vanilla sky

Infinitas possibilidades entre o caos e a calma

Lucia Righi

jornalista, curiosa, metida, contraditória por definição, daquelas que prefere o caos e a desordem pra se encontrar, que quer estar em todos os lugares ao mesmo tempo e sempre por dentro de tudo que acontece na volta e no mundo, que pretende ler os livros do mundo em uma vida. Um dia ainda dou conta

As novelas têm a função de educar?

Suspenderam os jardins da Babilônia (a carrasca do horário nobre da Rede Globo), e a novela teve que passar por uma trágica reformulação para atender às exigências do público. Mas, seguindo a lógica dos descontentes, será que as novelas devem mesmo retratar a realidade e que são responsáveis pelos rumos do comportamento social? É a vida que imita a arte?


Thumbnail image for use-a-cabeca-980.gif

Pela primeira vez na história o horário nobre da Rede Globo está realmente ameaçado. Entre canais pagos, séries americanas e seus poucos concorrentes no canais abertos, a emissora vinha resistindo heroicamente com altos índices de audiência. Até que começou a crise da novela Babilônia.

O drama todo permeia diante da falta de retidão e cumprimento dos “bons costumes” dos personagens da novela, que dariam mau exemplo às famílias brasileiras. Mas péra, quando que alguma novela foi politicamente correta?

Até onde me recordo, as novelas consistem basicamente em uma mocinha tentando ser feliz, e uma vilã valendo-se de todas as mais terríveis artimanhas para tomar/ arruinar o que é seu. Ao menos novelas costumavam ser assim, pois é necessário um enredo, uma problemática, para haver história.

Eu nem quero entrar no mérito da “instituição familiar”, até porque a família, desde que me conheço por gente, já aderiu tantas variáveis quanto possível. Meus pais continuam casados e comemoraram 35 anos de casamento, mas definitivamente não é o usual. Os beijos gays já geraram grandes expectativas, causaram frisson inúmeras vezes nas novelas brasileiras, foram prontamente aceitos no BBB14, levando a sister Vanessa à campeã da edição. Não parece haver motivo para a histeria inicial retornar, até porque os selinhos trocados pelo casal de idosas apareceram como um ato de carinho, sempre contextualizados e em segundo plano em relação ao enredo e não mais como chamarizes sensacionalistas para captar novos espectadores. Preguiça de retroceder nessas discussões que já ficaram no ano passado, quando todos torceram pela felicidade do Félix com o sushiman Niko no final de Amor à Vida.

Mas tem algo que está me incomodando nessa discussão toda: Afinal, novela é um entretenimento ou uma história da vida real? É ficção ou deve estar alinhada a uma realidade nua e crua do nosso cotidiano? É a arte que imita a vida, ou a vida que imita a arte?

vendo-tv-familia-e1333391034485.jpg

Porque veja bem quantas novelas fantasiosas já foram veiculadas, e o retorno da Cora repaginada em Império taí para não nos deixar mentir. Pode ser que a novela Babilônia não tenha engrenado pela chatice da mocinha protagonista sem sal e barraqueira de carteirinha, realmente olhar uma novela sem ter por quem torcer é bem frustrante. Agora dizer que a rejeição vem das suas abordagens caricatas e personagens ou muito bonzinhos, ou muito malvados, que passam longe da vida real é uma asneira. As novelas sempre foram assim.

Eu não entendo daonde veio isso, porque a novela tem que necessariamente retratar a vida real? Geralmente as histórias, especialmente as “novelísticas”, são nutridas de exageros, da exaltação de esteriótipos, encontros arranjados e soluções fora da realidade. É justamente essa a graça dos grandes folhetins. Mas se for pra falar do contrário, bom, a novela Avenida Brasil era cheia de terríveis realidades, ódio, vingança e violência, na qual a maldade era a verdadeira protagonista, e ainda assim foi o maior dos sucessos.

Agora, sem aviso prévio, a sociedade resolve se encher de exacerbados pudores e rejeita as histórias que sempre foram grandes clássicos. Histórias de amor, de vingança, de possessão, de discórdia familiar. Babilônia fala exatamente sobre isso: amor, inveja, compaixão, força. Todo aquele clichezão de sempre.

