utópica verdade

Entre o sonhar e o realizar existe um meio termo

Alberto Coutinho

Além de marido apaixonado e pai coruja, sou ser indomável e pertinaz perseguidor da verdade que está no horizonte feito utopia. A cada aproximação conheço melhor o mundo, as pessoas e a mim mesmo, mas nunca a possuirei plenamente.

As duas faces de Jesus

Desde que se tornou popular, a mensagem de Jesus se mostra controversa e mesmo adulterada, se faz presente nos dias de hoje. No decorrer dos séculos essa mesma mensagem, aparentemente idônea, possibilitou o derramamento de sangue em cruzadas, guerras, santo ofícios e perseguições a membros de outras religiões. Porque a contradição presente nas palavras atribuídas a Jesus permitiu os excessos que acontecem até hoje?


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Desde que se tornou popular, a figura de Jesus se mostra controversa enchendo de fascínio pela mensagem que venceu os séculos e mesmo adulterada, se faz presente nos dias de hoje. A sua história, que oscila entre o mito e o real é alvo de acalorados debates e teorias que campeiam a filosofia, astronomia, antropologia e a arqueologia. Com isso, a tradição cristã é marcada por pontos escuros e dicotômicos que por um lado, exorta a humanidade a um comportamento mais solidário, mais tolerante e socialmente equilibrado, por outro lado serve de justificativa ao ódio, a intolerância e a violência. Se uma minoria dos cristãos entende e prática seus ensinamentos buscando aperfeiçoar as virtudes sem atalhos tendo a caridade como bandeira, a imensa maioria se faz de credor exigente (deus é fiel!?) das recompensas nessa e noutra vida, adotando um comportamento egoísta em ralação àqueles que não se alinham com suas interpretações do cristianismo. Fazem de sua dedicação, não poucas vezes barulhenta, a moeda de troca para uma paz interior, para a prosperidade material ou uma vida eterna. Infelizmente, mesmo entre aqueles que, fazendo parte de uma minoria minimamente coerente, muitos ainda se apresentam preconceituosos em relação a outros cultos, não se preocupando se atos de violência e barbárie são cometidos em nome do seu líder Jesus por aqueles onde o fanatismo fez morada. Um espectador que tivesse contato com a mensagem primitiva de Jesus pela primeira vez, sem os acréscimos e omissões que lhes deram o poder político de cada época e as diferentes interpretações dadas a sua palavra pelas religiões, teria dificuldade de entender a profunda contradição entre o que foi registrado como a palavra de Jesus e o que a maioria dos seus seguidores fazem hoje em seu nome. Ficaria esse espectador surpreso com o nível de violência que se produziu ao longo da história, as mortes, as guerras e o ódio que nasceram de uma mensagem que originalmente seria de paz, tolerância e amor.

O ponto focal desse presente escrito é o questionamento sobre como as palavras de Jesus possibilitaram tanto derramamento de sangue, mesmo sem fazer a menor estímulo ou referência aos seculares atos de violência ou segregação dos quais o cristão da atualidade, caso o compreendesse, se envergonharia. São muitas as passagens sangrentas em que cristãos de todos os tempos que, ignorando a essência das palavras de Jesus foram e ainda são capazes de executar. São incontáveis os atos criminosos e covardes, cometidos em nome de Jesus, que compõe uma verdadeira revogação de um ensinamento basilar de Jesus descrito em Mateus 5:39: “Eu, porém, vos digo: Não resistais ao perverso; mas se alguém te ofender com um tapa na face direita, volta-lhe também a outra”, com reforço em Lucas 6:29: “Ao que te bate numa face, oferece-lhe igualmente a outra; e, ao que tirar a tua capa, não o impeças de tirar-te também a túnica”.

