R.B. Côvo

Escritor cardiopata.

“LES INVASIONS BARBARES”, DE DENYS ARCAND

Entre o dramático e o cômico, entre o existencial e o cínico "Les invasions barbares" leva-nos a questionamentos bastante pertinentes...


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“Les invasions barbares” (As invasões bárbaras), é um filme franco-canadense, dirigido por Denys Arcand, que conta no seu elenco com Rémy Girard (Rémy), Stéphane Rousseau (Sébastien), Louise Portal (Diane), Yves Jacques (Claude), Pierre Curzi (Pierre), entre outros. Do gênero comédia dramática, conquistou, em 2004, duas estatuetas de Hollywood (melhor filme estrangeiro e melhor cenário original), tendo sido destaque também nos Golden globes, nos Bafta Awards e no César, do mesmo ano.

O filme conta a história de Rémy, um professor universitário com uma doença terminal internado no hospital, cuja relação com o filho (Sébastien) não é a melhor, os dois não se falando já há um longo tempo. Entretanto, Louise, ex-mulher de Rémy, pede ao filho que vá até Montreal, a fim de prestar assistência ao pai. Este, quando chega, apesar de uma tensão inicial, faz tudo o que está ao seu alcance para proporcionar um final de vida digno a seu pai.

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“Les invasions barbares” tem um roteiro excelente. Entre o dramático e o cômico, entre o existencial e o cínico leva-nos a questionamentos bastante pertinentes, a reflexões assaz incômodas, mas necessárias, que nos proporcionam uma espécie de crescimento interior. “Você fez tudo o que queria ter feito?”, “você viveu a vida plenamente?”, “o que você mudaria?”, são tudo questões que, ainda que não colocadas diretamente, o filme nos leva a formular, a colocarmos diante de nós mesmos. Entre os muitos questionamentos, “e se eu fosse Rémy?” parece ser inevitável, e com isso o choque do final iminente, da partida para a qual não estamos preparados e à qual não conseguimos resignar-nos.

O tom jocoso, o humor de Rémy, seu debate com as questões religiosas, conferem mais veracidade, mais realismo à história, e, ao mesmo tempo, maior impacto. Proporciona-nos o sentimento do impacto do cotidiano, da doença que vem e que ceifa uma e outra vida sem propósito, aleatória, mas que redime, que faz-nos enxergar o passado, pensar sobre nossas escolhas, nossos acertos e nossos erros.

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Rémy é um indivíduo vivo, sagaz, alegre, mas sua força e energia esbarram nesse fim precoce, nessa iminência do desfecho, no temor do mistério. É um ser sofrido, no fundo, a quem os rasgos de humor e de agudeza espiritual apenas servem como tênue consolo. A intensidade com que viveu não é, no fim, o bastante. Fica sempre aquele amargo de boca, o que era para ter sido e que não foi, o que era para ter feito e que não fez.

“Les invasions barbares” é uma história de conciliação, de amor, uma história de pai e filho (problemática, como todas), uma história, no sentido mais geral, dos tempos que vivemos, uma história da ausência do conhecimento, um retrato de época. É o retrato de uma sociedade movida pelo capital, onde aqueles que têm dinheiro conseguem tudo o que querem, compram tudo e todos, os serviços destes e daqueles.

Não, não importa se com boas intenções. Importa a imagem que figura na tela de uma sociedade perversa. É perverso esse favorecimento do rico, do abastado; é perverso esse funcionamento do sistema que favorece uns em detrimento de outros; é perverso esse sistema que só permite uma vida e um fim de vida com dignidade a quem tem como pagar por esse luxo. Um luxo (reparem no termo) que não devia ser um luxo. Viver e morrer com dignidade devia ser/estar ao alcance de todos, devia ser uma prerrogativa da sociedade contemporânea.

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Contudo, nossa sociedade pertence a um tempo mísero de conhecimento, mísero de valores. É uma sociedade barbarizada, invadida pelos bárbaros, literalmente, por aqueles que agem segundo outros valores que não os valores de humanidade. É uma sociedade invadida pelo bárbaro muçulmano, que não tem como se proteger, pois ela mesma é degenerativa, é uma sociedade em declínio. É uma sociedade onde o respeito e o apreço são pagos (caso dos seus ex-alunos). Resta a amizade, quando verdadeira. Essa que leva a que as pessoas se desloquem milhares de quilômetros para estar junto, para rir junto, para abraçar, para se despedirem.

Pelo meio, “Les invasions barbares” levanta outras discussões bastante pertinentes, como a prática da eutanásia e o uso de estupefacientes para aliviar o sofrimento. É ou não legítimo/adequado que se proporcione às pessoas um final de vida digno? É ou não um ato de misericórdia que devemos ter para com aqueles que sofrem em demasia, para com os doentes terminais? Deve ou não ser admitida a prática da eutanásia?

“Les invasions barbares” põe em cheque a religião. Afinal, devemos querer ir para o inferno ou para o céu? Afinal, não mataram os portugueses e os espanhóis, no século XVI, “à machadada”, em nome de Deus, os mesmos milhões que as duas Grandes Guerras mundiais do século XX?

“Les invasions barbares” questiona nossas convicções, é um convite à reflexão. É crítico, liberal, pertinente. Como pertinente é a música do desfecho: François Hardy, l´amitié - “Muitos de meus amigos vieram das nuvens,/ Com o sol e a chuva como bagagem./ Fizeram a estação da amizade sincera,/ A mais bela das quatro estações da terra.// Têm a doçura das mais belas paisagens,/ E a fidelidade dos pássaros migradores./ E em seu coração está gravada uma ternura infinita,/ Mas, às vezes, uma tristeza aparece em seus olhos”.

* Fonte das fotos: site AdoroCinema.


R.B. Côvo

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