utópica verdade

Entre o sonhar e o realizar existe um meio termo

Alberto Coutinho

Além de marido apaixonado e pai coruja, sou ser indomável e pertinaz perseguidor da verdade que está no horizonte feito utopia. A cada aproximação conheço melhor o mundo, as pessoas e a mim mesmo, mas nunca a possuirei plenamente.

Para o cálice encher de vez

Podemos rejeitar os partidos, mas os nossos direitos e a nossa dignidade, nunca. Qualquer tentativa de se ocupar uma posição central fora dessa dicotomia, do tipo não me meto em política, acaba por favorecer o lado que normalmente não gostaríamos que prevalecesse, pois não somos simétricos.


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Ao ver os muitos vídeos de desprezo pelo simbolo das olimpíadas, acho que estamos superando a barreia da simples alienação e comodismo para partir para o amadurecimento do enfrentamento. Ainda são poucos, mas podemos perceber claramente que a indignação de hoje está maior que a de ontem. Pena a mídia fingir que está tudo bem e tentar impor essa imagem caricata e falsa de país das olimpíadas aos mais incautos. Imagem esta, criada para nos manter em casa; para que não levemos nossa indignação para a rua; para que a gente não seja mais um a querer apagar a tocha. Para isso não faltaram medidas: mudanças radicais nas linhas de ônibus, feriado forçado, policiamento extra para os estrangeiros e ainda balas de borracha, gás e spray de pimenta nos olhos de donas de casa e crianças. O mais lamentável ainda é ter gente que acredita no apresentador do jornal matutino, na praia, dando notícias somente da zona rica da cidade e das olimpíadas: ninguém mais foi assassinado, nenhum turista foi sequestrado, acabaram as balas perdidas, as UPAS voltaram a funcionar e a educação vai bem. Enquanto isso, o governo suicida do sr excelentíssimo-interino-temporário-provisório-descartável-detestável vai roendo nossa dignidade aparentemente alheio as manifestações das ruas, as tentativas e sucessos (a mídia não mostrou mas conseguiram) de apagar a tocha olímpica e a vergonha da desconsideração internacional de que é justo credor. Creio que ele, seus parlamentares e ministros não tem a ingênua ilusão de tentar se reeleger, ou pior, por serem parlamentares estão com a faca e o queijo nas mãos para emendarem a constituição e se perpetuarem no poder até só sobrarem nossos ossos. Só se estiverem achando que o povo é realmente bobo. Com tudo isso é preciso que esse caldo de indignação aumente pois percebo que num futuro próximo, do jeito que as coisas estão sendo conduzidas, ficarão piores.

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Não se trata aqui de posicionamento partidário pois é certo que a esquerda brasileira é burra, desunida, contraditória e decadente, causando revolta em todos nós. Trata-se de posicionamentos a favor ou contra a dignidade de trabalhadores, mulheres, homossexuais, defesa do estado laico, dos idosos e das crianças. Dessa forma, e em matéria do conflito que estamos vivendo, não existe um campo neutro – não há centrão. Podemos rejeitar os partidos, mas os nossos direitos e a nossa dignidade, nunca. Qualquer tentativa de se ocupar uma posição central fora dessa dicotomia, do tipo não me meto em política, acaba por favorecer o lado que normalmente não gostaríamos que prevalecesse, pois não somos simétricos. Temos o direito e até o dever de rejeitar as atuais siglas partidárias e mesmo assim estaremos sendo políticos não no sentido brasileiro da palavra, mas no sentido mais puro da accepção política, pois isso é ter coragem de tomar uma posição. Brincar de gangorra consigo próprio, tentando manter os dois lados a mesma distância do chão é tarefa árdua e de curta duração. Ou se está dentro da caixa ou fora dela: as duas posições simultâneas contraria a física e a lógica. Se omitir não é opção, é covardia, uma vez que é o futuro de nossos filhos e netos que está em jogo nesse momento.

Creio que não precisamos assumir um partido político como se assume um time de futebol para defender valores como igualdade, solidariedade, equidade e justiça. Não podemos deixar que o nojo e o medo nos bloqueie de lutar pelos valores acima descritos, pois são eles que fazem uma nação ser verdadeiramente grande e exemplos pelo mundo não faltam. Duvido que um político do DEM, PSDB, PMDB, só para citar alguns ou um grande empresário investigado ou não pela operação Lava-Jato, e o sr excelentíssimo-interino-temporário-provisório-descartável-detestável creem nesses valores. Se assumimos que indiretamente, colocamos no poder, políticos que defendem os interesses mesquinhos da minoria mais rica que controla o governo, e se somos capazes de perceber que isso significa incertezas futuras e sofrimento para os mais necessitados, já somos pessoas melhores.

