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Infinitas possibilidades entre o caos e a calma

Lucia Righi

jornalista, curiosa, metida, contraditória por definição, daquelas que prefere o caos e a desordem pra se encontrar, que quer estar em todos os lugares ao mesmo tempo e sempre por dentro de tudo que acontece na volta e no mundo, que pretende ler os livros do mundo em uma vida. Um dia ainda dou conta

Os filtros da vida

A vida moderna é movida através de filtros. Vivemos nossos dias vendo a vida pela tela dos nossos smartphones, computadores e tablets. Tudo ao redor merece o clique perfeito tratados por filtros überdescolados numa imitação da vida que deve gerar mais curtidas e os melhores comentários. Tem gente que vive tanto pra os outros que esquece de viver para si. Tão preocupados em preencher as mídias sociais, esquecem de preencher sua própria vida. Mas, quem não quer uma vida como as que seguimos nas atualizações do instagram?


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Nunca se absorveu tanta informação no mundo, uma avalanche de ideias, conteúdos e histórias abarrotam nossos smartphones, tablets e notebooks. Preenchem nossos dias. E isso nos leva a uma ansiedade desesperada para assimilar tudo. Não dá pra perder o timing.

Todo dia é a mesma coisa, 58 janelas do navegador abertas, o deslumbramento por saber tudo o que está acontecendo. Muitas páginas abertas e outras tantas salvas nos Meus Favoritos do navegador para ler outra hora. Só que amanhã outras 43 notícias imperdíveis já surgiram, e aquela informação logo é superada, esquecida. Com tanta novidade a cada minuto, não há como dar conta de ler tudo, mas não se pode perder nada.

Ao mesmo tempo em que escrevo esse texto, observo as novidades dos meus amigos no Facebook, dou uma espiada no Twitter e abro meus blogs preferidos, enquanto fotos “instagramadas” e check-ins chegam no meu celular. Movimento a barra de rolagem nas redes sociais e outros links me convidam a clicar.

As redes sociais são nossos jornais diários sempre inéditos. É fantástico pensar que lá está editado tudo, absolutamente tudo, o que acontece ao nosso redor. Perto ou longe. E é lá que está o que há de melhor das pessoas que conhecemos. Mas, se eu sou a notícia, não posso decepcionar meus leitores. Preciso compartilhar informações, gerar conteúdo, preciso dizer desesperadamente tudo o que eu penso. Ver e ser visto. E assim, enchemos a Internet de lixo eletrônico todos os dias. Algo se aproveita, mas a maioria das publicações no dia seguinte já nem interessa mais. Tu lembras o que publicaste na semana passada? Nem eu.

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E olha o paradoxo em que caímos. Alguns dizem que atingimos um isolamento social, fechados em nossos mundinhos virtuais. Mas, ao que parece, estamos é nos “hiperrelacionando”. Segundo o sociólogo francês Michel Maffesoli, “mais do que narcisismo, o selfie é uma forma de nos posicionarmos no mundo e nos definirmos em relação ao outro”. E os selfie sticks (ou na tradução popular, os famosos "pau de selfies") estão aí pra provar o quanto estamos nos autoafirmando por meio da imagem, mostrando o quão interessantes são nossas vidas, tão cheias de amigos e diversão, numa espécie de caricatura da vida real.

Colorimos nossas vidas pelos filtros do Instagram emolduradas em caixinhas que alfinetamos nos murais alheios. E assim, alfinetamos também as consciências. Estão dizendo por aí que estamos vivemos o FOMO (Fear Of Missing Out, ou, medo de estar por fora). Queremos fazer parte, causar. Ter vidas tão plenas como as das fotos de nossos amigos, nem que para isso precisemos blefar. O que parece tão extraordinário na foto, pode nem ser tanto assim "na vida real". Vivemos a urgência de querer tudo, saber tudo, viajar, badalar, estar sempre em lugares memoráveis. Mas parece que a alegria dos momentos só tem validade se for registrada. E haja pau de selfie nessas horas...

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Nesse mundo hedonista que criamos, paira no ar um sentimento de que estamos sempre perdendo algo, de que podíamos estar fazendo coisas mais incríveis nesse exato momento. A ansiedade por estar tendo um dia tão especial como o das fotos de nossos amigos resulta em uma angústia coletiva. Porque eu estou aqui de pantufa enquanto meu amigo está num lugar memorável? Como diz o velho ditado, a grama do outro parece sempre mais verde. E assim, queremos viver e registrar tudo. Mas, na expectativa de novas experiências, não vivemos nenhuma intensamente. Vemos o show através do celular, o casamento através da câmera. Perdi o pôr do sol, mas a foto ficou boa. A festa estava ruim, mas a foto com as amigas ficou maravilhosa. Vamos então contemplando a vida de tela em tela, das janelas do nosso navegador.

Isso tudo gera uma frustração momentânea, logo substituída pelo próximo momento que vai garantir mais um clique imperdível. E a vida vai acontecendo entre cliques e postagens. E quando o celular descarrega somos irresistivelmente contagiados pelo momento. Claro que não sem certo alívio ao notar que o amigo está registrando tudo logo ao lado.

E agora, no que você está pensando?


Lucia Righi

jornalista, curiosa, metida, contraditória por definição, daquelas que prefere o caos e a desordem pra se encontrar, que quer estar em todos os lugares ao mesmo tempo e sempre por dentro de tudo que acontece na volta e no mundo, que pretende ler os livros do mundo em uma vida. Um dia ainda dou conta.
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