utópica verdade

Entre o sonhar e o realizar existe um meio termo

Alberto Coutinho

Além de marido apaixonado e pai coruja, sou ser indomável e pertinaz perseguidor da verdade que está no horizonte feito utopia. A cada aproximação conheço melhor o mundo, as pessoas e a mim mesmo, mas nunca a possuirei plenamente.

Ainda sobre direita e esquerda

Hoje em dia as definições das ideologias de esquerda e de direita se reinventam e se anulam. Isso se deve hora pela doutrinação midiática persistente e hora pela falta dessa ideologia aos nossos representantes políticos que priorizam aquilo que for mais lucrativo para eles, seja na esquerda ou na direita. Além disso, podemos perceber que a maior causa da nossa sociedade, nos dias de hoje, rejeitar, se confundir e deturpar as definições sobre essas correntes de pensamento é a falta de um debate sério e desapaixonado sobre o tema.


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Historicamente, os termos "esquerda" e "direita" como designações de correntes ideológicas surgiram na Revolução Francesa, de 1789, no Império de Napoleão Bonaparte. Nessa época, designações identificavam quando os membros da Assembleia Nacional eram partidários do rei, sentados à direita do presidente, enquanto os simpatizantes da revolução ficavam à sua esquerda. Segundo o Barão de Gauville, aqueles que eram leais à religião e ao rei (imperador) ficaram sentados à direita do presidente, numa clara analogia a imagem bíblica “Subiu aos céus está sentado à direita de Deus Pai Todo Poderoso”. Posteriormente, quando a Assembleia Nacional foi substituída por uma Assembleia Legislativa, os considerados "Inovadores" sentavam-se do lado esquerdo, os "moderados" reuniram-se no centro, enquanto que os "defensores da consciência da Constituição" encontraram-se sentado à direita Após outros acontecimentos que não trataremos aqui, por volta de 1814-1815, após a Restauração, a maioria de ultra-monarquistas escolheram sentar-se à direita. Os "constitucionais" sentaram-se no centro, enquanto os independentes sentaram-se do lado esquerdo. Assim, mesmo os termos "esquerda" e "direita", sendo originalmente utilizados não para se referir diretamente a uma ideologia política, mas apenas à localização das cadeiras no Legislativo francês pós revolução, carregavam ainda uma identidade que refletia sua preferência por essa ou aquela corrente de pensamento.

A bem pouco tempo, confundia-se a esquerda como oposição ao governo que estava posto, visto que a maioria dos governos que tivemos terem sido de direita, ligados a uma postura conservadora, repressora, vezes populista e análoga aos anseios da maioria da população. Assim, criou-se um paradigma de que os partidos de esquerda representavam a oposição. Fato que mudou quando o PT chegou ao poder fazendo os parlamentares representantes da direita assumirem a oposição. Tais fatos num contexto de históricas crises de identidades ideológicas, contribuirão para criar no povo brasileiro essa dificuldade de entender o papel e a função das ideologias numa sociedade em constante transformação. Dessa forma, quem não busca informações de fontes sérias, acaba ficando a mercê do senso comum, que, alimentado pela imprensa descompromissada, objetiva criar uma legião de cegos seguidores, incapazes de interpretar a realidade além de suas telas. Nos dias de hoje, onde as emoções contaminam os debates e a desinformação da mídia contamina as ideias, fica quase impossível se fazer uma análise mais aprofundada da situação para perceber que a ideologia de esquerda se liga ao ideal socialista de justiça social, valorização dos direitos humanos, melhor divisão das riquezas de um pais e condições dignas para todos enquanto a direita representa todos os valores do mercado, do lucro, da concentração de renda, lucro pela promoção de guerras e destruição da natureza. Até a simples menção da palavra "socialista" já é capaz de causar espasmos de descontrole e raiva em quem nunca se debruçou sobre uma obra do gênero.

