e piadas para seus semelhantes. Imaginem não ser bem-vindo na terra em que mora, onde perseguem suas crenças e destroem sua fé. Imaginem ver e viver tudo isso todos os dias e ainda ouvir que essas coisas não existem, que vivemos numa democracia racial e viva a diversidade e a miscigenação. Miscigenação que só é bem vinda quando embranquece. Por tudo isso, os presídios estão cheios de negros e as cenas de arrastão se assemelham a uma onda de tons marrons escuros a lembrar para os que são lesados que o que sobra em suas vidas saiu da privação de alguém e este alguém pode estar vindo cobrar no próximo verão, na esquina ou em qualquer lugar. Vai faltar polícia e cadeia para isso tudo.

Não quero com essa linhas fazer apologia a violência, nem estimular o coitadismo mas, amparado pelo filósofo Albert Camus quero deixar a seguinte reflexão e dica: Num mundo extremamente desigual e autoritário, superficial e mentiroso, ou você se revolta, ou se suicida. (...) a única saída é a transformação radical do mundo em que se vive. Se não for desta forma, não vale a pena estar vivo. Na verdade, se não for desta forma, de certo modo não se está vivo: se está existindo. Apenas. - Albert Camus. Ou é dessa forma ou a panela vai explodir, e eu não quero estar por perto quando acontecer.

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Alberto Coutinho

Além de marido apaixonado e pai coruja, sou ser indomável e pertinaz perseguidor da verdade que está no horizonte feito utopia. A cada aproximação conheço melhor o mundo, as pessoas e a mim mesmo, mas nunca a possuirei plenamente..
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