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Infinitas possibilidades entre o caos e a calma

Lucia Righi

jornalista, curiosa, metida, contraditória por definição, daquelas que prefere o caos e a desordem pra se encontrar, que quer estar em todos os lugares ao mesmo tempo e sempre por dentro de tudo que acontece na volta e no mundo, que pretende ler os livros do mundo em uma vida. Um dia ainda dou conta

A ilha virtual em que nos perdemos

A conveniência e a expansão da oferta na internet tem fragilizado as relações humanas. Tem gente colecionando gente como se fossem troféus esquecidos num canto. Tem gente que a muito não conhece uma pessoa de carne e osso, mas toda a semana tem um novo affair virtual. Gente que se alimenta da efemeridade da amizade com seus 2 mil contatos nas mídias sociais. Solidão que nada. Mas ao olhar para o lado não há ninguém. É a tal da tecnologia que nos aproxima e também nos afasta.


Quem nunca se sentiu sozinho na multidão? Em meio a tantos estranhos que cruzam apressados na rua, somos apenas mais um. Cada um com seus problemas, matutando soluções, planejando e organizando mentalmente as próximas tarefas. Ninguém tá nem aí se tu foi demitido, se teu carro quebrou ou se hoje é o dia mais feliz da tua vida. O mundo continua alheio a tua vidinha anônima.

Fechados em nossos mundos particulares, nos entregamos a atividades que nos desligam do que está a nossa volta. Um ótimo papo com um amigo que está longe, a música favorita no itunes, um podcast com algum comentário qualquer, um email que precisa ser respondido, um vídeo no youtube, e mal prestamos atenção no que a pessoa ao nosso lado tanto fala. Às vezes mesmo um bom livro nos faz passar o tempo de espera sem ver o cenário único bem diante de nossos olhos.

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Antologicamente, a tecnologia nos aproxima e também nos afasta. As horas passam rápido na frente do computador, e vamos sucumbindo ao tempo. Quem nunca ficou longo tempo de olho no smartphone sem trocar palavra com quem está ao lado que atire a primeira pedra. Há quem diga que a vida moderna nos leva a uma terrível solidão. As pessoas se tornam cada vez mais introvertidas. Colecionam contatos no Facebook e não conseguem marcar um encontro com um amigo próximo.

A tecnologia vira válvula de escape, e desesperadamente temos que mostrar o quão importante somos. Em inútil fuga da realidade, flagrantemente, constrói-se um mundo paralelo ideal, onde se pode ser perfeito e ter a ilusão de uma vida plena. Nos refugiamos nos tablets da vida para fugir de nós mesmos. Para preencher o vazio interior do que ainda não conquistamos. Sem querer, ela nos seduz e envolve. Sem querer, caímos na armadilha (de satanás) da tal pós-modernidade.

Entre tecnologias, o medo da violência, a pressa e a conveniência, cada vez mais pessoas mergulham na grande bolha da solidão urbana. A que o diretor argentino Gustavo Taretto chama de “solidão do delivery”. Assim vivem os personagens de seu filme Medianeras – Buenos Aires na Era do Amor Virtual. Martin, que está convencido que sofre de todos os males modernos da civilização e vive de freelancers sem botar o nariz para fora de seu diminuto apartamento. Mariana, fadada a solidão repentina de voltar a morar consigo mesma, ainda busca o Wally jamais encontrado no livro da adolescência.

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Os dois personagens parecem terem sido feitos um para o o outro, vivem no mesmo bairro, se cruzam o tempo inteiro, porém não percebem um ao outro. Típico da atribulada vida de tantas distrações em que estamos inseridos. Cada um na sua loucura, aguardam por quem está logo ali ao lado, esperando ser notado. É agoniante ver o quão parecidos, o quão próximos e ao mesmo tempo o quão distantes estão um do outro. Nessas idas e vindas, quanta vezes perdemos a oportunidade da nossa vida?

A sociedade transforma o indivíduo e este a modifica. Na modernidade líquida e amores líquidos de Bauman cada vez mais embarcamos na “lógica do agora, do consumo, do gozo e da artificialidade”. Em uma sociedade de tanta futilidade e opções, nos conectamos e desconectamos uns com os outros, mas sem arriscar muito, sem grandes perdas e custos. Buscamos relacionamentos superficiais nas prateleiras do Tinder que já vêm com prazo de validade. Melhor assim, dói menos. Agora os tempos são “líquidos”. Porque tudo muda rapidamente, nada é feito para durar, para ser “sólido”. O que vale é o momento, é saciar desejos perecíveis, é a necessidade do agora em breves episódios.

As pessoas querem só a parte boa, e por isso se frustram quando a coisa não acontece do jeito que previram. Ninguém quer saber das ideias dos outros, só quer mostrar que tem a melhor. Nas redes sociais, o "mata mata" da imposição de ideias se torna cansativo. Um quer aparecer mais do que outro, quer gritar mais alto e ninguém se entende. E no fim das contas não sobra nada. Nem a fama, nem o crédito, nem o peito estufado de orgulho, nem o momento perdido que não volta mais. Tudo se esvai no outro segundo. Fica é um grande vazio sentado na poltrona ao lado.

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Sou suspeita para falar de tecnologia, pois é minha grande paixão. Hoje o real e o virtual se confundem. Tornou-se tudo a mesma coisa. E como é bom ter um contato direto com quem queremos por perto. Mas não terminemos como o solitário escritor Theodore, de Her, que se apaixona pela voz feminina de seu divertido e sedutor Sistema Operacional. Tudo bem que é um Sistema Operacional chamado Samantha, com a voz da Scarlett Johansson. Mas ainda é só uma perfeita máquina.

A tecnologia serve para abrir novas portas, novas conexões, novos canais. Sempre em expansão. Só que também não dá para se deixar contagiar pelo isolamento urbano em que as pessoas estão se encarcerando, se enfiar numa ilha virtual sem previsão de retorno à vida real. Nada substitui a pessoa de carne e osso, o contato físico, a confiança, o envolvimento sincero. Se permitir vivenciar a intensidade das relações humanas bem de perto. Conviver com os defeitos, fracassos e problemas do outro ainda é a melhor forma de quebra a barreira, se deixar tocar e se aceitar como ser social sujeito a erros e acertos.

Por vezes temos medo de nos aproximar, de sentir, da rejeição, da tristeza, medo de ter medo. Sensações que nos colocam em contato direto com nosso mais genuíno eu. É preciso sair da toca para ver e ser visto, dar a cara a tapa e se permitir viver grandes histórias.

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Quem sabe o teu Wally não está te esperando logo dobrando a esquina?


Lucia Righi

jornalista, curiosa, metida, contraditória por definição, daquelas que prefere o caos e a desordem pra se encontrar, que quer estar em todos os lugares ao mesmo tempo e sempre por dentro de tudo que acontece na volta e no mundo, que pretende ler os livros do mundo em uma vida. Um dia ainda dou conta.
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