R.B. Côvo

Escritor cardiopata.

Uma rua chamada pecado

Adaptado de "Um bonde chamado desejo", de Tennessee Williams, "Uma rua chamada pecado" é muito mais do que um filme.


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“Uma rua chamada pecado” (“A streetcar named desire”, no original) é um filme norte-americano, de 1951, dirigido por Elia Kazan, que conta nos principais papéis com Vivien Leigh (Blanche Dubois), Marlon Brando (Stanley Kowalski), Kim Haunter (Stella Kowalski) e Karl Malden (Mitchell), tendo roteiro de Oscar Saul baseado na peça de Tennessee Williams “Um bonde chamado desejo”.

Vencedor de quatro Oscars (melhor atriz – Vivien Leigh; melhor ator coadjuvante, melhor atriz coadjuvante e melhor direção de arte), recebeu um total de 12 indicações, em 1952.

O filme conta a história de Blanche Dubois, uma mulher madura do Sul do país, que se defronta com o problema do envelhecimento, com o alcoolismo e com sua quebra econômica e profissional, uma vez que foi demitida do cargo de professora por se envolver com um rapaz de 17 anos. Na fuga a esses problemas, refugia-se na casa da irmã, Stella, vivendo a partir daí uma relação de estranhamento e de rudeza com seu cunhado, Stanley.

Primeiramente, é digna de nota a fidedignidade da adaptação da peça de Tennessee Williams para o cinema. Desde o cenário às falas, e até mesmo os modos e trejeitos das personagens, tudo é de uma fidelidade e de uma semelhança com o original incrível. Parece que estamos diante de uma colagem, de uma transplantação do conteúdo, como se a peça idealizada pelo famoso escritor fosse literalmente fotografada e colada frame a frame.

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Em segundo lugar, destaco a interpretação de Vivien Leigh, algo realmente digno de uma estatueta de Hollywood, algo verdadeiramente fabuloso. Fabuloso de tal modo que fica difícil imaginar uma outra atriz interpretando Blanche Dubois. A forma como ela representa o cariz nervoso e conturbado da personagem, sua psicose e seus receios, seu medo da luz, sua insegurança é maravilhosa. Marlon Brando, por seu lado, é igual a si próprio, contundente, firme, senhor de uma representação equilibrada e certeira. Grosso como o Stanley que Tennessee Williams possivelmente imaginara.

O filme seria de uma fidedignidade ímpar à dramaturgia não fosse a omissão (e que omissão!) na fala de Blanche, quando esta conta a Mitchell que fora casada e que seu marido se suicidara. No filme, é ocultado o verdadeiro motivo dessa tragédia: Blanche descobrira que o marido mantinha uma relação homoafetiva e durante um baile diz-lhe isso mesmo no ouvido. Por quê? Por que o filme, o diretor, o roteirista decidiram omitir essa fala? Não seria relevante?

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Relevante parece-me ser essa mesma omissão, reveladora em todo o caso do caráter de “Uma rua chamada pecado”, um filme muito impregnado de um grande caráter machista, dessa imposição masculina, o que fica bem patente no comportamento de Stanley e na aceitação de Stella das grosserias deste último, além de presente na discriminação a que Blanche parece votada. Há na película uma espécie de maior culpabilização do instinto, do desejo feminino do que do masculino, afinal Blanche não é uma mulher direita, nem imaculada. O mesmo tipo de discurso, é digno de nota, não se aplica a Stanley, nem a qualquer outro personagem masculino.

Blanche é uma personagem ambivalente, complexa, ora alegre, ora ensimesmada. É sobremaneira teatral, de gestos marcados, voz simples, de uma projeção e tom singulares. É ao mesmo tempo doentia. Existe nela qualquer coisa de depressivo, de apego a um passado que se lhe escapa, ao Belle Reve que o nome da propriedade perdida evoca. Blanche é uma mulher retraída pela sociedade, pelos valores morais da época, por dentro. Ela mesma se reprime, se aplica uma espécie de censura... Ela mesma esconde seus vícios, seus desejos, suas ânsias. Vive uma constante vigilância sobre si mesma. Blanche é a vítima das imposições morais que a rodeiam. Imposições essas que encontram sua personificação mais explícita em Stanley: um homem rude, grosseiro, marcadamente machista, afeito a essa construção social que remete a mulher a um lugar submisso, afeito à desconfiança, ao interesse econômico, à discriminação moral. Stanley representa a sociedade da época, ainda muito rígida moralmente, ainda muito voltada à imposição de uma conduta regrada, especialmente às mulheres. Estas têm que ser ordeiras, subservientes, recatadas; têm que reprimir seus impulsos, caso contrário serão taxadas de “maculadas”, acusadas de não serem “direitas”.

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Num mundo como esse, Tennessee Williams ainda insere um personagem como Mitchell, o homem sensível, mais predisposto ao entendimento do universo feminino, mas ainda assim sujeito dos mais variados preconceitos, ele mesmo imbuído dessa carga moralizante tão própria da época: a mulher deve estar longe dos vícios, não deve presenciar jogos de pôquer, não deve frequentar os mesmos lugares que os homens, porque existem lugares próprios para elas.

Stella, a irmã de Blanche, é a irmã submissa, contente de seu destino (afinal, é sempre assim), é a mulher que acata o lugar social que escolheram para si, que encontra desculpa, em todos os casos, para o comportamento do marido Stanley. Stella é a que nos leva a aceitar as coisas como elas são – é resignada – como se nos dissesse: “é normal. Qual o vosso espanto? Não era para ser assim?”.

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“Uma rua chamada pecado” representa um universo conservador. Um universo conservador onde começam a surgir as primeiras fagulhas liberais (Blanche e a vizinha do andar de cima), onde as mulheres começam a tomar para si as rédeas de sua vida, num despertar assaz vagaroso, de emersão gradual, onde o autor, ironicamente, nos mostra e nos diz, de forma clara, que as vítimas, devido à natureza da imposição social e moral, que é tão fortemente de forma inconsciente internalizada, são ao mesmo tempo predadoras desse sistema, sendo mesmo depositárias de preconceitos de nível semelhante.

Em suma, o grande mérito do filme é fazer-nos observar essa prisão moral ainda existente em nosso tempo. O mérito é tanto maior que ao o assistirmos em 2015, mais de cinquenta anos depois, percebemos que nosso cotidiano é feito de histórias sobremaneira semelhantes, como se não tivéssemos progredido quase nada ou muito, muito pouco. Ainda somos machistas, homofóbicos, demasiadamente moralistas.

* As imagens foram retiradas dos sites Cinemascope, Papo de cinema e Filmow


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