utópica verdade

Entre o sonhar e o realizar existe um meio termo

Alberto Coutinho

Além de marido apaixonado e pai coruja, sou ser indomável e pertinaz perseguidor da verdade que está no horizonte feito utopia. A cada aproximação conheço melhor o mundo, as pessoas e a mim mesmo, mas nunca a possuirei plenamente.

Com sangue no olhar - A favela desceu para o asfalto sem ser carnaval*

Faz uns dias que o governador, para agradar seu eleitorado de pessoas ditas do bem, mandou descer chumbo nas favelas. Teve helicóptero, ponto 50, pé na porta e granada. Matou criança, matou idoso, matou bandido, trabalhador e matou minha mãe.


VejaRio_01_05_20.jpg

Minha mãe

Ainda lembro do sermão dela quando falei que ia me juntar ao tráfico. Ela mandou eu estudar, e me matriculou no ensino para jovens. Eu até tentei, mas a escola vivia em greve e ainda tinha aquela diretora puxa saco do prefeito que obrigava a gente a ir na igreja dela. Lembro bem dela mandando de volta para casa uma mina que foi estudar com as guias de candomblé no pescoço: “não quero essa coisa do demônio na minha escola”, disse ela, humilhando a menina que saiu chorando. Não prestou. Eu tomei as dores da garotinha e enfrentei a megera. O resultado é que fui expulso. Com isso, minha mãe ficou irada e me mandou para um projeto social maneiro, lá na quadra. Foi muito legal até fechar. As tias explicaram que o governador cortou a verba. Eu não sou bobo e sabia que aquelas viaturas novinhas que atacaram a gente foram compradas com o dinheiro que tiraram do projeto. Sem opção, consegui emprego de entregador. Não tirava nem um salário mínimo mas parecia que nossa vida ia estabilizar até minha mãe sofrer um derrame. Ficou acamada, cega e precisando de remédio caro. Eu não queria, mas foi por isso que entrei para a bandidagem. Salário de entregador não bancava o tratamento. A grana era boa, status com as minas. Dava maior moral ostentar arma, até ter que disparar. Na primeira vez a gente treme no gatilho, depois fica mais fácil. Mas no fundo, ninguém aqui quer peitar polícia e quando a gente sabia que eles iriam chegar, debandava geral. Teve um dia em que o caveirão entrou fazendo cena para a televisão, mas não tinha ninguém mais lá, já estava tudo calmo. Mesmo assim eles largaram o dedo no gatilho. Foi quando a polícia matou amigo de infância, matou, criança, matou inocente, mas não matou nenhum bandido pois, antes deles chegarem, a gente debandou para o alto do morro. Antes ter ficado para defender a população, mas o dono da droga só obedecia ao ‘chefão’, um figurão que ninguém sabe quem é e que fica mandando ordem para gente obedecer. Quando cheguei em casa, os vizinhos me esperavam. Pelo olhar deles desabei ali mesmo: a polícia matou minha mãe. Era injusto. Cuidei dela, até entrei para o tráfico para bancar o tratamento dela e agora ela morre de bala perdida da polícia. Deus não existe.

Os parceiros

Sem minha mãe, virei mais um bandidinho revoltado do tráfico, com muito ódio no coração. Adorava esculhambar playboy que vinha seco comprar droga. O pior é que mesmo hostilizado, o branquelo sempre voltava para comprar mais pó. Não era só pelo dinheiro, vivia esperando um comando para largar chumbo na polícia. Só que esse comando nunca aconteceu. Sempre tinha aviso privilegiado para sumir com as drogas e com as armas que a polícia estava chegando. Mas apesar da negatividade, até que tinha uns parceiros bem legais, dispostos a dar a vida pela amizade, pela família e pela comunidade. Um deles era o Curió, o nerd da favela e meu parceiro de infância. Entrou para trafico revoltado, depois de ser humilhado numa faculdade particular onde estudava direito. Perdeu o financiamento do governo e não pode pagar mais. Foi humilhado e impedido de fazer prova por atraso no pagamento. O moleque sabia que eles não podiam fazer isso, mas a revolta deixou ele congelado. Dizia ele: — “A gente nasce sofrendo, quer melhorar de vida e fazem isso? Se fosse branco da zona sul teria um monte de facilidade, mas preto da favela, para eles tem mais que morrer. Quando não é de bala, morre de trabalhar por um salário de fome esperando tratamento na rede pública de saúde”. Isso bastou para o cara pegar num AR15 e passar o dia tagarelando sobre um Che, sobre uma revolução de gente pobre e Zumbi. Também tinha um índio, filho de pajé que não tinha como voltar para sua aldeia e foi acolhido na favela. Ele lembrava chorando quando uns missionários converteram ao cristianismo quase toda sua aldeia. Seu pai, conhecedor das tradições e cultura de seu povo, morreu de desgosto pois se recusou a abrir mão do seu legado. Fico pensando nessas coisas e não consigo dormir.

