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Infinitas possibilidades entre o caos e a calma

Lucia Righi

jornalista, curiosa, metida, contraditória por definição, daquelas que prefere o caos e a desordem pra se encontrar, que quer estar em todos os lugares ao mesmo tempo e sempre por dentro de tudo que acontece na volta e no mundo, que pretende ler os livros do mundo em uma vida. Um dia ainda dou conta

PADRÕES ESTÉTICOS: Precisamos nos enquadrar?

Eu não quero falar aqui de repressões, nem de indústria da beleza, muito menos de imposição midiática e esteriótipos, mas de preferências. Beleza é subjetiva, temporal e cultural. E nessa amplitude de opiniões, a diversidade impera.


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Assim como a moda, os padrões estéticos que vemos por aí estão em constante mutação. Um dia peitão e silicone imperam soberanos, no outro, não mais que de repente, as despeitadas estão em alta. Antes barriga tanquinho, e agora, pasmem, o “dad bod”, ou corpo de pai, está fazendo a cabeça das mulheres. Chega a ser engraçado acompanhar as variações da beleza ao longo dos tempos.

O ideal parece algo quase sempre inatingível. Tipo uma utopia da qual tentamos nos aproximar. Mais do que isso, a regra é variável, portanto a cada momento, um grupo distinto está em alta. E a cada nova regra, forma-se um novo grupo, diferente do anterior, e assim passamos de um grupo ao outro temporariamente. Ora adequados, ora fora do eixo. Nunca nos enquadraremos em tantas regras. Fodam-se as regras.

Mas, afinal, no que consistem os padrões de beleza? Mais do que moda, eles se referem à opinião da maioria, à uma generalização das preferências individuais. Querendo ou não, as pessoas têm suas preferências, que podem ser influenciadas pelo meio, ou não.

Baseada nisso, uma pesquisa apontou as características que tornam um homem fisicamente atraente pelo mundo, e o Buzzfeed criou um vídeo personificando esses ideais.

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O que mais me chamou a atenção nos resultados da pesquisa, e até me gerou um certo alívio, foi perceber o quanto os padrões de beleza são culturais, amplos, e diferentes em cada lugar. Tendo como referência principalmente sua própria gente e o meio onde se vive. A mídia pode até impor um padrão, mas se perguntarmos à cada pessoa qual as suas preferências particulares, veremos aí uma diversidade inacreditável de elementos e pontos de vistas estéticos. Olha o tamanho do Brasil, impossível haver uma mesma referência estética do Oiapoque ao Chuí.

Por isso, eu não quero falar aqui de repressões, nem de direitos das mulheres, nem de industria da beleza, muito menos de direitos humanos e imposição midiática e esteriótipos. Inclusive me deparei com algo bem interessante sobre isso certo dia: que existem três padrões gerais de beleza femininos vigentes no Brasil, o padrão Miss (curvilínea, caracterizada por uma referência do tipo Marilyn Monroe), o da modelo magérrima e o do mulherão, mais musculosa. Esses são os três tipos de corpo mais desejados e cobiçados por homens e mulheres nas terras tupiniquins. E entre eles, parece haver uma gama de possibilidades de se enquadrar, não é mesmo?

Uma matéria da revista Hypescience diz que os cientistas ainda tentam descobrir o que torna as coisas e pessoas belas, só que a questão é extremamente subjetiva, uma vez que nem todo mundo acha a mesma coisa bonita. “É como perguntar se a sua visão da cor 'vermelha' é a mesma que a de outra pessoa – não há nenhuma maneira de saber com certeza.” Afinal, cada um tem a seu olhar, sua opinião e os seus filtros, e isso geralmente resulta em coisas bem diferentes. Ainda bem!

Dizem que quanto mais simétrico um rosto, mais agradável aos olhos seria. É um visão bem simplista da beleza, e que faz muito sentido. Mas isso só acontece no Ocidente. No Japão, por exemplo, a assimetria é mais valorizada. No Sul do Brasil, a pele branquinha é considerada bonita, enquanto em todo o resto do país, a pele mais morena ou bronzeada é a preferência. Na África Ocidental, quilinhos a mais são sinal de status para a mulherada, o que não acontece em grande parte do mundo. E por aí vai...

Os padrões servem apenas como referência de um ideal, e assim deveria ser. E isso apenas não deveria ser visto como uma afronta, ou como algo a ser perseguido. E sim, como uma estatística totalmente mutante, que depende da época e do local em que nos encontramos. E muito propensa a grandes exceções. Vê-se que a beleza cultuada pelo sexo oposto é muitas vezes diferente do que a buscada na competição entre as pessoas do mesmo sexo. E isso explica muita coisa!

Ninguém é totalmente satisfeito com o seu corpo. Todo mundo queria, no fundo, mudar uma coisinha ou outra. Mas o que importa é se aceitar. Se olhar no espelho e, numa visão geral, gostar do que vê e pensar: eu não desejaria ser mais ninguém além de mim mesma. Melhor se assumir como pessoa única, com características particularmente nossas, em vez de se encher de defeitos e querer ser quem não se é. Ou pior, cair na vala da padronização para se tornar absolutamente igual, como bonecas plásticas de uma mesma série.

Os homens estão mais vaidosos também atualmente, e vaidade não é algo negativo, se sentir bonito e atraente implica na autoestima e na segurança de cada pessoa, desde que não seja excessiva e esteja dentro da sanidade. Mas há muito mais coisas relevantes do que só a beleza, e no jogo de sedução é o conjunto que vale a conquista. Ninguém é só um corpo, ou ao menos não deveria ser. E uma coisa é certa, tem gosto para tudo e pessoas para todos os gostos.

Beleza é algo muito abstrato e intangível. O que é bonito para uma pessoa pode ser horrível para outra. Mas, acima de tudo, a beleza é subversiva, como afirmou certa vez Bernard Shaw. Ela assusta, incomoda, desconserta e depende de um conjunto de elementos, complementos e personalidade que vão formar o todo. E pode estar em qualquer pessoa, vai depender sempre dos olhos e da percepção de quem vê.


Lucia Righi

jornalista, curiosa, metida, contraditória por definição, daquelas que prefere o caos e a desordem pra se encontrar, que quer estar em todos os lugares ao mesmo tempo e sempre por dentro de tudo que acontece na volta e no mundo, que pretende ler os livros do mundo em uma vida. Um dia ainda dou conta.
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