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Infinitas possibilidades entre o caos e a calma

Lucia Righi

jornalista, curiosa, metida, contraditória por definição, daquelas que prefere o caos e a desordem pra se encontrar, que quer estar em todos os lugares ao mesmo tempo e sempre por dentro de tudo que acontece na volta e no mundo, que pretende ler os livros do mundo em uma vida. Um dia ainda dou conta

Uma geração à frente do seu tempo

A geração millennium quer diversão e novidades, pluralidade e liberdade e não se enquadra no estilo de vida burocrático e impositivo que ainda não foi superado no mercado atual. É como se a mente estivesse mil anos luz a frente da realidade em que vivemos e as pessoas ao redor não acompanhassem o raciocínio. A culpa afinal é dos jovens impacientes ou das empresas que não se atualizam?


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Tenho lido muitos textos sobre as novas gerações que estão surgindo, a maioria com afirmações desse tipo: “um bando de gente mimada”, “a geração que quer muito, sem muito esforço”, "uma geração de perdidos e infelizes" que não sabem o que querem. Dizem que essa nova geração fala muito e age pouco, que não quer trabalhar e “vive fora da realidade”. Eu diria melhor: as novas gerações vivem uma nova realidade! E isso não é necessariamente negativo.

Quem já estudou um pouquinho sobre as gerações Y e Z, os millennials, entende que um novo formato de pensamento está surgindo, fruto da tecnologia somada a certeza de querer seguir o caminho oposto de nossos pais, que viveram uma vida de muito trabalho e pouco lazer. Toda nova geração se espelha, ressignifica e transforma o estilo de vida de seus pais, e desta vez não está sendo diferente.

A civilização já foi workaholic, já trabalhou 12, 15, 20 horas por dia, já trocou sua vida pela labuta por anos a fio. Agora parece que seguimos o caminho inverso. A nova geração quer misturar trabalho e diversão, em vez de viver só nas horas vagas. Quer ganhar muita grana enquanto faz uma viagem incrível. E isso existe. Vide Bruno Picinini, o jovem Empreendedor Digital que multiplicou seus lucros conhecendo o mundo e dá dicas sobre trabalhar menos e ganhar mais, assim como blogueiros e tantos outros que buscam novas alternativas de trabalhar com o que gostam.

Surge uma nova geração para ensinar que não é preciso enterrar nossa vida num escritório esperando as 18h e as sextas-feiras. Que quer lazer a cima de tudo, sim, mas está sempre conectada, alerta, desperta, por dentro das novidades mais quentes. Que tem a cabeça fervendo de ideias e o pensamento afiado, ótima percepção e está louca pra mudar o mundo para algo bem melhor do que essa vidinha chata e limitada, cheia de regras, imposições e fronteiras.

Esses jovens querem ambientes inspiradores e chefes que trabalhem em equipe. Querem ser tratados de igual para igual, mas entendem que as exigências de cada cargo podem requerer demandas, horários e carga horária diferentes. E, acima de tudo, não se limitam a fazer algo como sempre foi feito quando podem encontrar uma maneira nova e melhor de executar a tarefa.

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Essa gente tão jovem tem o dom de aprender sozinho (e todos os recursos para tal diante de seus dedos nervosos) e está de saco cheio de parecer rebelde por pensar diferente. Por não aceitar ser enquadrada em modelos retrógrados e, principalmente, por se sentir infeliz nesse padrão rígido e mesquinho de chefes caretas, ditadores e turrões que inventaram para nós, humanos.

E é por isso que dá de ombros diante do desinteresse por mudanças que as empresas e lugares por onde passam insistem em manter. Faz isso porque se frustra ao ser incompreendida e ridicularizada por suas ideias extravagantes e arriscadas que exigem um investimento extra para algo totalmente inovador.

Enquanto grandes empresas investem em interação, liberdade e entretenimento para oportunizar a melhor experiência para seus colaboradores, a maioria esmagadora continua absurdamente trancando informações e abrindo mão da tecnologia, em vez de valer-se dela para conquistar e fidelizar clientes a partir de uma relação mais próxima e transparente. Reprime a disseminação das ferramentas sociais dentro de suas dependências, inibe a comunicação, a interação, a expansão e ainda perde dinheiro.

