utópica verdade

Entre o sonhar e o realizar existe um meio termo

Alberto Coutinho

Além de marido apaixonado e pai coruja, sou ser indomável e pertinaz perseguidor da verdade que está no horizonte feito utopia. A cada aproximação conheço melhor o mundo, as pessoas e a mim mesmo, mas nunca a possuirei plenamente.

Para entender a intolerância religiosa

Num breve exercício de história, perceberemos que o cristianismo, ao longo dos séculos de sua existência, foi incapaz de deixar a sociedade melhor. O que vem a tona ao compulsarmos as páginas pregressas dessa religião é sempre o sangue derramado por guerras, cruzadas, inquisição e atualmente no Brasil, a violência contra seguidores do Candomblé, Umbanda, Espiritismo e Islamismo entre outras.


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Ao longo dos séculos acumulam-se no mundo inteiro atos declarados de ódio e intolerância proveniente das relações entre religiões. Num breve exercício de história, perceberemos que as contribuições do cristianismo para o progresso da sociedade quase inexistem e o que vem à memória são Cruzadas, Inquisição, atrasos e retrocessos científicos, escravidão de negros e índios, guerras de protestantes contra católicos e hoje em dia, a intolerância religiosa de sempre se renovando contra pessoas simples. Tais atos, configuram verdadeiros atentados aos direitos humanos quando em seu bojo trazem materializados a violência declarada e o ódio disfarçado de doutrina religiosa contra aqueles que professam fé diferente da sua. Essas atitudes, originalmente isoladas, acabam culminando em guerras, terrorismo, violência contra mulheres, crianças e LGBTs, entre outras formas de manifestação do ódio e da intolerância que frequentemente ganham as manchetes dos jornais. Muitos desses exemplos vemos aqui no Brasil que, apesar da fama de ser um pais com um povo solidário, ainda é comum ver nos jornais notícias sobre depredações de templos dedicados aos cultos de religiões de origem africana, ataques violentos contra a integridade física de candomblecistas, muçulmanos que ousam manifestar sua religiosidade através de seus trajes, colares, turbantes etc. A propagação desse ódio chega ao extremo de se manifestar além do culto nas igrejas, chegando até nos meios de comunicação, onde essas agremiações religiosas que possuem concessão de redes de rádio e televisão estimulam o desprezo, o ódio e a violência pelo que é diferente daquilo que acreditam. Todas essas situações inaceitáveis são interpretadas e encaradas como ensinamentos religiosos praticados em nome de um deus que graças a uma sofistica elaborada e interpretações particularizadas da bíblia ganham feições de atitudes corretas capazes de atrair a simpatia da divindade. De qualquer forma, único fato mensurável é que, por onde passam, deixam um rastro da ignorância que leva a violência.

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A ilusão de superioridade incutida habilmente na mente desses seguidores se origina na interpretação equivocada das escrituras que são ensinadas como “verdades inquestionáveis”. Essas interpretações, muitas vezes forçadas, são elaboradas nas muitas instituições religiosas da atualidade, que na busca de um poder político, financeiro e meramente material, convencem seus membros a não pensar, evitando fazer reflexões que poderiam pôr em cheque esse esquema e criar precedentes para questionamentos mais profundos indo além do que eles convencionaram como certo. Segue daí que milhões de seguidores são induzidos e condicionados a encarar dogmas absurdos com naturalidade, seja por ambição, ignorância, medo, ou por não terem o devido discernimento, pois o alvo dessas agremiações são sempre pessoas humildes. Nesse conjunto está formado um campo fértil a manipulação da esperança dessas massas que são facilmente iludidas pelas promessas de prosperidade material, resoluções mágicas para crises afetivas ou familiares, pelo medo da morte onde a promessa de uma vida eterna e sem esforços camuflam os propósitos escusos de determinados líderes. Fenômenos como os talibãs (no Oriente Médio) e bancada evangélica (congresso nacional no Brasil) são muito semelhantes, pois conseguem manter o poder através da manipulação das massas pela religião e pelo terror provocado pela violência sutilmente estimulada nos episódios já citados.