Para entender essa contradição presente nas palavras atribuídas a Jesus e que permitiu todos os excessos, necessário se faz entender os passos históricos do cristianismo primitivo até os dias de hoje. Apos a crucificação e a perseguição aos cristãos primitivos, onde muito sangue foi derramado, reza a tradição que o imperador Constantino, na noite anterior a uma batalha sonhou com a cruz de Jesus. Com isso ordenou que os escudos dos soldados, que lutariam na batalha da Ponte Mílvia (312 dc), que ocorreria no dia seguinte, fossem pintados com o ignominioso símbolo. A batalha foi vencida por Constantino que atribuiu sua vitória ao deus cristão. Não podemos deixar de notar nesse episódio de Constantino que, ao contrário dos fatos anteriores, como a perseguição aos cristãos com a respectiva morte no circo romano, a imagem de Jesus nunca tinha sido utilizada de forma tão direta para justificar um derramamento de sangue numa guerra. Muito embora exista controvérsia a respeito desse fato, o que a tradição registrou é que o imperador Constantino se tornou o primeiro imperador cristão sendo bem mais tarde sob a administração do imperador Teodósio (380 dc) que oficialmente o Cristianismo se transformaria na única “Religião de Estado romano”.

A própria adoção da cruz por como símbolo do cristianismo, independente do valor subjetivo que os cristãos dão e ela hoje, já denota uma séria subversão das palavras de Jesus. O símbolo em questão era uma perfeita máquina de matar, utilizada pelos romanos para punição de criminosos. Um eficiente instrumento de tortura e execução, que infringia terrível dor a todos que fossem condenados a esse suplício com direito a um longo sofrimento antes que a morte chegasse. Percebe-se assim que a inspiração de Constantino em alterar, talvez até por desconhecimento, as palavras de Jesus para justificar seus interesses políticos e econômicos se encontra presente através dos séculos e nas diferentes correntes cristãs de hoje.

Nessa estrada de violência cristã, no ano de 389 Santo Teófilo, após ser nomeado patriarca de Alexandria, inicia uma violenta perseguição aos não-cristãos. Entre seus feitos estão a destruição dos templos de Mitríade e de Dionísio, destruição do templo de Serapis e da sua biblioteca, além de perseguir os próprios cristãos quando estes não concordavam com seus métodos e interpretações das palavras de Jesus. A loucura de Teófilo chega a tal ponto que ele comanda pessoalmente as tropas contra mosteiros que aderiram às ideias do teólogo cristão Orígeno, declarado herege porque afirmava que deus era puramente imaterial. Em seguida, no ano de 412, Santo Cirilo, bispo de Alexandria, estimula os sentimentos antissemitas entre os cristãos da cidade. Liderando os cristãos, incendeia as sinagogas da cidade exortando-os a roubarem os bens dos judeus. Os feitos de Santo Cirilo não param por ai. Em 415, uma multidão de monges cristãos, incitados por Cirilo assassinam Hepatia, a última grande matemática da Escola de Alexandria, que, segundo ele, representava uma ameaça para a difusão do cristianismo pela sua defesa da Ciência e do Neoplatonismo. Não precisamos comentar que esse sentimento misógino pelo fato de ela ser uma mulher encontra grande paralelismo nos dias de hoje. Cirilo foi canonizado e promovido a “Doutor da Igreja”, em 1882.

Não é nosso objetivo entrar em detalhes históricos mas apenas pontuar os fatos que assinalam a violência patrocinada pelos adeptos do cristianismo através da história. Ao nosso ver, são fatos muito pouco revistos e refletidos pelos cristãos da modernidade dando margens para que grupos de fanáticos nos dias de hoje ainda espalhem ignorância e dor em nome de Jesus. Assim, não podemos deixar de mencionar as Cruzadas. Esse movimento de motivações duvidosas foi talvez o maior exemplo de como a palavra de Jesus se converteu em mera desculpa para a guerra contra povos que não se alinhassem com os interesses materiais do ocidente. Essa justificativa religiosa de libertar a terra santa do domínio do Islã já seria por si só motivo de vergonha para os cristãos de qualquer época. Como a história registrou, as verdadeiras motivações iam desde controle populacional, pois se enviava à guerra aquela parte da população europeia considerada descartável até a cobiça pelas riquezas do oriente, fazendo desse movimento não somente um movimento pseudo religioso, mas econômico, militar e político. Do legado econômico das cruzadas, emergiram chagas bem conhecidas atualmente. A intolerância religiosa presente nos atos de terrorismo, o sonho muçulmano de promoção de um Estado Islâmico ou Califado, tem suas origens de ódio nessa época. Mesmo havendo situações em que cristãos também fossem perseguidos, a perseguição propalada por estes contra judeus, muçulmanos e as religiões consideradas pagãs sempre foi mais acirrada e violenta ultrapassando o entendimento religioso e inferindo no domínio dos interesses econômicos e políticos.

