utópica verdade

Entre o sonhar e o realizar existe um meio termo

Alberto Coutinho

Além de marido apaixonado e pai coruja, sou ser indomável e pertinaz perseguidor da verdade que está no horizonte feito utopia. A cada aproximação conheço melhor o mundo, as pessoas e a mim mesmo, mas nunca a possuirei plenamente.

O preconceito contra os evangélicos ou cristofobia

O preconceito contra os evangélicos ou cristofobia são denominações novas e até que sejam absorvidas pelo senso comum, muitas coisas precisam ser compreendidas e praticadas sem as quais o juízo que se faz de religiosos será sempre o de fanáticos que se aproveitam da desgraça alheia e da ignorância para aumentar suas fileiras e lucros, deixando no caminho sangue, destruição e lagrimas.


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Recentemente numa reportagem do jornal Extra, a Pastora, Nãna Shara declarou que “Evangélicos sofrem tanto preconceito quanto os gays”. Digno de preocupação, tal fato demonstra que o açoite do preconceito não está circunscrito aos campos historicamente conhecidos. Porém, essa colocação deve ser entendida dentro de um contexto histórico e social onde percebemos que, muito diferente do que a pastora demonstra saber, o que se verifica em relação aos evangélicos é mais uma rejeição ao que eles representam na modernidade do que um preconceito propriamente dito: é um conceito muito bem motivado pelos fatos que chegam ao nosso conhecimento pelos jornais, internet e pelos que vemos. É literalmente uma definição que está ligada ao que é ser evangélico no Brasil nos dias de hoje, e não estou falando do aspecto religioso ou da fé. Creio que crer nos preceitos ensinados por Jesus está longe de estimular atitudes violentas, sectaristas, agressivas e sedentas de poder político de um lado e por outro fomentar o silêncio dos bons cristãos que assistem quietos e omissos os atos que em nome de Jesus semeiam o terror entre pessoas simples praticantes de religiões de matriz africana, católicos sinceros ou simplesmente contra aqueles optam pelo ateísmo.

O preconceito é uma visão distorcida em relação a alguém, um grupo social, uma etnia ou um povo que leva o preconceituoso a assumir atitude de rejeição em relação ao próximo que não raramente chega às raias da violência, assassinatos, guerras e genocídios. Historicamente em nome desses conceitos distorcidos a religião fez (e faz) muitos estragos: inquisição, cruzadas, guerra na Irlanda, guerra dos trinta anos e terrorismo entre os mais visíveis. E em nosso pais os estragos não ficam longe dos jornais: a pedrada na menina Kaiane em 14 de junho de 2015, por estar com as vestes ritualísticas do Candomblé, agressões a quem professa outras religiões de matriz africana, ataques aos templos dessas religiões, homofobia, violência contra a mulher, depredação de igrejas católicas, e não poderemos esquecer do ataque a imagem de Nossa Senhora Aparecida por um “bispo” da igreja universal do reino de deus em 12 de outubro de 1995 em pleno dia da padroeira do Brasil. Esses entre outros milhares de fatos justificam o que a pastora chama de preconceito contra evangélicos mas se trata de uma reação as suas injustiças perpetradas em nome de uma fé sem razão que não aceita ser questionada.

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O Artigo 1º da Lei nº 7.716/89, prevê punição aos crimes resultantes de discriminação ou preconceito de raça, cor, etnia, religião ou procedência nacional. Sem falar no crime de lesão corporal no Artigo 126 do Código Penal ou ainda os danos ao patrimônio histórico cultural, alvo de tutela do Ministério Público. Podemos supor que quem infringe as leis em nome da religião se vale de uma “fé” na impunidade. Podemos ainda supor que o fato do parlamento brasileiro possuir uma “bancada evangélica” que claramente legisla em causa própria, talvez estimule essa “fé” na impunidade pois o que vemos é que a maioria desses crimes, não chega a ser investigado e seus autores tampouco punidos. Seria extensa a lista dos crimes cometidos em nome da religião que chegam ao nosso conhecimento e que ainda não tiveram o devido tratamento. Creio que essa infiltração de evangélicos nos três poderes, na polícia, nos Ministérios Públicos e Tribunais colaborem para que a devida punição nunca aconteça. São atitudes insanas de políticos como o deputado federal Cabo Daciolo que apresentou uma proposta para modificar o parágrafo 1º da Constituição, que afirma que "todo poder emana do povo". Ele queria alterar o texto para substituir o povo por Deus.

