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Infinitas possibilidades entre o caos e a calma

Lucia Righi

jornalista, curiosa, metida, contraditória por definição, daquelas que prefere o caos e a desordem pra se encontrar, que quer estar em todos os lugares ao mesmo tempo e sempre por dentro de tudo que acontece na volta e no mundo, que pretende ler os livros do mundo em uma vida. Um dia ainda dou conta

Por que a mulher tem um dia para comemorar?

Ainda sobre o Dia da Mulher e o feminismo. O 8 de março é sempre marcado por belas palavras sobre a beleza, a delicadeza e a sensibilidade da mulher. Mas será que é isso que queremos ouvir?


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Diante de tantas homenagens bem intencionadas no Dia Internacional da Mulher que transitaram pelo meu facebook e instagram, pude perceber o óbvio: há pessoas que não fazem ideia do porque a mulher tem um dia para comemorar.

Pode me chamar de ingrata, mas o fato é que, em meio a flores e a exaltação do amor, delicadeza, beleza, sensibilidade da mulher, a importância da data se perde. Tudo isso pode ser muito bonito, claro, muitas mulheres gostam de flores, só que isso mantém a mulher ainda em seu lugar secundário dentro da nossa sociedade essencialmente patriarcal. Afinal de contas, um buquê de flores resolve tudo, não é mesmo? Não, não é.

Eu adoro flores, mas nem toda mulher precisa gostar. Nem toda mulher é delicada, nem toda mulher nasceu pra a maternidade. Mensagens como “Mulheres deveriam ser amadas e admiradas todos os dias” me deixam com a pulga atrás da orelha sobre a dualidade de seu sentido e de fato perplexa com a falta de compreensão do significado da celebração.

Não! Mulheres não querem ser admiradas apenas por sua beleza estonteante, ou julgadas pela aparência. Gostamos de nos cuidar, sim, mas acima de tudo, queremos ter o direito de sermos inteligentes, empreendedoras, belas e sensuais, tudo ao mesmo tempo. Ou de simplesmente não ser.

Eu não me considero uma dessas feministas convictas, tenho uma opinião muito peculiar sobre o tema e não levanto muitas bandeiras do movimento. Não consegui definir uma posição sobre cantadas na rua, nem sobre o aborto, afinal, não tenho mesmo certeza se esse é um problema exclusivamente da mulher e do seu corpo. Algumas vezes acho que o zelo exagerado para essas questões femininas contradizem e, por vezes, desqualificam o movimento. Mas acredito que toda a mulher é de alguma forma feminista.

Toda mulher compartilha a gana de ser e fazer o que quer sem ser submetida a julgamentos machistas, de poder circular livremente sem medo de ser violentada ou de usar a roupa que lhe convém sem ter que passar pela rotulação de puta ou de santa como se seu corpo fosse uma ameaça constante a si própria. O problema é quando elas mesmas julgam-se mutuamente. Tachando comportamentos e estereotipando atos.

O tempo todo somos condicionadas a ser passivas e agradáveis, podadas, regradas e moldadas como damas, socialmente aceitáveis, dignas de um relacionamento. Cobramos um comportamento puritano umas das outras, para logo ali, virando a esquina, sofrer as consequências dessa prisão onde muitas vezes nós mesmas nos enfiamos, a si e às outras.

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Dentro desse modo de viver tido como correto e impecável, somos enredadas nas amarras sociais provindas dos primórdios da humanidade, em que o homem aprendeu a ser o herdeiro absoluto do poder. Repetimos os padrões machistas que aprendemos, talvez até de forma inconsciente, e nos privamos de nossa própria liberdade. Sim, já me vi em meio a essa teia, exigindo comportamentos alheios que, mas tarde, eu mesma não queria me enquadrar.

Quando uma mulher julga a outra com excesso de pudor, muitas vezes está apenas repetindo frases prontas e impensadas, impostas a ela desde que nasceu. E assim, aprisiona a si mesma. E é por isso que foi criado o pacto da sororidade, a irmandade entre mulheres que convida a um respeito e compreensão mútua.

Sabendo de tudo isso, muita gente, inclusive eu, se identifica com mulheres como Lena Dunham que, na contramão disso tudo, mostra de forma leve e descontraída em sua série Girls (da qual é roteirista e protagonista) que é possível ser musa sem se enquadrar nos padrões estéticos e sem se limitar ao que esperam que sejamos.

Ela mostra seu corpo, considerado por muitos "inadequado" esteticamente, e apresenta cenas de sexo e o cotidiano feminino de forma tão natural, que acaba dando um belo tapa na cara da sociedade por mostrar o óbvio: que cada um é livre para ser quem realmente é e fazer o que tem vontade.

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Foi bonito de ver o discurso de Emma Watson na campanha #HeForShe, reforçando a importância de ter mais homens entendendo e respeitando os direitos das mulheres, afinal, quanto mais os homens praticarem a igualdade entre os gêneros, mais as mulheres se beneficiarão.

Houve um tempo em que homens buscavam ter ao seu lado mulheres submissas com as quais podiam reafirmar diariamente seu poder, uma vez que é isso que a sociedade, inclusive muitas mulheres, de alguma forma espera deles. Mas, hoje, parece que, cada vez mais, admiram mulheres de atitude, por mais que muitas vezes ainda se sintam intimidados com sua autossuficiência.

Acredito que, desmistificar a afirmação de que a mulher é o sexo frágil e incapaz - o que foi algo imposto, mas absolutamente irreal, e estamos aí para provar isso a cada dia -, também tira um pouco dos ombros do homem a exigência de que ele deve ser sempre o forte, sempre aquele que mata no peito, que não chora, que passa por cima de tudo. Homens também tem seus momentos sensíveis e mulheres também gostam disso. Ninguém quer ser durão o tempo todo, nem homens, nem mulheres.

Só que, tem um porém, é preciso ter em mente que a equivalência social é importante, mas as diferenças de gênero também são essenciais para que possamos nos afirmar como um ser único e capaz. Não somos como os homens, somos seres que se completam em suas aptidões e formas de pensar e sentir. Como diz a polêmica feminista Camille Pagia, "o feminismo é muito racionalista. Eu concordo que precisamos de igualdade de condições, mas isso não vai resolver os problemas entre os sexos porque o que existe aí é uma consequência direta da biologia, que não tem sido considerada". Somos diferentes, ainda bem!

No ano em que até o Thor virou a Deusa do Trovão, acompanhando uma ascendente transformação na lista de títulos femininos no universo dos Hqs onde o clube do bolinha bloqueava irredutivelmente a entrada de meninas, pode-se considerar que a mudança está acontecendo. Olha quantas heroínas já temos, todas lutando como verdadeiras mulheres!

O feminismo e o Dia da Mulher são tão importantes porque produziram e continuam produzindo mudanças irreversíveis, impactando diretamente no modo de vida de todas pessoas. A cantora Pitty já deu a real, nesta semana, em resposta a um tweet: “Eu não volto pra cozinha [...] O choro é livre, e nós também.”


Lucia Righi

jornalista, curiosa, metida, contraditória por definição, daquelas que prefere o caos e a desordem pra se encontrar, que quer estar em todos os lugares ao mesmo tempo e sempre por dentro de tudo que acontece na volta e no mundo, que pretende ler os livros do mundo em uma vida. Um dia ainda dou conta.
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