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Essa herança do regime militar, ou seja, a castração de nossa capacidade de debater e se posicionar politicamente é mácula que até as gerações atuais se ressentem. E nem por ser uma versão mais light do AI5 as tentativas de controle das universidades, por meio do projeto escola sem partido, deixa de ser uma indução a perpetuação de nossa cegueira política. Não satisfeitos com a alienação geral, querem ainda nos convencer, por meio desse projeto que as escolas e universidades tem partido. Na realidade o medo deles é o de que passemos a refletir, pensar e chegar a conclusões por raciocínio e isso não é a mesma coisa que atividade partidária em escola. Triste é ver gente inteligente confundindo conhecimento das diferentes linhas do pensamento filosófico com doutrinação comunista. Pasmem, mas nem os Estados Unidos da América tem mais esse medinho dos comunistas. Acredito que por lá, até o plano Marshal está em queda, dada a reaproximação com Cuba.

Sou daqueles que creem que realmente houve golpe e do mais covarde, mas não golpe no sentido jurídico de suspensão da ordem constitucional até porque os ratos fazem a ordem constitucional, mas tenho sérias dúvidas se esse golpe foi realmente contra a Dilma ou contra o povo. De qualquer forma o PT, ao se misturar com o PMDB, contrariando sua tradição, assumiu se voltar para a direita e abriu caminho para o caos. A lição é dura: num país em que os mais poderosos vivem a nostalgia da época dos coronéis, e não poupam esforços para continuarem no controle, não é possível um presidencialismo de coalizão. Tenho dúvidas se também é possível existir aqui uma direita coerente, que defenda seu ponto de vista, mas para chegar a um denominador comum que é o bem estar da nação e não apenas da sua classe. Quando pensamos em golpe devemos pensar no sentido comum de estratégias, técnicas e artimanhas para se derrubar o oponente. Não se trata de defender a presidente mas acabamos trocando a pseudo esquerda burra do PT pela direita canibal do PMDB. Ainda falando das peripécias de nossa esquerda burra, recentemente soube que o PDT também conchavou com o PMDB numa aliança no Rio de Janeiro. Como o PT, o PDT também perdeu a linha, a ideologia e a vergonha ao conchavar com o partido do excelentíssimo-interino-temporário-provisório-descartável-detestável. Esqueceu que este é o partido do Moreira Franco, o exterminador de direitos e CIEPs e do Eduardo Cunha que nem precisa de comentários. Espero que hoje o povo esteja mais esperto e percebam essas contradições, pois sentem na pele o que é conchavar com o demônio. O PT mostrou isso para a gente, e sabemos como terminou.

Ainda fico chocado quando percebo que existem defensores da atual situação que não conseguem enxergar os milhões de pessoas que escapam a tese da “buena vida” vivida por eles, pessoas de classe média estáveis em suas casas próprias, com filhos estudando nas melhores escolas, sem ter que se preocupar com a fome. A esquerda burra brasileira é digna de todas as críticas que devemos lhe endereçar, mas uma coisa é certa: para o atual governo e seus defensores, adeptos do pensamento neoliberal, não existem necessitados, esquecidos, excluídos, aleijados, famintos, credores da caridade alheia e pobres ou miseráveis, é só o mercado que importa, o lucro, e eu me recuso a compartilhar de uma ideia dominante que não leve em conta valores como solidariedade, equidade e valorização do ser humano: não se vê esse discurso nas falas dos defensores do atual governo. Nesse ponto, a esquerda pelo menos tenta.

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Talvez a gente recupere o animo para lutar quando não tiver mais 13º salário, confiscarem sem devolução nosso FGTS, acabarem com a previdência social, sucatearem a educação básica e o ensino médio, extinguirem o ensino público universitário e gratuito para todos, nos imporem jornada de 80 horas, acabarem com o estado laico e com as religiões afro-brasileiras, não tiver mais SUS, acabarem com a aposentadoria pois como o regime de 80 horas ninguém vai chegar aos 70 anos e o povo tenha que se sujeitar a isso para ter um salário que não compra nem cesta básica. Sem falar que as redes sociais serão censuradas para que não se fale mal de políticos. Assim eu e você poderemos ser presos por causa desse artigo. Esse projeto, é uma gentileza do Eduardo Cunha que continua mandando e desmandando. Não se trata de ser alarmista, é só olhar a pauta de projetos que vão à votação com esse congresso que deixamos que se elegesse.

Precisamos deixar que a letargia continue nos controlando. Precisamos parar de achar que as coisas se resolvem sozinhas depois da cerveja. Precisamos somar dois mais dois e ver que a conta não fecha pois com a soma dos acontecimentos do presente, o resultado não será bom no futuro. Precisamos ver notícias que estão circulando abertamente ou nas fontes sérias das redes sociais e nos encher de indignação para se perguntar: onde foi que colaborei para isso e como posso ajudar a reverter?


Alberto Coutinho

Além de marido apaixonado e pai coruja, sou ser indomável e pertinaz perseguidor da verdade que está no horizonte feito utopia. A cada aproximação conheço melhor o mundo, as pessoas e a mim mesmo, mas nunca a possuirei plenamente..
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