utópica verdade

Entre o sonhar e o realizar existe um meio termo

Alberto Coutinho

Além de marido apaixonado e pai coruja, sou ser indomável e pertinaz perseguidor da verdade que está no horizonte feito utopia. A cada aproximação conheço melhor o mundo, as pessoas e a mim mesmo, mas nunca a possuirei plenamente.

O ônus da violência no controle social de classes

Quando o equilíbrio entre as classes sociais se perde e os meios de controle convencionais falham, a resposta é sempre a violência. Historicamente podemos aferir que o uso da força, justificada pela lei ou não, sempre foi o recurso de classes que querem manter sua hegemonia sobre outras consideradas inferiores e subalternas.


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Historicamente podemos aferir que o uso da violência, justificada ou não, sempre foi a arma de classes que querem manter sua hegemonia sobre outras consideradas inferiores. Na América Latina a bem pouco tempo que as instituições de ensino se abriram para a realidade da violência cometida pelos colonizadores euro-cristãos contra os Maias, Astecas e Incas. No Brasil, os índios que não aceitavam o julgo do dominador, além de serem classificados de selvagens primitivos, eram caçados e mortos. Quando poupados da morte eram obrigados a abrir mão de sua cultura e religiosidade ferindo-lhes não o corpo, mas a alma condenando-os a uma morte lenta e cruel. Recentemente, além de serem obrigados a abrir mão de sua religiosidade, substituindo-a pela religião de seu algoz, os africanos escravizados que se rebelavam, caso capturados, sofriam castigos inomináveis. No regime militar, a simples insatisfação significava risco de vida e ainda hoje contamos os desaparecidos que ousaram se insurgir.

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Em todas as épocas da humanidade a violência foi utilizada para manter ou tomar a hegemonia de uma classe contra outra. A Revolução Francesa é o exemplo mais marcante dessa característica humana, quando uma classe antes oprimida, ao tomar o poder, se reveste da mesma arma utilizada contra ela durante séculos. Hodiernamente a tendência é a mesma: defender sua posição a qualquer custo, mesmo em vidas. A única diferença que podemos claramente notar no "modus operandi" é o uso da tecnologia para reprimir as classes “revoltadas” e insatisfeitas com os rumos de sua sociedade. Muito embora diferentes dos mosquetes, ferros em brasa e guilhotinas em função do impacto global que o uso da violência causa, sempre existem relatos de excessos e mortes cometidas em função desse controle.

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No Brasil, os casos aumentam a cada ano sinalizando também um alto investimento nessa técnica de controle social. Poucos dias depois de a tropa de choque lançar bombas de gás lacrimogêneo e efeito moral contra servidores que protestavam contra a votação do pacote de austeridade na Assembleia Legislativa, o Governo do Rio de Janeiro gastou quase R$ 1 milhão em armamento não letal. O governo gaúcho cita 11 tipos de armas não letais distintas que são utilizadas nos protestos pela BM. Os preços das armas variam entre R$ 25,88 – o preço unitário das balas de borracha – a R$ 508,43 – o valor de um aerossol de spray de pimenta, com 450 gramas. O gás lacrimogêneo, a arma mais comum de uso nos protestos recentes, aparece na lista com cinco tipos diferentes de produtos: dois em forma de projéteis e três de granadas. Os projéteis “com carga múltipla de emissão lacrimogênea”, tem custo entre R$ 254,76 e R$ 294,38. Já as granadas variam entre R$ 240,57 (granada tríplice), R$ 342,84 (tríplice hyper) e R$ 377,12 (granada “bailarina”, de movimentos aleatórios, que libera gás em múltiplas direções). A lista inclui ainda, entre seus itens, granada explosiva de efeito moral (R$214,10) e granada explosiva de luz e som, com duplos estágios (R$ 302,87).

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Mas o Brasil e a América latina não são os únicos a terem conflitos assim. Para citar alguns exemplos, em fevereiro desse ano uma manifestação contra a violência policial provocou em Paris confrontos com as forças de segurança e o fechamento de 16 colégios, após a detenção de um jovem negro de 22 anos, que sofreu grave violência com uso um cassetete. O caso desencadeou várias noites de violência em Paris e suas cidades vizinhas. Ainda na Europa, recentemente, a cidade de Florença foi palco de violento confronto entre policiais e manifestantes contrários ao ex primeiro-ministro italiano, Matteo Renzi, e ao referendo sobre sua reforma constitucional, que seria votado na época.