No livro O Restaurante no Fim do Universo, da saga do Guia do Mochileiro das Galáxias, Douglas Adams faz uma sátira do início da humanidade sugerindo que um grupo de pessoas do planeta Golgafrincham, enviados para “colidir” com um planetinha azul esverdeado que nem mesmo sabiam o nome, chegam à Terra. As pessoas ocupantes da nave não eram nem os brilhantes, nem os realizadores do seu mundo, mas apenas os homens médios. Chegando lá, todas as preocupações eram voltadas a comitês e reuniões para decidir coisas inúteis, a documentários sobre novidades da nova terra e a explodir as “instalações militares” dos nativos. E, no caso de criar a roda, decidir de que cor ela deveria ser.

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O livro foi escrito em 1970, mas ainda descreve brilhantemente a forma em que vivemos mergulhados numa burocracia infrutífera e perversa, que não permite sair fora do quadrado e trava a evolução, como se usássemos um cabresto que nos cega e nos impede de sair daquele miserável caminho considerado “o certo”.

É isso, vivemos num mundo em que tudo é imposto e nada é permitido. Em que as pessoas podam umas as outras por pensar diferente e descartam novidades. Um mundo em que mais do mesmo parece suficiente para seguirmos nossas vidinhas até envelhecer e morrer.

Em vez de as pessoas apreciarem e incentivarem a diversidade e a autenticidade dos indivíduos, insistem em nos escravizar em intolerantes julgamentos. A vida é muito mais plural do que "poder ou não poder". Existe um mundo de possibilidades em frente aos nossos narizes com o qual ninguém quer aprender a lidar.

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Hoje, temos muita informação e estamos descobrindo mil maneiras de utilizá-la a nosso favor, mas não encontramos espaço para agir, as vezes nem para ir além de nossas "obrigações", e por isso nos sentimos perdidos. Vivemos num mundo onde a maioria ainda não entende a importância da instantaneidade das informações que, no minuto seguinte, já não valem nada. Temos muitos ídolos e mestres e uma infinidade de discípulos, muito conhecimento compartilhado e diariamente reinventado. É como se a mente estivesse mil anos luz a frente da realidade em que vivemos e as pessoas ao redor não acompanhassem o raciocínio.

Aos 33 anos, alguns autores me incluem na geração Y, outros não. Pessoalmente, nunca me adaptei ao mercado de trabalho, com sua rigidez de regras e posturas. Em três meses o tédio e o desânimo tomam conta e a minha produção despenca. Hoje me questiono se eu sou inadequada, ou o mercado que o é. Essa nova visão das coisas, pra mim, é um mundo novo que se abre, um respiro que diz que não preciso me enquadrar e um novo rol de oportunidades que permite fazer mais e diferente.

Se somos essa geração que pouco faz, é por não encontrar incentivos para executar o que acredita e ser obrigada a entrar mecanicamente na dança. Os millennials são uma geração de muitas ideias e poucas certezas, mas cheia de vontade de experimentar, de sacudir a poeira e a monotonia e fazer diferente. Talvez essa sensação de travamento seja apenas resultado de um período de adaptação e ajustes entre gerações que, rapidamente, se distanciaram.

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Atualmente, diferente do que muitos pensam, diploma não vale nada e trabalhar com o que se gosta e morar onde quiser é o que está dentro da cabeça desses milhões de jovens, que sonham em suar a camisa nas praias da Califórnia ganhando grana pela web. Porque não? Afinal, o home office está cada vez mais popularizado e dando super certo.

Muitos já estão fazendo isso, enquanto outros esperam uma brecha para poder mostrar a que vieram, soterrados na mediocridade do trabalho maciço e massivo, mecânico e enfadonho, que tentam nos ensinar ser o melhor para "ser alguém" nessa vida.


Lucia Righi

jornalista, curiosa, metida, contraditória por definição, daquelas que prefere o caos e a desordem pra se encontrar, que quer estar em todos os lugares ao mesmo tempo e sempre por dentro de tudo que acontece na volta e no mundo, que pretende ler os livros do mundo em uma vida. Um dia ainda dou conta.
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