R.B. Côvo

Escritor cardiopata.

O meu mundo e o deles

Até onde vai o seu mundo, até onde vai o mundo dos outros, até onde vai o nosso mundo.


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Essa coisa dos mundos é curiosa. A definição de mundo é curiosa. As pessoas têm diferentes definições de mundo. Se pedirmos a trocentos indivíduos que definam “mundo”, aposto que ouviremos umas trocentas perspectivas diferentes. Nós somos diferentes. A única constante é que nessas centenas de definições virão acoplados, invariavelmente, uns e outros pronomes possessivos. Dizemos “o meu mundo”, o “nosso”, o “deles”… Quer dizer, o “deles” pouco importa. E talvez por isso quase nunca o mencionamos. No máximo, sentimos uma ligeira curiosidade. Afinal, é deles. À sua imagem e semelhança.

Já entendeu? Vivemos em mundos dentro de mundos que cabem num mundo maior que é o nosso planeta. Cada um de nós tem um mundo ou vários mundos. Eu tenho vários. Por exemplo, um dos meus mundos é meu quarto, e ai de quem se atreva a violar-lhe o espaço! É meu, e ponto final. Outro mundo meu é o que mantenho com meus amigos. Poucos, mas que riem das mesmas besteiras que eu. De tal forma que só nós nos entendemos. E quando alguém quer entrar no nosso mundo - um estranho - ficamos alerta, jogamos à defesa… Para que entrar mais alguém nesse mundo que tão carinhosa e sabiamente idealizamos? Para quê? Por que há de minha mãe - uma perfeita intrusa, que só por acaso lava minhas roupas e cozinha meu almoço - entrar nesse mundo perfeito que é o meu quarto?

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No fundo, nossos mundos são idealizações que fazemos. E por isso, neles só entra quem nós queremos, deles só faz parte quem bem nos apetece. Também por isso, vemos a classe alta brasileira reclamar, sentida com o frequentar dos aeroportos, teatros, restaurantes, antes só frequentados por eles, antes seus únicos e exclusivos mundos, pelas classes mais baixas. O problema maior nem sei se será os ricos terem mundos só deles, baseados nos seus anseios e possibilidades. Eu tenho meus mundos. Você tem os seus mundos.

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O problema maior é quando seu mundo choca com o mundo dos outros. O problema maior é quando, do que é de todos, você pretende fazer um mundo só seu. O problema maior é você achar ter o direito de banir de um espaço público alguém que você julga estar invadindo seu mundo. O problema maior, o maior de todos, é ter-se permitido, de alguma forma, que alguém, no “nosso” mundo, pensasse assim.

Mas eu não sou a melhor pessoa para falar disso. Odeio quando meu pai - que só por mero acaso paga minhas contas e minhas roupas - usa meu toca-discos.


R.B. Côvo

Escritor cardiopata. .
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