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Não bastasse os fatos históricos e atuais banhados em sangue de nosso passado que deveriam encher e vergonha os que compartilham da denominação de humanos, ainda hoje acontecem atos de violência, muitos com verniz de legalidade, que desafiam os conceitos de humanidade. Em todas as partes do globo eclodem os conflitos de classes. De um lado aqueles que não querem perder os privilégios apoiados por quem sonha em ter os mesmos privilégios e de outro, os que são mantenedores desses privilégios que, conforme a previsão de Karl Marx, constituem a base da pirâmide social que sustenta as classes superiores.

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Ainda conforme a teoria marxista, o peso que jaez sobre a base se torna a cada ano mais insuportável o que pode levá-la a um perigoso clima de insatisfação e revolta. Tal clima de revolta, graças a grande capacidade de adaptação das classes superiores, contrariando a teoria marxista, vem sendo adiada por tempo indeterminado. Isso se deve as diversas inovações que mantem a base da pirâmide quieta, passiva e sob controle sem necessidade do uso da violência que só é utilizada como "Ultima Ratio". Dentre esses recursos podemos citar o uso da religião que vende a ilusão de uma recompensa futura e a felicidade de se estar agradando ao que seria “o ser mais superior do universo”, aceitando o destino que lhe é dado por vontade desse deus sem se revoltar ou reclamar.

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Outro recurso usado para se manter a base sob controle são as constantes manipulações da mídia que vende expectativas e respostas facilmente absorvidas pelos espectadores, leitores, internautas e ouvintes. O que em outras épocas foi ferramenta de mudanças e divulgação de fatos de forma imparcial se transformou em poderosa arma de manipulação das massas que, enquanto os que estão no topo da pirâmide riem de sua ingenuidade.

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Além da religião e da mídia se apresentarem como formas pacíficas e eficientes de controle social, aqueles do topo da pirâmide, concluem o cerco de defesa à sua hegemonia se posicionando na política. Para isso se valem dos já conhecidos recursos da mídia para, com muito dinheiro, contratarem as melhores técnicas de publicidade e propaganda que anulam o livre arbítrio do eleitor que acredita, sem se preocupar em averiguar, nas mentiras por traz das mensagens e pesquisas divulgadas. Ao serem eleitos, caçam conquistas pretéritas de governos mais progressistas, mudam leis em seu favor, perdoam seus próprios crimes e tratam de garantir sua hegemonia sem perceber que os que estão na base vergam sob o peso que lhes é imposto. Dessa forma, o cidadão comum, trabalhador sem maiores conhecimentos, não grita mais do gol de seu time no campeonato brasileiro e nem louva a deus quando dá o seu dízimo, pois já sente que o básico lhe falta, não consegue emprego e os caminhos de ascensão social pela via da educação superior estão sendo bloqueados. Como se não bastasse isso, estes, geração após geração sofrem a violência disfarçada que vem do alto da pirâmide, até virem a morrer nas filas do SUS, em empregos mal renumerados, nos antros de trabalho escravo, nas chacinas que afetam moradores de favelas, negros e indígenas, de balas perdidas ou nas encostas e enchentes nas épocas de chuvas.

Eventual e esporadicamente essa base de trabalhadores, antigamente chamados proletários, se conscientizam do estado de coisas que se instalou e resolve se rebelar contra todos esses séculos de violência e desrespeito aos seus direitos. São tachados de terroristas, milicianos, baderneiros e acusados de não respeitar direitos como o de ir e vir. É nessa hora que a religião não convence, cai a máscara da mídia e quem está no topo da pirâmide mostra sua face mais real que é o da violência policial contra aqueles a quem exploram. As polícias em várias partes do mundo protagonizam espetáculos onde a covardia é a única palavra para definir seus atos diante de pessoas pacíficas que só desejam melhorar de vida. É a lógica do medo de quem tem privilégios e teme a ascensão de quem sustenta sua prosperidade.

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Com isso, os atos de violência urbana da força policial que se coloca contra o povo na defesa de um estado de coisas que beneficia somente as classes superiores são cada vez mais constantes em diversas partes do mundo. Nesse contexto, a segurança do cidadão virou coisa secundária frente a manutenção e defesa da hegemonia daqueles que ocupam o topo da pirâmide social. É apenas por isso que a polícia existe.


Alberto Coutinho

Além de marido apaixonado e pai coruja, sou ser indomável e pertinaz perseguidor da verdade que está no horizonte feito utopia. A cada aproximação conheço melhor o mundo, as pessoas e a mim mesmo, mas nunca a possuirei plenamente..
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