Sim, nos espelhamos nas novelas em relação à moda, música e jargões que são repetidos do Oiapoque ao Chuí. Uma vez ouvi do diretor Jayme Monjardim em uma palestra que o público das novelas quer ver riqueza e sonhar com uma vida inatingível. Quem vê novela quer a cor do batom ou do esmalte de tal personagem, a roupa que outra usa, ou o sofá de uma casa cenográfica, e daí pode ser da vilã ou da mocinha, o que importa é que é bonito.

Mas, além disso, as novelas estimulam principalmente discussões e reflexões diante de temas atuais. E parece que essa rejeição que recai sobre a novela Babilônia está mesmo beirando a censura, uma vez que barra importantes debates sobre sexualidade, homossexualidade, prostituição, violência e ateísmo.

Independente da abordagem da novela, não se pode garantir que as pessoas vão transformar seu caráter e suas vidas e desgraçar suas famílias por influência de um folhetim. Esse tipo de afirmação apenas subestima o pensamento crítico do espectador. Não me parece sensato atribuir à novela toda essa responsabilidade sobre a educação.

Se fosse pelos motivos apontados, relativos à deterioração de valores morais e "bons costumes", personagens nem tão "certinhos" assim jamais teriam se sobressaído. O livro 50 Tons de Cinza não estaria levando a mulherada ao êxtase, o matador justiceiro Dexter não seria um anti-herói queridinho e a série Back is the New Orange jamais faria o sucesso estrondoso que fez. Dentro da Globo, emplacou o matador de mocinhas na pele do agora cafetão Bruno Gagliasso da minissérie Identidade e a garota de programa Danny Bond de Felizes para Sempre que surge para sacudir o relacionamento de um casal em crise. As pessoas buscam esses esteriótipos, sim. Então, o que há de errado com Babilônia, afinal?

Existe cada vez mais essa exigência para que as novelas sejam politicamente corretas, sem vilões, sem violência, sem sexo ou bebidas alcoólicas, onde todo mundo é “perfeito” e feliz. No fim das contas, os autores preferiram mudar a história a entrar na briga com seu público. Alias, parece que é uma tendência mundial e os vilões perderam seus postos até nos clássicos Disney, a qual está reformulando suas histórias para mostrar um lado, digamos, mais humano das criaturas do mal. Vide Malévola.

nÃo-estou-disposta-o.gif

Gerações inteiras vibraram, se emocionaram e sobreviveram às histórias com vilãs malignas a la Odete Roitman sem virar pessoas perversas ou com problemas de caráter por conta disso. E isso acontece justamente porque são apenas histórias, e histórias não necessariamente refletem a vida real. Ninguém é tão bonzinho como as mocinhas, nem tão malvado como os vilões das histórias. Nem tão raso como seus personagens. O ser humano é muito mais complexo do que isso.

O papel da TV é trazer informações, entreter, interagir. Histórias podem, sim, ser politicamente incorretas e podem, acima de tudo, apresentar realidades diversas. O maniqueísmo também é um clássico e não é necessariamente ruim. Além do mais, nem tudo no mundo são flores e acontece da melhor forma, só que nas novelas, se não pegarem o ladrão, tá errado!

Assim como nos filmes, em um país diferente, na vizinhança ou qualquer outro cenário q nos distancie do meio familiar em que vivemos, as novelas nos mostram outras possibilidades, a realidade não é estática, e as nossas escolhas continuarão dependendo apenas de nós mesmos. Não dá pra ser tão ingênuo a ponto de dizer que as pessoas são influenciadas cegamente pela TV, no máximo terão novas informações sobre assuntos distantes da sua realidade atual e poderão, assim, repensar o rumo de suas vidas diante disso. E pode ter certeza que isso aconteceria de qualquer forma mais cedo ou mais tarde, não por culpa da novela.

O público só quer boas histórias, quer se emocionar, sentir, torcer pelos personagens, ter um momento de descontração. E, especialmente, ter contato com o diferente, uma válvula de escape. Esperar retidão nas novelas só serve pra deixar tudo muito chato. Apenas parem!


Lucia Righi

jornalista, curiosa, metida, contraditória por definição, daquelas que prefere o caos e a desordem pra se encontrar, que quer estar em todos os lugares ao mesmo tempo e sempre por dentro de tudo que acontece na volta e no mundo, que pretende ler os livros do mundo em uma vida. Um dia ainda dou conta.
Saiba como escrever na obvious.
version 3/s/sociedade// @destaque, @hplounge, @obvious, @obvioushp //Lucia Righi
Site Meter