maes-de-maio-latuff39846.jpg Nosso mundo

É muito ruim quando a gente percebe que vivemos numa pátria que não nos ama. Para sermos aceitos precisamos aceitar os empregos que nos dão, a educação insuficiente que disponibilizam, a religião que eles acreditam e viver o tempo que eles determinam. Minha vingança, é que precisam de quem forneça sua droga. Demorou muito, mas percebi que os riquinhos que compram a nossa droga, são os mesmos que exigem da polícia tolerância zero com os criminosos que, por definição deles, são todos os pretos do morro. É essa clientela fiel do nosso pó que também pede a pena de morte, é contra preto em faculdade e quer mandar criança para a cadeia. Para eles não tem distinção. Se é preto e mora na favela é bandido e merece morrer. Várias vezes alguém tentou dar um basta e a comunidade não quis ouvir, preferiu a paz dos otários acreditando em oferecer a outra face. Precisou morrer muito inocente para ficar evidente que nossa gente nunca foi contra eles, mas eles sempre foram contra nós. Cambada de falsos que vive nas igrejas tentando lavar o sangue de suas consciências com o sangue de outro inocente que morreu na cruz.

Vidas-pretas-importam.jpg Fogo no morro

Demorou muito, e precisou morrer muito inocente, mas uma revolta se espalhou como fogo pelos morros. Foi tanto abuso do governo que os chefes dos morros, mesmo de facções diferentes, resolveram esquecer as diferenças e conversar. Afinal, quem morre na guerra entre facções somos nós, enquanto os barões e capitalistas das drogas, nunca são descobertos ou presos. Ficou acertado que cada comunidade seria independente, mas na hora do perigo e da necessidade seriam todos por um. Era o fim das guerras por território. Mas antes disso, muita briga rolou além de muito cano na cara, mas no final, depois de um líder traficante perder um afilhado de 6 anos de idade numa invasão da polícia, venceu o consenso de que defender nosso povo era prioridade. Estava formada a união mais letal de todas: gente revoltada, armada e organizada por uma causa. Os chefões misteriosos até tentaram impedir essa união, disseram que não era bom para os negócios e que o lucro diminuiria, mas um dos traficantes locais perguntou para ele: “você mora aqui na comunidade? Vive aqui? Sabe o que a gente está passando? Então não se mete”. Sabíamos que iria ter represália e não tardou. Não levou muito tempo para a polícia fazer visitas em qualquer hora e ainda cortaram o fornecimento de armas e drogas. Felizmente, com a união das facções, a necessidade de armas diminuiu e, quanto ao fornecimento de drogas, não falta quem forneça. Estava indo bem, até mandarem a milícia, tentar nos derrubar.

Telhado de vidro

A milícia era forte. Não precisava obedecer a lei e as lideranças eram pessoas de dentro do governo. Alguns ocupavam postos junto ao prefeito e governador, sem falar nos deputados. Mas, com tanto poder e fogo das armas, eles se esqueceram que também eram de uma classe que dependia dos pobres. Esqueceram que as empregadas, porteiros e demais serviçais que eles contratavam para seu conforto também faziam parte das comunidades que eles tentavam exterminar. Esqueceram também que essas pessoas pobres e trabalhadoras também cuidavam de suas esposas e filhos, sabiam seus horários e atividades, sem falar dos que trabalham nas companhias de internet e telefone. Bastou ter as informações certas para que a milícia nos deixasse em paz desde que os negócios que eles tivessem em nossas comunidades não fossem interrompidos.

Nossa rede

Essa união deixaria o governo em alerta. O governador falou numa entrevista que a inteligência da polícia, por meio de escutas telefônicas, tinha detectado indícios do que ele chamou de uma super facção. Combinamos então de não nos comunicar mais por celular, WhatsApp, ou qualquer meio eletrônico. Utilizamos esses meios para transmitir notícias falsas deixando eles tontos e fora do caminho. Mas numa guerra, a comunicação é muito importante, então, recrutamos uma gurizada experta com uniforme de escola que a gente chamava de “pombinhos”. Se alguém de uma determinada favela tinha uma mensagem importante para outra favela, ligava para o outro pedindo ração de passarinho. Assim a gente se articulou enquanto a galera da meritocracia se fartava em pó e erva. Para fortalecer, colocamos vigilância próxima aos quarteis, pagando por informação útil. Um de nossos olheiros era garçom num boteco próximo a um batalhão que sempre avisava da movimentação. Mas era no meio da bebedeira que tinha sempre um policial que entregava alguma coisa de útil. Havia até empregadas nas casas de altos oficiais e de alguns políticos que ficavam em alerta sobre qualquer informação. Até aqui, aparentemente o governador tinha esquecido desse negócio de super facção.