Nesse sentido, hoje em dia as definições ideológicas de esquerda e direita se reinventam, se adulteram e se anulam hora pelo senso comum, hora pela doutrinação midiática e persistente. O velho jargão "política não se discute", foi sutilmente substituído pelo linguajar ofensivo e ameaçador chegando por vezes a agressões físicas e assassinatos. Também podemos perceber que uma das causas da nossa sociedade, nos dias de hoje se confundir e deturpar as definições sobre as ideologias de esquerda e de direita, é que a nossa história recente, aliada a uma pesada propaganda, deixou severas máculas na nossa capacidade de discernimento. A definição de esquerda foi estrategicamente destruída e massacrada pela inteligência, recursos, capacidade organizativa e índole dos signatários da direita. Estes, aproveitando a decepção induzida ou não, com o PT, criou no senso comum o equivocado sentimento de que tudo que se refere a esquerda é do mal.

Didaticamente, podemos ilustrar a direita, como a posição política e ideológica em sua maioria de famílias seculares que reúnem banqueiros, fazendeiros do agronegócio, donos de mídias, lideres fundamentalistas e industriais e que concentram mais de 30% da renda do Brasil nas mãos de apenas 1% dos habitantes do país, constituindo a maior concentração do tipo no mundo (fonte https://brasil.elpais.com/brasil/2017/12/13/internacional/1513193348_895757.html). A maior fonte de renda dessas famílias está na exploração do suor do trabalhador e na exploração sem medidas da natureza até a exaustão, como pode ser conferido após uma breve leitura do novo Código Florestal aprovado. Estes se infiltram por diversos partidos, mas estão sempre unidos quando o assunto é votar as reformas que nos tiram os direitos ou aumentarem seus lucros. É só olhar os placares das votações e ver de que lado estes partidos estão. Segue daí que seria incoerente alguém que não é herdeiro de algum dos componentes das famílias acima citadas, figurarem nessas agremiações partidárias que diuturnamente conspiram para se manterem em seu “status quo” criando leis e emendas em benefício próprio.

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Estranho e também ingênuo é crer, como pensam os defensores da meritocracia, que alguns de nós terão acesso a esse topo da pirâmide social somente com esforço e trabalho sem nos organizarmos politicamente destruindo os bloqueios arquitetados desde antes da república. Mesmo assim, percebemos que a cada eleição pessoas das camadas mais pobres se filiam a partidos de direita tentando egoisticamente faturar uma fatia do bolo, acreditando que, caso eleito, a coesão partidária e a pressão do capital vão deixar que ele apoie causas que beneficiem os pobres. Por outro lado, há aqueles que por total ignorância caem nas artimanhas das milionárias propagandas que anulam o livre arbítrio e induzem o voto nos partidos e candidatos que manifestadamente só votam e produzem projetos contra o povo.

A adulteração da identidade de esquerda no Brasil não aconteceu do nada, foi planejada aproveitando a brecha aberta pelo PT, antes um partido de esquerda e hoje mais de centro esquerda, quando falhou na ocupação do congresso nacional e foi constrangido a se unir ao velho chantagista do poder executivo o PMDB. Este partido nunca elege um presidente, mas sempre tem o controle do congresso nacional e por conseguinte, do pais, impondo suas pautas independente do partido que ocupa o poder executivo. É claro que o PT poderia e deveria se recusar a esse conchavo; é claro que poderia e deveria buscar uma união com as esquerdas e, principalmente, é evidente que em meio a chantagem do PMDB deveria ter buscado o apoio das ruas antes que a direita se apoderasse e manipulasse as massas como fez em 2013.

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Mesmo assim, o PT incomodou. A sensação para os signatários da ideologia de direita de se ter um partido de esquerda no executivo, promovendo o fim da miséria, do analfabetismo e pasmem, colocando descendente de escravos, filhos de nordestinos e moradores de favelas para estudarem nas elitistas faculdades públicas, causou um grande desconforto nessa direita que imediatamente traçou a sutil estratégia de tentar garantir que adeptos de uma ideologia de esquerda não chegassem tão alto no poder. Mas se para a classe alta o motivo é o perigo de ascensão social de quem nunca esteve no topo da pirâmide, na classe média manipulável o que reinava era o despeito de dividir espaço com “essa gente pobre”.

