utópica verdade

Entre o sonhar e o realizar existe um meio termo

Alberto Coutinho

Além de marido apaixonado e pai coruja, sou ser indomável e pertinaz perseguidor da verdade que está no horizonte feito utopia. A cada aproximação conheço melhor o mundo, as pessoas e a mim mesmo, mas nunca a possuirei plenamente.

Bestialidade Brazilis

Neste momento delicado pelo qual passamos, uma análise imparcial do fenômeno social que vivemos, reflexo da infeliz tradição política que cultivamos por décadas, se faz necessária para deixarmos de ser fantoches que repetem, sem refletir, a equivocada voz do senso comum.


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2015 foi o ano da bestialidade política no Brasil. Entendam "bestialidade" pelo seu múltiplo sentido, ou seja, comportamento que assemelha o homem à besta ('animal'); brutalidade, estupidez, imoralidade. Vemos o efeito direto dessa bestialidade quando um grupo de mentes histórica e politicamente enregeladas despertam vociferando as virtudes de uma ditadura, defesa da pena de morte, aumento da menoridade penal, liberação total das armas, proibição total do aborto entre outras esquisitices. Estão totalmente cegos aos desmandos de deputados e senadores que realmente põe o país em risco. São incapazes de raciocinar sobre fatos concretos e história, tentando impor sua visão de mundo mesmo que a realidade mostre algo bem diferente. Insistem em seus argumentos elevando a voz e apelando para ironias sem sentido e improvisadas, quando não apelam para agressão física diante de fatos inegáveis. Mesmo assim não desistem e gritam mais alto os mesmos fatos antes refutados. É assim que funciona a cabeça de uma pessoa bestializada (também conhecida como "coxinha"), que nunca se interessou por política e ao sopro de uma mídia descomprometida com a verdade, irrompe em delírios nacionalistas, anti comunistas, racistas, homofóbicos, fundamentalistas, retrógrados e sutilmente escravistas.

Essa bestialidade do ser comum, ou seja, daqueles que não ocupam nenhum cargo político talvez fosse até motivo de piadas, se não tivesse origem na bestialidade da política partidária oficial. Essa bestialidade oficial que foi eleita sob a batuta de grandes investimentos de empresas particulares em suas campanhas eleitorais, garantiram o pagamento de eficientes campanhas publicitárias, abrindo caminho para formar esse Congresso Nacional que é motivo de vergonha nacional. Em sua atual formação, o Congresso Nacional não está preocupado com a ética nem com a lógica de seus desmandos. Além de criarem leis em causa própria, defenderem o fim do estado laico, tentam, de forma imoral, aprovar a volta do financiamento de campanhas eleitorais, vetado pelo STF e adiam conclusões e julgamentos em seu desfavor, com manobras que desafiam até a moralidade. Enfim, a inércia deliberada do Congresso Nacional que paralisa o país, para complicar a crise econômica deixando o caos se instalar, parece não ter a menor importância, pois o que eles querem é o poder absoluto e como bestas sedentas de sangue, não medem esforços para conseguir. Assim, podemos concluir que o Congresso Nacional sofre de vazio de caráter e contamina o povo brasileiro.

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Essa endemia de bestialidade política que assola o país foi alvo de reportagem do jornal francês Le Monde Diplomatique. A matéria em questão escrita por Lamia Oualalou, além de tecer severas e justas críticas a presidente Dilma, destaca que o Congresso brasileiro, se "caracteriza por uma fraca representatividade popular. Sua principal virtude é a de permitir às elites perpetuarem sua influência sobre o poder. E vai além, destrinchando o sistema de coalizões, o caríssimo marketing e o coeficiente eleitoral citando Tiririca que, no seu bojo elegeu outros parasitas. Quem quer entender a nossa política é excelente leitura (em Brasil, refém dos “300 picaretas”). Vozes bestializadas podem se revoltar e gritarem para os franceses cuidarem de seus terroristas e deixarem o Brasil em paz, mas não podemos negar que, os políticos defensores do impeachment entre outras bandeiras de retrocesso se utilizam de barganha, chantagem, manobras e comportamentos escusos, para chegarem ao poder.

