R.B. Côvo

Escritor cardiopata.

O amor segundo Stendhal

As diferentes tipologias e fases do amor. E o remédio para sua cura.


Magritte - The Lovers.jpg Magritte - The Lovers

Presa de nossa busca incessante de compreensão, de significância e de conceituações relativas – o amor. Todos amaram, ao menos uma vez. Todos se feriram. Todos, sem exceção (desculpem-me a arrogância da generalização), já sobre essa paixão se detiveram. E dessa paixão se acometeram. Quantos porquês já não se levantaram? Quantas noites não foram mal dormidas? Quantas angústias não nos alimentaram pensamentos suicidas?

Em todo o lado, em todo o mundo, os moços e as moças mirram, perdem os apetites, passam as noites em vigília, e os pais, outrora moços, lição sabida, arriscam: “é mal de amor”. E ninguém sabe bem ao certo que mal é esse, por onde principia, onde começa, em que ponto da sua vida o jovem foi atacado por essa espécie de bruxaria. O senso comum aceita: acontece, o amor acontece.

Alguns fazem as maiores elucubrações, inventam sistematizações, seguem rastros e trilhos... “Nasceu ali”, apontam, certeiros até nas horas e no vestido. Escrevem as mais tristes e românticas poesias, cartas de amor, ridículas (quem nunca?...), domesticam agonias. Há os que cultivam seu sofrer com tal prazer que chega os invejamos. “Ai, um amor assim, trágico, não correspondido, também queria ter. O alegre e feliz chega enraivece de tanta harmonia.”

klimt o beijo.jpg Klimt - O Beijo

Os amores, há-os de vários tipos. Stendhal, para alguns o inventor do amor, enumera quatro tipologias diferentes: o amor-paixão, o amor-gosto, o amor físico e o amor-vaidade.

O amor-paixão, segundo ele, “o da religiosa portuguesa, o de Heloísa por Abelardo” é o mais arrebatador, é aquele que “nos leva para além de todos os nossos interesses”. Já o amor-gosto, é um amor conforme nossas disposições, cor-de-rosa, afeito às nossas necessidades, que não admite qualquer mácula. Conveniente, de certo modo.

O amor físico (ah, o amor físico!), é o amor baseado nos prazeres carnais. Próprio, sobretudo, da adolescência. Stendhal escreve em “Do amor” que “é por aí que se começa aos dezesseis anos”.

Depois, o amor-vaidade, maioria na sua época (séc. XIX), em que o homem “deseja e tem uma mulher à moda, como se tem um lindo cavalo, como coisa indispensável ao luxo de um jovem”, pois que, prossegue, “a vaidade mais ou menos lisonjeada, mais ou menos espicaçada, dá lugar a vivos sentimentos”.

Stendhal, permissivo, ainda admite a existência de oito ou dez variantes. E como se não bastasse, sua coragem (ou audácia) vai ainda mais longe. O amor tem uma espécie de etapas ou de encadeamento. A saber, sete.

Primeira: a admiração (que pode ocupar o período de um ano). Segunda: o prazer do beijo, do beijar e ser beijado (espaço de um mês até a terceira). Terceira: a esperança. Por menor que seja, essa esperança será o suficiente para o nascimento do amor. Nessa fase, “estudam-se as perfeições”. E é aí que a mulher deve entregar-se, “para um maior prazer físico”. O espaço de tempo entre a terceira e quarta fase é um piscar de olhos.

Na quarta fase nasce o amor. Segundo ele, “o prazer em ver, palpar, sentir com todos os sentidos e tão de perto quanto possível, um ser adorável e que nos ama”. A quinta fase, que não se separa temporalmente da quarta, é a primeira cristalização. Ou seja, a atribuição de mil perfeições, de todas as qualidades àquele que amamos. Cristalização é, nas palavras de Stendhal, “a operação do espírito pela qual se descobre, face a tudo o que se lhe apresenta, as novas perfeições do ser amado”. O ser amado é, então, senhor de todas as perfeições que imaginamos.

stendhal.jpg Stendhal

Contudo, porque a perfeição, mesmo ao nível da felicidade, é suscetível de cansaço, surge, no espaço de alguns dias, a dúvida – a sexta fase – em que o apaixonado duvida da própria felicidade e é tomado de grande apreensão. Dúvida que dará lugar à segunda cristalização, em que o apaixonado diz para consigo mesmo “ela ama-me”.

Nesse tempo, seu pensamento andará num "vai e vem" nervoso, entre um “ela ama-me” e um “será que ela me ama?”, sendo importante que a segunda cristalização exclua, de alguma forma (pela descoberta de novos encantos e prazeres), essa dúvida. Para Stendhal, isso acontece quando “o pobre apaixonado reconhece intimamente: Ela dar-me-ia prazeres que só ela, no mundo, me poderia dar”.