Assim, como parte dessa estratégia, os ânimos da classe média falida foram exaltados via exaustiva e massacrante propaganda jornalística que, como fantoches bateram panelas e vestiram a camiseta da CBF afundada na corrupção que eles tanto criticavam. Gerou-se uma indignação exacerbada contra a corrupção. Pequenos deslizes dos políticos de esquerda (tipo pedalinhos e tríplex) ganharam vulto frente a malas de dinheiro e helicópteros com drogas. O bate-estacas midiáticos criou no imaginário popular a ideia de que esquerda é coisa de defensor de bandido, de inimigos da família e os políticos de esquerda seriam os únicos responsáveis pela onipresente corrupção. O mais bizarro dessa brilhante estratégia da direita foi criar termos novos em nossa língua como "lulismo" “petismo”, “antipetismo” e transformar termos como “comunista”, “vermelho”, “esquerdista” e “petista” em ofensas, tal a celeuma causada pela sutil doutrinação contra a ideologia de esquerda. Mas o que é ideologia de esquerda? Sem lançar mãos de pensadores e filósofos de difícil compreensão fora de um ambiente acadêmico, tomo emprestado as simples palavras de Frei Betto, que além da posição lúcida frente à sofrida realidade que a direita nos impõe, também tem uma posição muito crítica frente as posturas da esquerda e seu excesso de academicismo, distanciamento das causas sociais e artificialismo que certamente colaboraram para que a imagem da ideologia de esquerda esteja tão maculada em nosso Brasil:

“Ser de esquerda é, desde que essa classificação surgiu na Revolução Francesa, optar pelos pobres, indignar-se frente à exclusão social, inconformar-se com toda forma de injustiça ou, como dizia Bobbio, considerar aberração a desigualdade social”.

“Ser de direita é tolerar injustiças, considerar os imperativos do mercado acima dos direitos humanos, encarar a pobreza como nódoa incurável, julgar que existem pessoas e povos intrinsecamente superiores a outros”.

“A direita considera a desigualdade social tão natural quanto a diferença entre o dia e a noite. A esquerda encara-a como uma aberração a ser erradicada. ”

“O direitista jamais defende os pobres e, se eventualmente o faz, é para que não percebam quão insensível ele é. Mas nem pensar em vê-lo amigo de desempregados, agricultores sem terra ou crianças de rua. Ele olha os deserdados pelo binóculo de seu preconceito. ”

Essa aversão ao que se refere a ideologia de esquerda, muito embora pareça mais acirrada no Brasil nos dias de hoje, vem de longa data. Remonta à Segunda Guerra Mundial quando a eficaz propaganda nazista, temendo a antiga URSS, fomentou o ódio ao comunismo. Diante da posterior polarização do mundo, os Estados Unidos da América, aproveitando o know how e a espertice nazista continuaram difundindo as ideias anti comunistas e anti esquerda pois estas configuravam uma ameaça a sua expansão e contrária a sua ideologia. O maior e primeiro reflexo dessa propaganda aqui no Brasil foi o Golpe de 1964, que, como hoje, pessoas foram às ruas marchando por Deus, pela família e pela liberdade. Hoje, gritando slogans com "vai para Cuba" como se a vida nas terras de Fidel pudesse ser medida pela minguada opinião de poucos exilados ou "aqui não é a Venezuela". Esse perigoso senso comum é orientado apenas pelo que veem na mídia tendenciosa sem se preocupar com a verdade dos fatos.

Com tudo isso, é muito preocupante perceber que existem pessoas que, levadas pela propaganda e por informações rasas, ainda ligam a ideologia de esquerda às ditaduras, ao nazismo e ao extermínio de judeus, a destruição da família e liberação sem critério das drogas e do aborto. Esses argumentos vêm sempre ligados a críticas ao controle e fiscalização do estado contra excessos cometidos pelos donos do capital. Usam sempre como exemplos o que a mídia divulga como o pior de países como Cuba e Venezuela e, pasmem, creem cegamente que Hitler era de esquerda sem nunca terem estudado, além do senso comum, a história.


Alberto Coutinho

Além de marido apaixonado e pai coruja, sou ser indomável e pertinaz perseguidor da verdade que está no horizonte feito utopia. A cada aproximação conheço melhor o mundo, as pessoas e a mim mesmo, mas nunca a possuirei plenamente..
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