Muito antes do que se imagina, o estímulo ao preconceito tem presença marcada na religião cristã servindo muitas vezes como justificativa para a prática de crimes. Num primeiro registro podemos citar a proibição dos cristãos antigos de irem pregar junto aos chamados gentios, ou estrangeiros, que pode ser percebido na leitura das cartas de Paulo, o convertido de Damasco, ao seu seguidor Timóteo, e nas cartas dirigidas as cidades de Éfeso e Tessalônia entre outras passagens. Mesmo com todo preconceito e barreiras aos gentios, graças a Paulo de Tarso eles ganharam importância e espalharam o cristianismo para o resto do mundo. Em contrapartida esse mesmo Paulo que vence as barreiras do preconceito contra os gentios, se apresenta implacável contra as mulheres como por exemplo seus escritos na sua primeira carta aos Romanos, capítulo 11. Por isso, o mais conhecido de todos os preconceitos bíblicos é o machismo e a discriminação contra a mulher herdados do pecado original de Eva. Esse preconceito ganhou escala mundial e se ramificou nas principais vertentes monoteístas que inclui o judaísmo, cristianismo e islamismo ganhando neste último ares de total frieza e crueldade quando vemos mulheres condenadas a morte por apedrejamento ou queimadas vivas. Como podemos aferir, sem citar todos os fatos históricos, a mulher moderna sofre até os dias de hoje do estereótipo do pecado de Eva. Como se não bastasse o livro da em Gênesis 3:16 ainda derrama sobre elas a ira de deus: “E à mulher disse: Multiplicarei grandemente a tua dor, e a tua conceição; com dor darás à luz filhos; e o teu desejo será para o teu marido, e ele te dominará.”. A homofobia também não ficou excluída desse livro como podemos aferir no Deuteronômio 22:5, no Levítico 18:22 e 20:13 e na I carta Paulo aos Coríntios 6:9-10, entre outras passagens.

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Tais reflexões podem parecer uma contradição pois somos condicionados a acreditar que a religião é fonte de tranquilidade, harmonia e segundo a lógica protestante, prosperidade, mas a bíblia é um livro extremamente contraditório e ao tentar negar essa contradição entre o Novo e o Velho Testamento, os evangélicos acabam por denegar ensinamentos basilares que poderiam conduzir à paz e ao respeito. Exemplos desses ensinamentos encontramos no Novo Testamento, como em Mateus 22, quando Jesus afirma que o maior mandamento é amar a deus e o segundo maior é justamente amar seu próximo, asseverando que toda lei e os profetas, ou seja, a base da religião crista, depende disso. Ensinamento totalmente incompatível com as atitudes de evangélicos radicais que praticam atos de total desamor e desrespeito nos dias de hoje. Esse mesmo Jesus defende uma mulher de ser apedrejada e, conforme a lenda bíblica, após sua ressurreição foi primeiramente para as mulheres que se mostrou. Para completar, ainda enfrenta os preconceituosos da época que se insurgiam contra Maria da cidade de Magdala pela sua fama de meretriz. Tal seu pioneirismo em afrontar os preconceitos da época que, conforme consta nos registros bíblicos ele andou entre mendigos e leprosos e, não tinha nem uma pedra para assentar sua cabeça (Mateus 8:20), quase um morador de rua, sem dízimos e que dependia da caridade alheia. E nem com o testemunho daquele a quem chamam de mestre, os religiosos da atualidade se sensibilizam, preferindo interpretar seus ensinamentos de acordo com suas ambições e vaidades numa tentativa de afastar os preceitos de humildade que Jesus tão bem narrou nas bem aventuranças (Sermão da Montanha em Mateus 5:1 a 11). Poderia aqui desfilar todo conjunto de ensinamentos que vão contra essa maré de desvios que ocasionam os fatos citados acima, mas gostaria de destacar apenas aquele descrito em Mateus 23 quando num sermão muito atual Jesus critica seriamente o comportamento dos fariseus chamando-os de sepulcros caiados pois estão adornados de flores externamente mas por dentro são larvas, podridão e decadência. Coincidentemente essa passagem tem semelhança com as atitudes dos crentes da modernidade. São críticas ao enriquecimento ilícito, exploração da fé com vistas a obtenção de ouro, entre outros desvios que, pelo visto, são pouco estudados, nada praticados ou apreendidos em seu real significado para sofisticamente, não despertar a verdade.

Dessa forma, vejo os numerosos erros cometidos em nome da religião como a escolha consciente que fazem pela porta larga e fácil da violência contra os que não professam a mesma fé. Essa mesma porta larga estimula o apedrejamento de crianças, o vandalismo que descaracteriza patrimônio histórico, desrespeita nossa rica herança africana e fomenta a ambição cega pelo poder político que tenta sutilmente impor ao Brasil uma teocracia baseada na convenção e inversão dos valores morais objetivando manter as regalias e prazeres mundanos de seus lideres religiosos em detrimento dos fieis. As passagens bíblicas, verídicas ou não, independente do estímulo e justificativas apresentadas pela interpretação particular que fazem das escrituras, podem conduzir o crente a extremos diferentes pois nessas mesmas escrituras podemos também encontrar motivos para respeitar e aceitar nosso próximo independentemente de quem ele seja, acredite, pratique ou aceite. Por tudo isso a Pastora Nãna Shara antes de se queixar do preconceito contra os evangélicos deveria refletir no porque que de tal fato estar acontecendo. Creio que enquanto não acontecer entre os religiosos a escolha consciente pela porta estreita do sacrifício, do perdão, da tolerância e do amor, e os que não concordam com a conduta homicida dos falsos profetas continuarem calados e omissos os evangélicos no geral, continuaram a colher o conceito negativo de uma sociedade que está cansada de ser enganada mas a escolha será sempre nossa e a divindade não terá nada haver com isso.

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Alberto Coutinho

Além de marido apaixonado e pai coruja, sou ser indomável e pertinaz perseguidor da verdade que está no horizonte feito utopia. A cada aproximação conheço melhor o mundo, as pessoas e a mim mesmo, mas nunca a possuirei plenamente..
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