R.B. Côvo

Escritor cardiopata.

O amor segundo Aristófanes

O amor e o mito do andrógino... As origens do amor.


o beijo rodin.jpg O beijo, de Rodin

Aristófanes foi um dos mais importantes dramaturgos da Grécia Antiga, havendo dedicado sua vida à comédia. Escreveu, crê-se, cerca de quarenta dramaturgias, das quais, infelizmente, conhecemos apenas dez (“Lisístrata”, “As rãs”, “Assembleia de mulheres” etc). Da sua vida pouco se sabe. Sabe-se que nasceu em Atenas, em 448 a.c., que atuou na política, além do teatro, e que faleceu na mesma Atenas em 380 a.c.. O mais são probabilidades: seria de família aristocrática, dado seu nível cultural; teve dois filhos, que seguiram sua carreira... Pouco, muito pouco. Mas não é, confesso, sua biografia o que aqui mais me interessa. Interessa-me esmiuçar um discurso que lhe é atribuído no “O Banquete”, de Platão, sobre o amor. Interessa-me o amor, o amor visto por Aristófanes. Ou por Platão.

Na obra supracitada, Aristófanes, respondendo a Erixímaco, começa por dizer algo que ainda hoje faz todo o sentido, até por que o amor é atemporal: os homens não perceberam absolutamente o poder do amor. “Se o percebessem, os maiores templos e altares lhe preparariam”, pois que é “o deus mais amigo do homem”, de quem depende, sem dúvida, “a maior felicidade para o gênero humano”. Mas forçoso é que primeiro se aprenda, continua, “a natureza humana e suas vicissitudes”. Nossa natureza, afirma, não era outrora a mesma que agora.

vishal misra.jpg Almas gêmeas, de Vishal Misra

Segundo Aristófanes, eram três os gêneros da humanidade: masculino, feminino e andrógino. Este último, um gênero distinto. E inteiriça era a forma de cada homem, o dorso sendo redondo e os flancos em círculo, quatros mãos, quatro pernas, dois rostos, quatro orelhas e dois sexos. O masculino era descendente do Sol, o feminino, da Terra, e o andrógino, da Lua. “Eram circulares, tanto eles próprios como a sua locomoção” e “eram de uma força e de um vigor terríveis, e uma grande presunção eles tinham”. Por essa mesma presunção, voltaram-se contra os deuses, tentando fazer uma escalada ao céu.

O que fazer com eles?, foi a questão com que os deuses se depararam. Matá-los não podiam, pois com isso desapareceriam todas as honras e templos que estes lhes erguiam, mas também não era razoável que permanecessem na impunidade. Zeus, então, depois de muito refletir, concluiu que era possível fazer os homens existir, tornando-os mais fracos, cortando-os em dois. Seriam, assim, mais fracos e mais úteis, porque mais numerosos, andariam eretos sobre duas pernas, e se mais pensassem em arrogância, disse Zeus, “os cortarei em dois, e assim sobre uma só perna eles andarão, saltitando”.

amorslider.png Eros e Psique, de A. Canova

Assim dito, assim feito. A cada um que era cortado por Apolo, Zeus mandava que lhe voltassem o rosto para o lado do corte, “a fim de que, contemplando a mutilação, fosse mais moderado o homem”. E Apolo assim fez: puxou, repuxou, torceu, as peles de todos os lados acabando no ventre, no umbigo. “Por conseguinte, desde que a nossa natureza se mutilou em duas, ansiava cada um por sua própria metade e a ela se unia, e envolvendo-se com as mãos e enlaçando-se um no outro, no ardor de se confundirem, morriam de fome e de inércia em geral, por nada quererem fazer um longe do outro”.

Para Aristófanes, “o amor de um pelo outro está implantado nos homens”, buscando fazer um só de dois, buscando a unidade, como “restaurador da nossa antiga natureza”. Cada um de nós é, no entender de Aristófanes, um complemento de um outro, procurando incessantemente esse próprio complemento, sendo que aqueles homens que pertencem ao grupo andrógino gostam de mulheres, ao passo que “todas as mulheres que são o corte de uma mulher não dirigem muito sua atenção aos homens” e “todos os que são corte de um macho perseguem o macho”.

sleeping eros.jpg Sleeping Eros, Rogers Fund, 1943

O amor de Aristófanes é o “desejo e a procura do todo”, a procura da unidade. É o amor além da união sexual, um amor de alma, um amor que não admite distâncias, que quer ficar junto, pela vida fora. É um amor cúmplice, de duas partes que se fundem, de dois que formam o uno. É o amor adivinho, aquele em que os amantes se leem um ao outro, se cruzam física e espiritualmente. O amor de Aristófanes é o amor que teme os deuses, o amor que teme a separação, o amor que teme que novamente sejamos fundidos em dois. Temor grande, pois “o Amor nos dirige e comanda”. Por isso, recomenda Aristófanes, “que ninguém em sua ação se lhe oponha”. Assim, “com ele reconciliados descobriremos e conseguiremos o nosso próprio amado”.

Para Aristófanes, “nossa raça se tornaria feliz, se plenamente realizássemos o amor, e se o seu próprio amado cada um encontrasse, tornando à sua primitiva natureza”. Na continuação afirma: “E se isso é o melhor, é forçoso que dos casos atuais o que mais se lhe avizinha é o melhor, e é este o conseguir um bem amado de natureza conforme ao seu gosto”.

jovem defendendo-se de Eros, de Bouguereau.jpg Jovem defendendo-se de Eros, de Bouguereau

O amor de Aristófanes é, desse modo, um amor de cura, um amor de esperança, um amor de restabelecimento. É um amor útil, que nos permite completarmo-nos. O amor, diz Flávio Gikovate, “nos leva para a inação, para a fusão e diluição no outro, para algo que não é ser nem existir; tem como ideal que o tempo pare, que tudo se torne igual e imutável, que a estabilidade e serenidade nos recordem nossa origem paradisíaca, ou uterina, que provavelmente era bem assim”. O amor de Aristófanes é isso mesmo, a busca pelo regresso ao estado original, a fração procurando o todo. E o amor, o nosso amor, não é mesmo assim?


R.B. Côvo

Escritor cardiopata. .
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