Em suma, três ideias fundamentais ocupam o apaixonado: “ela é completamente perfeita”, “ela ama-me” e “como conseguir a maior prova de amor possível da parte dela?”.

Para Stendhal, o amor é compreensível quando examinado como uma doença. E, assim, será possível lograr a sua cura, examinando e percorrendo atento suas fases. Como o próprio afirma “O amor é como a febre, nasce e extingue-se sem que a vontade tenha nisso a mínima participação”.

O amor, em Stendhal, é uma construção do sujeito. Uma espécie de acometimento irracional, de artifício da sua imaginação. Faz duvidar das evidências, do aparente... E transforma. Transforma o outro, o ser amado, naquilo que mais desejamos. Se queremos que o amado seja ingênuo, veremos – pela cristalização – ingenuidade. Se o queremos, pelo contrário, sagaz, esperto, não o pintarão nossos olhos senão senhor da maior esperteza e sagacidade.

eisenstaedt_alfred_M2_vj_day_lasiter_16x20_L.jpg Foto de Alfted Eisenstaedt

Esse amor de Stendhal existe em todas as idades, entre velho e novo, sendo vivido de forma diferente por mulheres e por homens. Elas são mais emotivas, mais cautelosas (afinal, o que dirão delas por se entregarem aos prazeres carnais?), mais receosas, mas, ao mesmo tempo, de cristalizações mais fortes. “Foi aquele que escolhi”, teimam as moças. São mais certas e seguras da escolha. Curiosamente, também são maiores suas angústias. Depois da entrega, cada uma delas “julga ter passado de rainha a escrava”, “receia que ele tenha apenas querido acrescentar mais uma mulher à sua lista”.

Talvez por isso, o amor de Stendhal é um amor sublimado, cheio de dissimulações, de não-entregas. Um e outro, homem e mulher, jogam, se recolhem, se recatam. Há um cuidado nos olhares e nos gestos. Há um querer e não querer aparentes.

No capítulo IX de “Do amor”, Stendhal escreve: “Faço todos os possíveis para parecer indiferente. Quero impor silêncio ao meu coração que julga ter muito que dizer. Receio sempre ter apenas escrito um suspiro quando cria ter dito uma verdade”.

O amor afeta o discernimento. Discernimento esse que, como nas palavras de Epicuro, é necessário à fruição do prazer. Desse modo, segundo Stendhal, “Uma jovem de dezoito anos não possui suficiente cristalização [...] para poder estar em condições de amar com tanta paixão como uma mulher de vinte e oito anos”. Não desconfia, não foi ferida ainda, não sofreu ainda por amor. Ora, essa desconfiança, essa dor latejando no peito, a frustração do primeiro amor, é que dão cor diferente a um amor mais tardio, mais vivo e agitado, porque “estabelece-se uma luta terrível entre o amor e a desconfiança”. O amor tem de ser menos alegre. O amor feliz se dissipa. É quebrado, torcido pela monotonia, pela segurança inequívoca. E sem receio o amor definha.

tumblr_mgxpy0TfUl1r0rz1ao1_500.jpg Do filme "Romeu e Julieta"

Stendhal defende o amor difícil, desdenhoso da vitória fácil. A esperança é um condimento precioso. Bem como a dúvida; “uma pequena dúvida a acalmar, eis o que faz a sede de todos os instantes, eis o que constitui a vida do amor feliz”.

Da mesma forma, avança a dificuldade da cura, do encontrar de remédios capazes de combater essa doença chamada amor. Segundo ele, o amor só se pode deter no começo. Ainda assim, tomando cuidados e fazendo uso de certos artifícios, pois “o amor de um homem que muito ama frui ou vibra com tudo o que ele imagina e nada há na natureza que não lhe fale de quem ama”.

Para a cura, o amigo que queira curar o doente deve atacar a cristalização e colocar-se sempre ao lado da mulher amada. “Deve falar-lhe, constantemente, do seu amor e da sua amante e ao mesmo tempo fazer surgir sob os seus passos inúmeros pequenos acontecimentos”. Deve levar o doente a lembranças e reflexões aborrecidas, evitar fazer acusações sobre a amada, fazê-lo crer que ela usa com outro de delicadezas que não usa com ele, apontar-lhe um defeito físico ridículo não verificável...

O amor de Stendhal, na sua melhor definição, é febril, psicológico, ora corajoso, ora covarde. Astuto, perigoso, doentio. Um produto social, vaidoso, refinado.


R.B. Côvo

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