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Infinitas possibilidades entre o caos e a calma

Lucia Righi

jornalista, curiosa, metida, contraditória por definição, daquelas que prefere o caos e a desordem pra se encontrar, que quer estar em todos os lugares ao mesmo tempo e sempre por dentro de tudo que acontece na volta e no mundo, que pretende ler os livros do mundo em uma vida. Um dia ainda dou conta

Quanto vale o tempo?

Dizem que o tempo é relativo. Ele pode passar tão rápido que nem o sentimos, ou tão devagar que um instante parecer horas e uma tarde de domingo uma eternidade inteira. Dizem que cada um é dono do seu próprio tempo, apesar das tantas atividades externas que nos são impostas. Daí a problemática de construí-lo de forma significativa ou não. O tempo está passando e tem tanta coisa para ser feita, resolvida, realizada e só uma coisa é certa: ele nunca para. Quem é dono do seu tempo?


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O tempo hoje é artigo de luxo. A multiplicidade de atividades, possibilidades e deveres parece fazer com que o tempo se estreite. A sensação de que não há tempo para se fazer tudo é generalizada, 24 horas não são suficientes. Equipamo-nos da mais alta tecnologia com a ilusão de facilitar nossas vidas, e continuamos com uma pressa insaciável.

Temos tantas obrigações e responsabilidades que é preciso fazer milagre para administrar, o jeito é estabelecer prioridades. As oito horas de trabalho diárias, que ocupam grande parte do nosso dia, parecem curtas diante das mil atividades que nos esperam, e ai de quem não tenha uma agenda para se organizar e dar conta de tudo. Só que, além disso, diariamente é preciso cuidar da casa, manter tudo arrumado e impecável. Reger a família, cuidar do seu relacionamento, não esquecer dos amigos. Quando chegam os filhos, toda a atenção é pouco e acompanhar seu desenvolvimento, conquistas e desafios é essencial. Se tem animais de estimação: cuidar, assear, brincar.

Não esqueça ainda de se alimentar de três em três horas, jamais pule refeições, pois isso é muito importante para manter a saúde. E falando em saúde, tenha sempre alimentos frescos em casa, faça pelo menos um exercício físico regularmente. Caminhe por 30 minutos. Durma oito horas todas as noites. É preciso também cuidar de si, no mínimo manter em dia a higiene pessoal e cada um sabe o quanto isso exige, ou poderia exigir. Para tudo é preciso dispor de um tempo precioso. Run, run. It's time!!

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Como se não bastasse, não podemos deixar de estudar, estar sempre adquirindo conhecimentos. A recomendação é: leia muitos livros, veja filmes, escute música, informe-se. Acompanhe o seriado da moda, ou será considerado um alienado e não terá assunto com ninguém. Para se ter sucesso é preciso ser intelectual, culto, poliglota, erudito. Estar devidamente atualizado, ler jornais, revistas, assistir o noticiário na televisão. E não abra mão do lazer, faça algo que gosta todos os dias. Amanhã começa tudo de novo, haja pique.

Quem é extremamente ocupado ganha status na sociedade atual, de forma que quem tem tempo livre é repudiado. Ficar parado é ser inútil, vagabundo. Não há tempo para refletir, vivemos num mundo em que a regra é “quanto mais rápido, melhor”. A vida nos exige muito, e está tudo passando rápido demais. O resultado dessa ávida corrida para ganhar tempo e abraçar o mundo gera um efeito inverso, temos a impressão de perdê-lo. A pressa, a ansiedade, o fato de sempre parecer que alguma coisa ficou para trás, gera a sensação de fracasso. Leva ao desgaste físico e mental.

Pesquisas indicam que o ócio é grande aliado da criatividade. É preciso ter um momento, no trabalho e na vida, para se pensar. Perdendo o controle de nossos pensamentos, ficamos engessados, entramos no piloto automático. Prejudicamos nossas relações por estar muito apressados ou distraídos para se envolver profundamente com o que realmente importa: as pessoas ao nosso redor. Não dá tempo, fica para amanhã.

Quanto mais se trabalha, mais dinheiro, menos tempo disponível. E de que adianta ter dinheiro e não poder usufruir? Mas também, como usufruir se não houver dinheiro? Parece uma questão sem solução. E assim, não aproveitamos nada direito. A ânsia em “resolver logo” não permite a devida dedicação a valiosos momentos cotidianos.

Mas, a cada dia, uma nova oportunidade. Dizem que somos os donos do nosso próprio tempo. Podemos construí-lo de forma significativa ou não. Soltar as amarras e se permitir sem culpa é o grande desafio. Disse certa vez o escritor francês Marcel Proust: “Os dias talvez sejam iguais para um relógio, mas não para um homem". Quem é dono do seu tempo?


Lucia Righi

jornalista, curiosa, metida, contraditória por definição, daquelas que prefere o caos e a desordem pra se encontrar, que quer estar em todos os lugares ao mesmo tempo e sempre por dentro de tudo que acontece na volta e no mundo, que pretende ler os livros do mundo em uma vida. Um dia ainda dou conta.
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