utópica verdade

Entre o sonhar e o realizar existe um meio termo

Alberto Coutinho

Além de marido apaixonado e pai coruja, sou ser indomável e pertinaz perseguidor da verdade que está no horizonte feito utopia. A cada aproximação conheço melhor o mundo, as pessoas e a mim mesmo, mas nunca a possuirei plenamente.

A Catedral de Notre-Dame, a Solidariedade e Nós

Numa sociedade em que a vida pode ser mensurada, classificada e desprezada com base nas características étnicas ou financeiras da pessoa, não podemos fingir que está tudo bem, aguardando a próxima tragédia ou o próximo cadáver.


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Partindo do incêndio na catedral de Notre Dame que desencadeou um sentimento de solidariedade pela perda de um monumento histórico, pretende esse texto analisar esse fenômeno que se formou para sua reconstrução e, comparando com fatos ocorridos no Brasil, entender como esse sentimento se manifesta no povo brasileiro, notadamente nos afrodescendentes, problematizando como estes se comportam diante de determinados acontecimentos trágicos no Brasil. No caso da catedral, a solidariedade se manifesta em enormes somas em dinheiro. Ao redor do mundo essa solidariedade soma aproximadamente € 1 bilhão (R$ 4,4 bilhões) doados para a reconstrução da catedral de Notre Dame após incêndio sofrido do dia 15 de abril. Notadamente desse montante, € 20 milhões (R$88 milhões) foram doados pela brasileira. Lily Safra, dona de uma fortuna estimada em US$ 1,3 bilhão (R$ 5,1 bilhões).

Diante desse fato, fica evidente uma característica marcante entre os europeus e seus descendentes ao redor do mundo: são naturalmente corporativistas, brancos e pertencem aos níveis sociais mais abastados. A corrente que se formou ao redor da reconstrução da catedral evidencia que esse corporativismo se substancia em solidariedade em vários momentos cruciais para o velho continente. Eles se defendem, se protegem, se financiam e sempre que um desastre natural, guerras ou outros acontecimentos levam dor e sofrimento a uma parcela da população de pele clara eles se juntam para minimizar os danos. Como podemos ver, no caso da catedral, até quando os símbolos representativos de sua cultura, religião e hegemonia são ameaçados, automaticamente uma corrente de solidariedade é iniciada sem a necessidade de grandes campanhas. De outra forma, o ciclone em Moçambique, o terror do Boko Haram na Nigéria e o terremoto no Haiti não despertou a mesma solidariedade dessa gente.

Essa solidariedade não é tão endêmica, sazonal e nem tão pouco totalmente restrita aos europeus e seus descendentes. Entre os descendentes africanos dos EUA também podemos ver essa solidariedade nata entre os que lá habitam. Frente a violência de autoridades e aos assassinatos de negros pela polícia americana, não são incomuns os atos de solidariedade comunitária entre os afrodescendentes americanos em protestos que normalmente acontecem após os excessos cometidos pela força policial. Ainda são atuais as imagens de um desses protestos ocorrido em Los Angeles quando da absolvição dos policiais que espancaram o taxista negro Rodney King em 1992. Conhecido como os distúrbios de Los Angeles, esse protesto levou às ruas milhares de negros insatisfeitos com o tratamento dispensado aos de pele escura pela polícia. Os confrontos duraram três dias com incêndios, saques, depredações e uma onda de revolta que causaram 58 mortes, deixaram mais de 2800 feridos, destruíram 3.100 estabelecimentos comerciais e causaram prejuízos estimados em mais de 1 bilhão de dólares. Como resultado desses protestos, num novo julgamento dois policiais foram condenados sendo outros dois absolvidos e a vítima, Rodney King recebeu uma indenização judicial de 3,8 milhões de dólares pelos danos então sofridos. Não cabe aqui o juízo de valor sobre a proporcionalidade da manifestação, mas sim a onda que surgiu fruto de anos de abusos que fez o povo sair em solidariedade a causa de Rodney King.

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Analisando o Brasil, podemos perceber que infelizmente essa solidariedade, entre os negros brasileiros ainda é embrionária. Mesmo com estatísticas muito superiores as de Los Angeles, contra o povo negro e favelado daqui, quando comparadas percebemos que ainda há uma certa apatia em relação aos atos desproporcionais e covardes cometidos pelo Estado. Considerando apenas os incidentes do município do Rio de Janeiro, o negro brasileiro, salvo algumas raras e nobres exceções de pessoas e grupos dedicados, está muito aquém de estabelecer um nível de solidariedade que nos imponha o verdadeiro sentido de “Ninguém solta a mão de ninguém”. Dessas exceções à regra, não podemos deixar de citar o Luciano Macedo, baleado quando tentava ajudar a família que estava no carro atingido pelos 82 disparos efetuados pelo Exército contra os cinco ocupantes do carro.

Mesmo assim, experimentamos um momento impar em nossa história. Se de um lado a eleição do Jair Messias Bolsonaro deu voz e representatividade a toda espécie de subproduto da extrema direita, a resposta dos movimentos sociais está sendo bem mais intensa se compararmos a alguns anos atrás. A participação na política, mesmo sem conseguir um quantitativo satisfatório de eleitos, foi muito superior a outros pleitos.

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Ainda assim, para o negro brasileiro comum, a dor do próximo não o sensibiliza. Há um sentimento de que não é da sua conta até que tenha sua porta arrebentada pela polícia sob a justificativa inconstitucional do mandado coletivo de busca e apreensão ou quando um parente é alvejado por tiro de fuzil por estar com um guarda-chuva ou furadeira ou ainda levar 80 tiros num carro com sua família. Vários casos, centenas de vítimas, mas com uma coisa em comum: todos de pele escura e pertencentes às camadas mais pobres da população. Deixamos de nos preocupar uns com os outros.

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Uma das formas de se tentar compreender esse fenômeno é pelo prisma da religião. A religião cristã, como foi imposta aos escravizados e ensinada até hoje na maioria das igrejas, ao prometer o paraíso para quem aceitasse seus ritos, deixou de fora desse paraíso, pais, mães, parentes e amigos por não aceitarem ou não participarem dos mesmos ritos. A salvação era individual, não importando o quanto o arrebatado amasse ou se preocupasse com outras pessoas. Assim, cravou nos corações a política do cada um por si que é contrária a solidariedade.

No referido incêndio na catedral de Notre Dame, pessoas se sensibilizam para reconstruir um dos símbolos da outrora supremacia branca eurocristã ao redor do mundo. O mesmo não acontece aqui quando as casas de Candomblé, como os únicos e últimos remanescentes e detentores de nossa herança cultural africana são invadidos, incendiados e apagados de nossa história numa prática eugênica e covarde.

Numa sociedade em que a vida pode ser mensurada, classificada e desprezada com base nas características étnicas ou financeiras da pessoa, não podemos fingir que está tudo bem, aguardando o próximo cadáver. Por isso precisamos além de exigir a responsabilização dos agentes responsáveis por esses atos, lembrar do elo que temos em comum com as vítimas, ou seja, nossa origem, nossa cor.


Alberto Coutinho

Além de marido apaixonado e pai coruja, sou ser indomável e pertinaz perseguidor da verdade que está no horizonte feito utopia. A cada aproximação conheço melhor o mundo, as pessoas e a mim mesmo, mas nunca a possuirei plenamente..
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