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O debate sobre religião virou tabu. A pré-disposição dos líderes e seguidores dessas religiões em promover polêmicas e semear discórdia afasta qualquer possibilidade de um debate construtivo sobre o assunto, originando a conhecida frase “religião não se discute”. Todos os argumentos radicais que essas pessoas apresentam provem de raciocínios hábeis, porém, ao exame sob a luz da lógica e da razão, se apresentam superficiais. São palavras originadas em passagens bíblicas bem memorizadas, porem manipuladas para servirem a esses interesses. São verdadeiros sofismas que ajudam a materializar uma crescente onda de fanatismo. Guardadas as devidas proporções a motivação é sempre a mesma: “minha religião está mais certa que a sua e meu entendimento da escritura é o melhor, por isso, estaremos dispostos a quebrar, humilhar, violentar e a matar para provar que estamos certos”. Na ausência de uma argumentação lógica a primeira arma que utilizam são os gritos em pregações apaixonadas para logo depois partirem para a violência física e depredação de patrimônios. Embora tais atitudes busquem eco na interpretação tendenciosa dos livros sagrados, que na maioria das vezes levam o seguidor desesperado a não utilização da razão, levando-o ao esquecimento da educação, das regras de convivência, e o desrespeito à lei penal. Ao se questionar muitos destes sobre sua fé no amanhã, no paraíso ou no arrebatamento percebemos uma resposta exageradamente enfática que não transmite ao interlocutor a tranquilidade d´alma proveniente de uma consciência liberta que não precisa gritar, agredir ou apedrejar para cumprir seu objetivo.

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Muito embora a arqueologia, junto com outras ciências, tenha provado que os escritos ditos sagrados foram grafados por homens, obedecendo aos ditames de sua época e com necessidades muito específicas. Ao creditarem a um ser divino a autoria desses escritos obteria eles a credibilidade necessária para governarem ou manterem um controle social necessário na época. Atualmente, as incertezas diante da vida e a incapacidade de os governos proverem dignamente seus povos levam milhares de pessoas a esse tipo de fanatismo onde depositam, quando pouco, as suas esperanças. Segue daí a sempre usada justificativa: se deus é superior não pode ser questionado. Tal crença constitui uma afronta a razão, pois, pensando assim, ignoram todas as alterações, erros de tradução, acréscimos feitos de boa e de má fé por esses líderes políticos e religiosos de todos os tempos. Embora muito respeitável e com valor histórico inquestionável, os livros sagrados dessas religiões, provem de culturas muito antigas que diferem da realidade de hoje.

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Outro fator preponderante para essa postura violenta é o apego enraizado aos “dogmas inquestionáveis”. Muitos desses dogmas, quando observados sob uma ótica filosófica e cientifica esbarram nos obstáculos opostos pela razão criando uma multidão de ateus. Além disso, tal apego sugere a existência de um personalismo onde o verdadeiro culto não é dirigido a algo superior e transcendente, mas sim a vaidade de cada um em possuir a melhor interpretação ou a interpretação que atraia mais fiéis. Assim a busca do que é bom, o encorajamento a prática do bem, o exercício da tolerância e o culto ao amor incondicional, que configura algumas das máximas do cristianismo ficam esquecidas e em alguns casos até desestimuladas. Enquanto isso, a religião, como fenômeno social está deixando de cumprir seu papel de apaziguadora da sociedade, estimuladora da moral transformadora e orientadora dos homens rumo ao bem comum em escala planetária.

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Dessa forma, a sociedade moderna tem nas religiões cristãs não mais uma forma de se religar ao seu criador, encontrando conforto para a inexorabilidade da morte ou de se inspirar para a pratica do bem, mas sim um jeito de se conseguir a prosperidade material através de rituais que envolvem, adorações, orações repetitivas e longas proferidas aos gritos, batismos, unções, dízimos, cânticos e louvores. Tudo criado ou convencionado para se entrar nas graças de um ser poderoso. Contraditoriamente tais rituais muitas vezes foram adaptados de rituais de outras religiões numa religiofagia desproporcional cujo maior objetivo seria atrair os adeptos daquela religião.

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Atualmente, vemos cada vez mais religiosos desfocados das virtudes assinaladas nos livros sagrados, pois buscam barganhar, por meio da adoração barulhenta, e da violência contra quem não pensa da mesma forma, sua prosperidade material com esse deus. Para estes as promessas de paraíso, de vida espiritual ou de arrebatamento são apenas um bônus a mais que pode ser conquistado com atitudes externas e rituais para “lavar o pecado” com o sangue de um inocente executado a aproximadamente dois mil anos atrás. Sendo assim, esses rituais externos são incapazes de provocar uma reflexão sobre o nosso papel nessa sociedade tão carente de virtudes. Infelizmente, só resta aos cristãos da atualidade, a atitude egoísta de querer viver para sempre salvando a alma do castigo infernal em detrimento de fazer a coisa certa não só para si nem para um suposto deus mas para uma sociedade que carece de atitudes positivas desinteressadas e conscientes.


Alberto Coutinho

Além de marido apaixonado e pai coruja, sou ser indomável e pertinaz perseguidor da verdade que está no horizonte feito utopia. A cada aproximação conheço melhor o mundo, as pessoas e a mim mesmo, mas nunca a possuirei plenamente..
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