Em mais uma página sangrenta promovida em nome da fé cristã temos A Guerra dos Trinta Anos - entre 1618 e 1648. A Reforma Protestante deu um novo requisito para justificar as diferenças entre os diferentes reinos europeus. Os diversos governares das monarquias europeias, como forma de justificar seu poder, reivindicavam para si o monopólio do poder espiritual como forma de assegurar o direito divino dos reis. A Europa estava dividida e nesse contexto, o imperador Rodolfo II empreendeu uma vigorosa perseguição ao protestantismo promovendo a destruição de igrejas e ofertando leis que reforçavam o poder católico na região. Como resposta os príncipes protestantes criaram a Liga Evangélica do lado protestante e da parte dos governantes católicos foi criada a Liga Sagrada. O episódio marcante desses conflitos e que deu início a Guerra dos Trinta Anos aconteceu quando protestantes invadiram o palácio real em 23 de maio de 1618, e atiraram os defensores do rei católico pela janela do segundo andar, episódio conhecido como a “Defenestração de Praga”.

Ainda lutando pelo monopólio da divindade, instituições religiosas foram criadas para que o cristianismo conseguisse se firmar segundo os interesses duvidosos e ambição desmedida de poderosos. Assim, nasce no século XII Santo Ofício ou Inquisição. Trata-se de um rigoroso sistema judicial da Igreja Católica Romana, cujo objetivo é combater o que convencionou-se como heresia. Com a soma de mais de um milhão de pessoas entre hereges, judeus, muçulmanos e os considerados bruxos executados sem direito a um julgamento justo, num sistema inquisitorial que ia rapidamente da acusação para a execução. Como registrado pela história os suspeitos denunciados eram interrogados e torturados por horas e não poucas vezes o nome de um inimigo da nobreza ou da igreja figuravam em denúncias anônimas. Para chegar a confissão a tecnologia de tortura desenvolveu instrumentos considerados eficientes pela dor e sofrimento que causavam como: a dama de ferro, tortura com água, burro espanhol, a serra, a pera, a mesa de evisceração, arranca seios, a roda do despedaçamento (pelo peso emocional que representam, me furtarei a oferecer uma maior descrição ou ilustração desses instrumentos deixando que cada um se sinta à vontade para buscar maiores informações).

Tal prática de tão eficiente para impor o cristianismo como religião dominante não foi privilégio apenas dos católicos, pois os protestantes também tiveram sua versão do Santo Ofício. O próprio líder protestante Martinho Lutero (1483-1546) promoveu perseguições contra aqueles que não aceitavam determinadas regras da Igreja Evangélica. Seguindo as trilhas da Inquisição Católica, os protestantes promoveram perseguições, expulsão, encarceramento, tortura e a execução de milhares de pessoas. Lutero também divulgou textos com críticas aos judeus que, acredita-se, foram utilizados pela Alemanha nazista, em pleno século XX.