Sangue no olhar

O governo descobriu que a gente estava usando o grampo deles a nosso favor. Marcaram uma operação gigante em quase todas as favelas simultaneamente que, com a proximidade das eleições precisava de um nome pomposo que era “A pisada de Deus”. Nossa rede de informações não falhou e, se não fosse o exagero da operação eles nem teriam nos atingido. Usaram de calibre pesado até granada jogada de helicóptero. Um avião da FAB foi usado para bombardear a mata onde a gente se acolhia e, se não fosse o pessoal dos Direitos Humanos denunciar, eles iam varrer tudo com bomba. Como sempre, a bandidagem foi a menos afetada e nunca morreram tantos moradores. Na mídia, o governador alardeava vitória contra o que ele já tinha batizado de super facção. Mas nem ele esperava que haveria tantas mortes de inocentes para ter que justificar de novo e de novo. Com isso, o governador acabou tirando mais vidas que qualquer outra operação policial já feita. A saída parecia muito evidente. Tínhamos dinheiro, armas e disposição para arrancar deles o respeito e a dignidade que foi tirada de nossos avós africanos e diariamente negada para nós.

O dia do troco

No mês seguinte os pombinhos voaram até de Uber levando instruções. Estava tudo pronto para o que chamamos de “o dia de dar o troco” e com juros. Infelizmente e dada uma certa precariedade de comunicação, o medo que nos envenenou o sangue durante décadas acabou sendo maior e adiamos nosso objetivo por várias semanas. Nunca se está pronto para uma coisa dessas Parecia coisa de filme e apesar de planejado e bem equipados não éramos um exército no sentido profissional da palavra. Essa demora foi o nosso vacilo. De alguma forma, talvez um infiltrado ou observação de satélite, eles descobriram nossa movimentação. O governador estava chapado de tanto sangue e não teve como ordenar um outro massacre e se limitou a fechar as entrada e saídas das comunidades potencialmente perigosas. Ninguém sai ou entra. Um improvisado estado de sítio contra pretos, pobres e favelados estava em vigor. A ironia era que nosso objetivo não era matar ou morrer. As ações objetivavam, chamar atenção para nossa situação e obrigar os meios de comunicação mostrarem a verdade sobre a farsa do pacote antiviolência do governo. Queríamos exigir o fim das operações e as execuções nos morros e comunidades. Foi quando vimos que os brancos ricos do poder não dariam espaço para pretos e pobres do morro pois se tratava de um plano de extermínio.

passeata favela.jpg

Sem medo de caminhar

São 23 horas do dia 12 de maio. Pensei demais no passado e a expectativa se volta para o futuro. Faltam seis horas para amanhecer. São só alguns dias após o massacre e estamos isolados pois as entradas das nossas comunidades estão bloqueadas. A qualquer momento as forças militarizadas podem ter permissão para invadir as casas sem mandado e acabar com nossas vidas como sempre fizeram. A diferença é que dessa vez, estariam com uma salva guarda maior devido ao estado de sítio. Apesar disso, a minha sensação é de que estamos mais fortes. Há um alento no ar. Uns diriam que é a paz que se sente antes da execução, mas discordo. Se algum dia houve solidariedade de verdade na terra, foi nesse dia. Minha comunidade toda se juntou apoiando uns aos outros. As senhoras, fornecendo comida, água, abrigo e remédio para os feridos e órfãos. Os comerciantes doaram gêneros e quase todos ajudavam. Até crentes se juntaram com umbandistas e católicos para orar por nós, pois o massacre foi covarde e sem precedentes. Quero acreditar que isso também acontece nas outras favelas. Até o momento nenhum representante do governo veio nos procurar. Nenhum assistente social, nenhum defensor público nem as ONGs de direitos humanos. Recolhemos os cadáveres e afastamos das casas, pois parecia que iria durar dias. A luz tinha sido cortada em quase todas as comunidades. Estávamos sem comunicação externa e até as crianças foram impedidas de ir para as escolas. O boato era que iriam entrar para caçar o líder da super facção.