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Mesmo com a liderança insone da mídia e de alguns deputados e senadores que não aceitam a derrota nas urnas, talvez a bestialidade brazilis não seja tão burra e no fundo carregue o sonho de um Brasil caucasianamente europeu e luteranamente cristão, que não sai do inconsciente coletivo de parte de nosso povo. Para estes a prosperidade e a justiça social são apenas para os que a eles se assemelham. O Brasil é grande e plural, mas muitas vezes testemunhamos essa bestialidade agindo com violência contra "minorias" que conseguiram ascender a melhores condições de vida pois tiveram acesso ao ensino superior, direitos trabalhistas reconhecidos, saíram da faixa de miséria e conquistaram casa própria. Direitos fundamentais como o de ser reconhecido como família, no caso da união homo afetiva e as cotas em universidades para negros e índios são motivos de acaloradas críticas como sempre vazias e desprovidas de conteúdo lógico que acabam em gritos e agressões por parte daqueles que, bestializados, só conseguem ruminar seu próprio egoísmo. A aquisição de mais direitos por quem não tinha acesso total a estes, foi uma das causas dessa endemia de bestialidade que assola o país demonstrando que, se por um lado a indução da mídia acendeu o estopim dessas pessoas, muito desse ódio e alienação já existia latente aguardando o momento para eclodir. O momento político só serviu de combustível para alimentar esse ódio, embora há quem diga que a derrota na copa do mundo também acirrou os ânimos.

Acredito que atual onda de bestialidade seja endêmica pois, ao contrário dos radicais de esquerda, defendo a ideia de que existe vida inteligente a direita. A diferença entre essas pessoas que defendem suas posições políticas com coerência e argumentos, daqueles que, bestializados, batem panelas e partem para briga é a conjugação de inteligência, ética e respeito. Ao conversar com essas pessoas percebe-se que no atual jogo político temos pontos que, independente da posição política, concordamos tais como: a falta ética, moral e respeito as tradições republicanas e democráticas por parte do Congresso Nacional; que existe, por parte de algumas lideranças partidárias, a nítida vontade de "ver o circo pegar fogo" para reinar sob as cinzas; e que o governo da Dilma, embora tenha cometido erros muito graves e ter se deixado influenciar pelos conchavos, não sofre da imoralidade que purga no Congresso Nacional. A fé de uma pessoa no neoliberalismo, não faz dela necessariamente uma pessoa bestializada, ou um coxinha, assim como a fé no comunismo não faz ninguém, em sã consciência, ser um defensor de ditadores sanguinários.

Mesmo existindo políticos e pessoas coerentes tanto a esquerda quanto a direita das ideologias dominantes, tal fato não afeta de forma contundente a "democracia brasileira", que vem entre aspas pois por democracia entendemos a liberdade de escolha, o livre arbítrio e o respeito aos que conquistam suas posições na administração pública. Infelizmente, o que vemos é a contaminação do interesse público pelo privado e o voto do povo, que deveria ser independente, se sujeitando ao arsenal publicitário e tecnológico que induz o eleitor a uma ilusão de liberdade de escolha. Tal estado de coisas pode durar ainda muitos e muitos anos enquanto existirem pessoas comuns que se deixam contaminar trocando a prosperidade de muitos pelas migalhas que recebem. Nesse contexto, nem as bestas selvagens são tao egoístas.

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Alberto Coutinho

Além de marido apaixonado e pai coruja, sou ser indomável e pertinaz perseguidor da verdade que está no horizonte feito utopia. A cada aproximação conheço melhor o mundo, as pessoas e a mim mesmo, mas nunca a possuirei plenamente..
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