Em Genebra, João Calvino (1509-1564) criou uma verdadeira polícia da fé, promovendo confissões, aceitando denúncias, promovendo espionagens e incursões a residências, levando muitas pessoas à prisão, tortura, julgamento e execução. Entre as medidas adotadas estavam a proibição das artes com dança e teatro. A perseguição a pensadores e filósofos também foi uma marca da inquisição protestante. Miguel Servet Griza um filósofo aragonês, humanista, estudante de diversos campos da ciência como astronomia, meteorologia, geografia, jurisprudência, matemática, anatomia, estudos bíblicos e medicina foi preso em Genebra, onde foi processado pelo Conselho presidido pelo próprio Calvino e queimado por causa de proposições vistas como antibíblicas e heréticas, entre outras acusações. A inquisição protestante se confunde com a católica em diversos pontos entre eles a caça às bruxas que na Inglaterra levou à morte centenas de mulheres acusadas de feitiçaria. Na América do Norte, o episódio mais famoso é o das “bruxas de Salem”, ocorrido em Massachusetts, em fins do século XVII, em que várias adolescentes foram mortas, acusadas de promover reuniões em torno de uma fogueira e invocar espíritos.

Como eco interminável desse passado de católicos contra protestantes e os dois contra todas as religiões do planeta, o conflito na Irlanda do Norte ainda jaez bem vivo na memória de nosso tempo. O conflito foi protagonizado por grupos armados dos dois lados, como o Exército Republicano Irlandês (o IRA, católico e pró-independência) e os movimentos unionistas (protestantes e pró-Inglaterra). Foi configurado por uma combinação de fatores étnicos, políticos, econômicos, religiosos e sociais que surgiram ainda na Idade Média. Após muitas tentativas de se anexar a Irlanda de religião católica ao território britânico, no século XVII milhares de britânicos de religião protestante passaram a se transferir para lá afetando a economia da ilha e criando graves divisões sociais. Muito embora o conflito irlandês tenha nitidamente um viés político é inevitável perceber que a vertente religiosa também foi uma poderosa motivação. Duas correntes religiosas que deveriam se unir em função de sua origem comum e assim superar as diferenças políticas e econômicas, ganhou feições de um conflito genuinamente religioso, como ficou conhecido mundialmente.

Atualmente, os cristãos repousam num berço de aparente tranquilidade sem que o passado lhes assombre. Ao contrário dos alemães que se sentem desconfortáveis e muitas vezes envergonhados pelo passado ligado ao nazismo, os cristãos preferem a ignorância e a alienação. O fardo de um passado ignominioso não lhes assombra nem os enche de vergonha. Felizmente, contra as evidências históricas não há recurso. Esse desvio de consciência talvez se deva a ênfase que a mídia credita a onda de violência promovida pelos muçulmanos fanáticos que, assim como os cristãos do passado e do presente, interpretam as suas escrituras de acordo com suas paixões para justificar os desmandos. Por falta dessa reflexão sobre o passado é que cada vez mais percebemos vertentes do cristianismo que se aventuram em excessos como apedrejamentos e ateamento de fogo contra seguidores das religiões ancestrais africanas, desrespeito a imagens sagradas da liturgia católica e a velha prática da adulteração da palavra de paz, amor e perdão de Jesus pelo incentivo justificado a violência. Tudo isso incentivado por lideres que enfatizam a conquista de favores da divindade pela dedicação cega e equivocada baseada naquilo que é interpretado das escrituras por esses lideres mal intencionados. As narrativas religiosas, segundo a interpretação desses lideres, trazem recompensas como o paraíso ou a prosperidade material, que nutrem o imaginário dos incautos que se lançam a frenéticas atitudes para agradar a esse deus fiel doador de recompensas para quem lhe faça as vontades por meio da adulação inquestionável. O que essas religiões esquecem ou não querem mencionar é que a verdadeira via para a conquista da paz interior, da prosperidade e do amor entre todas as criaturas não passa necessariamente pelo imaginário da fé, mas por ações positivas endereçadas a todos e sem querer nada em troca, pois até o desejo da simples conversão de alguém a religião que se professa já manifesta o traço da personalidade egoísta que prefere ficar alheio a advertência contida em Mateus 6:3: “Mas, quando tu deres esmola, não saiba a tua mão esquerda o que faz a tua direita”.


Alberto Coutinho

Além de marido apaixonado e pai coruja, sou ser indomável e pertinaz perseguidor da verdade que está no horizonte feito utopia. A cada aproximação conheço melhor o mundo, as pessoas e a mim mesmo, mas nunca a possuirei plenamente..
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