O dia do troco

São 5 horas, madrugada do dia 13 de maio. Nos rádios que ainda funcionavam, noticiaram que uma das favelas se juntou e foi em massa na direção do cerco policial. Houve confronto, mas não falou de vítimas. Nesse momento um vento frio soprou sobre os policiais encarregados de nos manter cativos. Foi a motivação que faltava. Sem armas e na mesma hora, motivados pela iniciativa, todas as comunidades se colocaram a caminhar em direção às entradas de suas favelas para ganhar às ruas e estradas em direção a um objetivo único. Mulheres, mães, se colocaram na frente como matriarcas comandantes de sua tropa de protegidos. Todos em silêncio. Sem palavras de ordem, sem gritos de provocação e diante de dezenas de canais de televisão. Os celulares das janelas dos prédios e dos participantes lotavam as redes sociais anunciando um acontecimento nunca antes visto, pois “A favela desceu para o asfalto sem ser carnaval*”. Sem ter planejado retomamos o plano. Num e outro lugar bombas e sprays de pimenta tentaram inibir o povo, mas o governador, desgastado pelos massacres anteriores, ficou com medo e determinou que, se for pacífico deixa seguir. A partir daí cada tentativa de bloqueio policial, um pelotão de crianças furava o cerco deixando os policiais atônitos e sem ação abrindo caminho para as matriarcas passarem seguidas pela massa. Vários políticos e sindicatos ofereceram carros de som, mas foram rejeitados. A massa seguiu pacífica encontrando no caminho outras massas de outras favelas que se juntaram a outros grupos de favelados formando uma gigantesca e poderosa mancha coesa cujo objetivo ainda era ignorado. No meio da tarde éramos um enorme corpo compacto na casa dos milhões quando chegamos em nosso objetivo. O policiamento ao redor do palácio do governo era intimidador, mas o tamanho da massa superava em muito o contingente policial. O silêncio e os olhares fixos dos participantes intimidavam mais que palavras de ordem e ameaças. Nos bairros nobres atravessados pela massa, sentia-se o medo das pessoas ditas “de bem” que, apegadas aos seus crucifixos e bíblias, desejavam uma atitude enérgica e exemplar das autoridades. Ao chegar nas proximidades do palácio do governo, as janelas dos condomínios de luxo, antecipavam o pior. Uns vedaram com colchões, outros colocavam moveis pesados nas portas, outros, se fecharam com correntes. Era uma massa de pessoas sofridas, revoltadas, abandonadas há muito pelos governos e estigmatizadas pelo resto da população. Uma massa de gente sofrida sim, mas linda em sua coesão e imponente por se descobrir com direitos a serem respeitados.

Desfecho

Como era de se esperar, tropas do exército chegaram. Um calafrio geral se apossou de todos, mas como já tinha sido previsto, num gesto simbólico, ninguém largou a mão. Na hora em que um militar ia dar a ordem para a massa se dispersar para liberar o transito, um grupo de soldados e alguns oficiais moradores e ex-moradores de favelas, desertaram largando suas armas e se juntando a massa. Um tiro de fuzil é disparado em direção a um dos soldados desertores que tomba. O tiro atravessa o corpo do soldado atingindo também uma jovem branca que se encontrava atrás do soldado. Ela não era favelada, não era pobre, não usava drogas e morava na zona sul. Uma estudante universitária e simpatizante do movimento que, entre tantos outros, foram acolhidos durante no percurso. Nesse momento a massa explode em correria invadindo o palácio do governo tombando viaturas, tomando as armas dos policiais e dos soldados. Nosso grupo armado que seguiu em separado, enquanto todos os olhos só viam a imensa massa, foi discretamente posicionado nas ruas próximas. Ao ouvir os disparos, avançamos com sangue nos olhos para defender nossos parentes, amigos e familiares. Várias viaturas foram dominadas e o contingente designado para intimidar o povo era agora intimidado. Muitas mortes decorrentes daquele dia serão lembradas nos livros de história. A partir desse marco, o dia 13 de maio será lembrado como o dia em que recuperamos, pelas nossas próprias mãos, a dignidade negada desde a chegada de nossos avós aqui no Brasil.

*Samba de autoria de Wilson das Neves


Alberto Coutinho

Além de marido apaixonado e pai coruja, sou ser indomável e pertinaz perseguidor da verdade que está no horizonte feito utopia. A cada aproximação conheço melhor o mundo, as pessoas e a mim mesmo, mas nunca a possuirei plenamente..
Saiba como escrever na obvious.
version 5/s/sociedade// @obvious, @obvioushp, @obvious_escolha_editor //Alberto Coutinho