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Infinitas possibilidades entre o caos e a calma

Lucia Righi

jornalista, curiosa, metida, contraditória por definição, daquelas que prefere o caos e a desordem pra se encontrar, que quer estar em todos os lugares ao mesmo tempo e sempre por dentro de tudo que acontece na volta e no mundo, que pretende ler os livros do mundo em uma vida. Um dia ainda dou conta

Em busca da coletividade perdida

Parece que o mundo anda mesmo de cabeça para baixo. Vivemos em meio a uma competição acirrada por poder e status, fazendo da economia o centro da nossa vida, enquanto devastamos todo o resto ao redor. Este é um relato contemplativo sobre o mundo, as pessoas, o dinheiro e o amor, baseado em conceitos explanados no documentário I Am, você pode mudar o mundo, do diretor de Hollywood, Tom Shadyac, e no filme Interestelar, do Christopher Nolan.


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Outro dia vi o documentário I Am, você pode mudar o mundo, do famoso e rico diretor de Hollywood, Tom Shadyac, que dirigiu filmes como Ace Ventura e O Todo Poderoso, entre outros do estilo. Eu não gosto dos filmes dele, mas me interessei pelo documentário.

Depois de sofrer um terrível acidente, ele começa a repensar sua vida e embarca em uma viagem para encontrar respostas para duas perguntas: “o que há de errado com o mundo?” e “o que podemos fazer sobre isso?”. O documentário pende para auto-ajuda e não sai muito do lugar comum, mas levanta algumas questões interessantes que me despertaram para ideias paralelas.

O vídeo já começa alertando para a grande competição em que vivemos em um mundo em que temos que ser sempre os melhores. Nossos pais nos ensinam isso. Olhando para trás na história, vemos o quanto estamos continuamente em uma disputa acirrada, exaustiva, descabida por poder e status. Uns querendo tirar vantagem dos outros. Precisamos comprar, acumular, nos sentir superiores, estar sempre um passo a frente, mesmo que para isso tenhamos que usar de hostilidade. A economia, invento humano, vira o centro da existência e dita todas as regras de como vivemos, agimos e nos relacionamos.

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“Pessoas estão mais ricas, mas a vida hoje é mais pobre”, diz filósofo canadense Barry Stroud para a Folha Online. Na reportagem, ele fala que o mundo atual encoraja as pessoas a buscar sempre um tipo de vida próximo a quem tem muito dinheiro. A pressão para o avanço profissional e o sucesso é muito profunda. Levados pelo consumismo e individualismo, tem-se a convicção de que a vida é uma carreira.

É um choque pensar, mas parece que estamos fazendo isso errado e não é de hoje. Consideramos-nos seres tão solitários, uns tentando desesperadamente se comunicar e confrontar com os outros, quando devíamos estar todos conectados, compartilhando e se ajudando mutuamente. A seca em São Paulo traz a tona uma nova visão de coletividade. Triste é precisar esperar a adversidade para nos darmos conta do quão importante é esse engajamento.

A partir de relatos de estudiosos, filósofos e religiosos, Shadyac descobriu que há uma grande conectividade entre todos os seres vivos e seu habitat, que somos todos uma coisa só, uma vez que compartilhamos o tempo todo células e átomos milenares mutamente. E então sugere o nosso poder coletivo para mudar o mundo. Foi aí que o diretor entendeu que ele mesmo, em meio a suas riquezas e deslumbramentos, é o erro que existe no mundo.

Vendo o filme Interestelar – ficção científica do diretor Christopher Nolan que mostra a Terra, num futuro próximo, devastada por pragas, fome e poeira em que astronautas buscam um novo planeta para salvar a humanidade – mais uma vez percebe-se o quanto o dinheiro perde a importância diante da grandiosidade e fragilidade da vida e apego aos familiares e semelhantes se sobressai, uma vez que é preciso agir como espécie para sobreviver.

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Apesar dos diferentes enfoques, os dois filmes trazem questões que se complementam. Falam das relações humanas, da luta pelo coletivo, da população como unidade evolutiva, da abdicação por um bem maior e do egoísmo humano. Até que ponto é possível sair da comodidade para melhorar a vida de estranhos? Ou abrir mão da família para salvar a humanidade? Na teoria parece simples, só que na prática, complica um pouco.

Mas, parece que sempre acima do bem e do mal, está o amor. Por mais racionais, profissionais e ortodoxos que tentemos ser, o que nos une é justamente esse complexo e inexplicável sentimento. Ele está em toda parte, na passagem das gerações, no aprendizado que vem com os anos, nas lições que levamos de cada pessoa que toca nossa vida. E num ato de compaixão, agimos avidamente em favor do próximo, especialmente aqueles com quem criamos laços.

O filósofo francês Lucy Ferry, em seu livro A Revolução do Amor, fala no amor como princípio fundador de uma nova visão de mundo para uma sociedade supostamente condenada ao individualismo. Explica que em outros tempos era o Cosmos e a Razão que ditavam nossa ética. Mas hoje quase ninguém morre por um deus ou uma pátria e o que restou foram os laços afetivos. As sensações inerentes ao vínculo afetivo se sobrepõem à razão, metafisicamente contrariando a racionalidade kantiana e o pretenso interesse darwinista, acima do interesse individual.

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Em Assim Falou Zaratustra, Friedrich Nietzsche proclama a falência da civilização e a aurora de uma nova era em que o homem supera a si mesmo encontrando sua potencialidade negada. Para ele, a criação de novos ideais e a superação de seus limites são capazes de redimir o homem de sua própria condição e lançá-lo para além de si mesmo. Diz ainda, que cabe à civilização a tarefa de preparar o vinda desse “Übermensch”, ou Além-homem. Diante de tantos questionamentos e dos palpáveis problemas que estamos enfrentando, quem sabe esse novo homem mais evoluído está mesmo a caminho, porém de uma forma mais humana e consciente, para um resgate da verdadeira essência da vida.


Lucia Righi

jornalista, curiosa, metida, contraditória por definição, daquelas que prefere o caos e a desordem pra se encontrar, que quer estar em todos os lugares ao mesmo tempo e sempre por dentro de tudo que acontece na volta e no mundo, que pretende ler os livros do mundo em uma vida. Um dia ainda dou conta.
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